sexta-feira, agosto 31, 2007

Feriado

Eu me lembro que em Uberlândia, quando eu era criança, havia desfiles de escolas e militares na avenida principal da cidade nos feriados. Dois feriados bem pertos. O 7 de Setembro e o aniversário da cidade, uma semana antes. Havia desfile nos dois. O de 7 de Setembro era mais rigoroso. Os militares, que exerciam sua ditadura horrorosa sobre o País, mostravam todo o seu poder e sua soberba. Desfilavam batendo forte seus coturnos no asfalto da Av. Afonso Pena. Passavam em frente ao Bar da Mineira, ao Cine Avenida, à Panificadora Pão de Açúcar, à Discolândia. Deixavam claro quem mandava. Eu ficava ali, no meio da multidão, olhando por entre as pessoas, segurando em uma grossa corda de sisal. Eu não imaginava que nos porões da ditadura, pessoas com os mesmo ideais do meu irmão, que havia falecido há poucos anos, estavam sendo subjugadas e torturadas. Eu não sabia de nada.

Mas o feriado do aniversário da cidade era menos formal, sem a característica militar. Eram apenas as escolas que desfilavam. Minha casa ficava numa rua paralela à Afonso Pena, há apenas três quadras. Nela tinha a escola que eu estudava, o Externato Rio Branco. Nos encontrávamos na porta, para irmos todos os alunos juntos, à pé, para a avenida. Quase em frente à minha escola, tinha a casa das irmãs Assis, solteironas donas de um colégio particular, o Kennedy. Era lá que também se reuniam os alunos dele. O Kennedy tinha fanfarra e meu primo Tonho, irmão mais velho do Júnior, tocava bumbo, daqueles bem grandes. Todos nós queríamos tocar também, mas eles eram imensos. Invariavelmente, ele tocava com tanta força que no final do desfile estava lá o Tonho, desfilando com as baquetas sem função, pois havia arrebentado as duas peles que cobriam o bumbo. Eu e o Júnior adorávamos aquilo e comentávamos a força do Tonho.

Tenho uma foto minha desfilando. Me lembro que eu estava no pré-primário, com seis anos. Uma vizinha minha, amiga da família, a Sueli Rosa, estava na segunda série. Eu era imenso de grande para a idade e ela muito pequena. Tão pequena que tinha o apelido de “Grilo”. Colocaram ela na turma do pré-primário e eu na turma do segundo ano. Ela ficou “mordida” de raiva e até hoje se lembra disso.

Normalmente, depois dos desfiles que acabavam tarde, íamos pra casa, minha mãe fazia macarrão, e almoçávamos com acompanhamento de Q-Suco de uva ou framboesa. Meu pai ia cochilar e eu me lembro claramente a forma como ele fazia isso. Deitava na cama, sem tirar os sapatos lustrados, colocava uma perna esticada sobre a outra, um braço sobre o peito e outro dobrado por sobre os olhos. Vejo isso claramente, até hoje.

Eu poderia aqui citar quase uma dezena de lembranças destas datas. Todas elas contribuíram para a formação do meu caráter, desse meu jeito de ser. Lembranças que me fazem o Paulo Duarte e me mantém o mesmo menino grande, cabeçudo e desengonçado que ficava olhando calado para aquelas pessoas passarem perfiladas pelos meus olhos, mesmo sem saber ao certo qual a razão delas fazerem aquilo.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Paraíso Que Preciso

Solitária Lua

Reflexivamente nua

Chapa a luz pela janela

Reduz os olhos dela

A gotas gordas de mel

Que toda vez preciso


Janelas d’alma

Barcas de calma

A tranqüilizar este coração

Céu e som

Perfeito diapasão

Mel e bom

Se insinua assim

Bem pertinho

De mim

Por entre o véu

Do céu

Do paraíso