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sábado, setembro 20, 2008

Prosas curtas sobre separações - 9

Tanto mais doída será a separação quanto mais forte for o encontro. Pessoas se encontram, pessoas se separam, pessoas se reencontram. Em cada separação há sempre a dúvida do reencontro convivendo com a esperança dele. Uma separação tira o sono, deixa os olhos cansados, faz o peito arder. Detalhes que no momento pareciam sem importância se tornam as bases das lembranças nos períodos de separação. E são estas lembranças e esses detalhes que traduzem o sem sentido da separação.


Do not disturb

De repente, ele ficou ali a ler e ler e ler aquela papeleta pendurada na maçaneta daquela porta. Era o que lhe restava fazer até que chegasse a hora de descer, fechar a conta do hotel e ir embora tomar o ônibus. Mas não conseguia deixar de ler e ler e ler aquela papeleta. Ela ainda balançava como um pêndulo. Como naqueles relógios antigos, aumentando a velocidade até chegar ao máximo na parte de baixo da trajetória, chegar à velocidade zero nas laterais e voltar novamente, impulsionado pela aceleração da gravidade que age como um estilingue. Até que em determinado momento, as forças de atrito reduziriam a amplitude do movimento e a papeleta ficaria estática, sem nenhum movimento aparente. Com seu único propósito de alertar aos desavisados para não perturbarem o que aconteceria ali dentro daquele quarto.

Ele não esperou o pêndulo de papel mostrar respeito a uma das leis de Newton. Tentou voltar ao interior do quarto para arrumar as poucas coisas espalhadas por ali. Eram mesmo poucas coisas, poucas peças de roupas, um livro, um telefone celular, algumas poucas latas vazias de cerveja, os restos de duas embalagens de sanduíches triangulares. Foi arrumando tudo, como se tudo estivesse dentro de toda a normalidade esperada. Até os lençóis brancos da cama ele tentou deixar como estavam. Não queria falar para ninguém o que havia acontecido ali durante todo o dia. Nem mesmo à camareira do hotel. Num relance de olhos, percebeu que por pouco não esquecia o pequeno player de mp3. Há pouco o havia utilizado para dançar ao som de Frank Valli. Pegou os foninhos, colocou cada um num ouvido, ligou o aparelho e buscou uma música especial. Na noite anterior havia tido uma surpresa imensa ao saber que mais alguém muito especial também escutava aquela música, só que por um CD num carro enorme e preto. Buscou por aqueles botõezinhos pequenos com seus polegares e indicadores imensos. Play. Jeff Buckley começou a demonstrar toda sua capacidade de emocionar ao cantar Hallelujah. Ficou inerte tentando captar cada som, cada palavra [Talvez eu já estivesse aqui antes/ Eu vi este quarto, eu andei neste chão/ Eu vivia sozinho antes de conhecer você].

Ele se sentou à beira da cama e começou a relembrar a noite anterior. Havia chegado ao hotel cansado, depois de quilômetros de viagem. Ficara na dúvida se jantaria ali mesmo ou se procuraria um lugar mais interessante na cidade. Mas resolvera sair pelas ruas e chegar aos pés de um edifício imponente no alto da avenida. Foi subindo a colina, passando por praças, por ruas nunca vistas. As construções iam se alterando, de comerciais e antigas para residenciais e mais contemporâneas. Foi chegando a um bairro mais charmoso, com bares e restaurantes mais sofisticados. Nem percebeu que estava bem em frente ao edifício. Instantaneamente, parou. Percebeu que era ali o destino de sua busca. Também percebeu que o porteiro lhe olhava com desconfiança. Resolveu continuar em frente, atravessou a rua, foi até a porta de um restaurante italiano, observou bem as pessoas ali dentro, mas continuou até um telefone público. Quando percebeu, havia ligado para o último apartamento daquele edifício. Não deixou que atendessem. Deixou o aparelho no gancho e foi se encostar num poste de publicidade na esquina. O verão estava indo embora, mas Outono ainda não havia dado notícias e a noite estava quente e agradável. Seus olhos se direcionavam àquela varanda e percebeu que um vulto havia aparecido e saído dali. Ficou ali encostado, pensando no que poderia fazer, quando viu um carro vindo bem devagar. Quem dirigia o olhava com atenção e só aí é que ele a percebeu. O carro foi parando sob a escuridão da rua secundária e o poste foi deixado para trás. Quando ele entrou sua respiração lhe disse o que era felicidade. Os olhos dos dois se magnetizaram, conversando entre si. As palavras surgiram, mas não traduziram o que ambos sentiam. Ela então quis mostrar suas músicas gravadas especialmente num CD. Não as deixava terminar, sabendo que no tempo que dispunham apenas trechos poderiam ser ouvidos. Foi quando a música tocou e ele quase perdeu os sentidos. Quase se esqueceu que era Jeff Buckley que a cantava em seu player. Ali era outra versão, mais uma entre tantas para aquela música maravilhosa. Percebeu mais uma vez, o quanto tinha em comum com ela. Via como sua alma era um pedaço da dela e como a alma dela era um pedacinho da sua. O carro deslizou pelas ruas estreitas do bairro e o tempo ali dentro passou rápido, do mesmo modo que passa quando se tem a felicidade dentro de si. Os momentos ali dentro foram breves demais para tanto a dizer e a demonstrar. O tempo corria e ela teria que voltar.

A música ainda tocava nos foninhos e era como se a ouvisse naquele carro. Tudo o que aconteceu daquele momento que ele desceu do carro até o início daquela manhã parece que havia sido extirpado de sua memória. Tudo se resumia aos momentos em que esteve com ela e eles vinham em sua mente um após outro. A manhã havia se iniciado com a porta sendo aberta para que o sorriso dela entrasse. O abraço, as suas mãos grandes segurando o rosto suave para um beijo longo. O cheiro dos cabelos, os olhos fechados que não acreditavam que aqueles momentos estivessem existindo. Então ele fez novamente o gesto com as mãos, tentando envolver um rosto que não mais estava ali. Sentiu ainda o perfume em suas mãos. Uma mistura de aromas, de fragrâncias, de sensações. Tentou relembrar cada um dos momentos daquele dia. Passou por eles como se pudesse gravá-los num filme e assisti-los numa sala vazia e escura de cinema. Saberia perfeitamente quais seriam as cenas mais importantes, qual seria a trilha sonora. A malha macia da roupa preta que ela usava ainda enganava seus sentidos e o fazia além de quase enxergar, quase sentir o corpo dela ainda ali. Mas a seqüência de lembranças daquele dia acabou fazendo chegar ao momento em que ele abre a porta para que ela se vá. Ela o abraça pela última vez, vai para o corredor, olha mais uma vez e se vai. Esta cena já havia se repetido em outras ocasiões e mais uma vez ela havia desaparecido rumo ao elevador. Mas desta vez ele não saberia que seria a última.

As poucas coisas dele que estavam naquele quarto agora repousavam dentro de uma mochila. Ele chega próximo à janela e vê o Sol se caminhando para descer no horizonte. Barulhos de trens vindos de trilhos próximos o relembram de sua infância, quando os sonhos eram fartos e abundantes. Olha para o quarto como se quisesse fotografá-lo com os olhos. Olha para o tecido da cortina, para o estilo do abajur, para os travesseiros amarfanhados. Por todo o dia aquele quarto havia se transformado num templo. Por todo o dia naquele quarto o tempo pareceu estar parado, ao mesmo tempo em que pareceu correr muito mais rápido. As paredes, o teto o piso em carpete lhe carregavam a alma de uma sensação de abandono. Sentiu nas costas a mochila e se encaminhou para a porta. Tocou na papeleta, leu mais uma vez o aviso e pensou em levá-la como souvenir. Já a havia retirado da maçaneta quando concluiu que não precisaria de um souvenir. Voltou com ela para seu lugar, saiu, fechou a porta e imaginou a papeleta no movimento pendular. Tentou calcular o tempo que ela demoraria para a total inércia. Tentou calcular quanto tempo levaria para que ela novamente pudesse estar com ele. Mas sua mente não estava para cálculos e pagou sem pestanejar a conta do hotel. Tomou um táxi que o levaria a um posto na rodovia. De lá, pôde observar os edifícios na cidade, mas não conseguiria ver aquele no alto de uma colina. Mas se lembrou com carinho do poste de publicidade da esquina. Por alguma razão sabia que ele permaneceria intacto em sua memória.

O Sol laranja se vai por entre nuvens persistentes e ele se levanta do banco de madeira que ficava em frente às bombas de combustíveis, já pensando nas horas que passavam. O frentista do posto se aproxima, preocupado e pergunta se está esperando o ônibus. Ele diz que sim e pergunta se ele sempre atrasa. Ao confirmar, o ônibus aparece. Agradece a atenção do frentista, que sorri com um dente a menos. Cumprimenta o motorista e se senta logo atrás dele. Coloca os fones nos ouvidos e liga novamente o mp3 player. Hallelujah chegava ao seu fim e o dia também.

Música: Hallelujah
Intérprete: Jeff Buckley
Autor: Leonard Cohen

domingo, junho 29, 2008

Prosas curtas sobre separações – 8

A separação corrói o interior. Destrói os pontos que conduzem a energia que liga o cérebro ao coração. Ou vice-e-versa. Tem horas que a separação induz ao sono. Ele parece ser a melhor opção, a condição, a única possibilidade. Se fosse possível. E nessas horas, nem o sono vem servir de bálsamo.
O que é dormir? O que seria o desligar-se da realidade e entrar no mundo onírico das noites calmas e suaves? Dormir pode vir a ser o que, realmente? É uma tomada de decisão? É agir de forma abrupta, utilizar-se de ferramentas mecânicas para alterar o próprio destino? É pecado mudar o próprio destino?

Aurora


Passava das três horas da manhã quando ela desistiu de tentar dormir. Jogou seu braço direito para o lado da cama e só encontrou um outro travesseiro sem dono. Macio, mas sem dono. Percebeu que ele estava frio, diferente do seu — quente por receber suas lembranças, sua cabeça quente, seus cabelos soltos, dispersos, sem caminho. Puxou-o para si, como se seu amante fosse. Inspirou o ar guardado nos flocos de espuma e a memória olfativa começou a trabalhar. Era como se pudesse penetrar por aquele travesseiro, olhar para cada um daqueles flocos como se fossem blocos macios de lembranças. Quase podia vê-los, identificá-los pelo aroma, reviver cada gota de suor por eles absorvida. Sua composição, seus hidrocarbonetos, podia reconhecê-los, lembrar de suas faces, se existissem. Suas formas, aproximando-se de aspectos cúbicos, de aparências de paralelepípedos macios. Hexaedros assim, não muito regulares. Aqueles flocos eram seus companheiros de noites, de manhãs, de tardes de amor, acompanhando suspiros, respirações um pouco mais ofegantes, ocasiões com falta de oxigênio. Mas mesmo assim, eles não podiam lhe dar respostas. Apesar de toda a empatia, nada mais que exalar aromas eles podiam fazer. Exalar aromas.

Eram quase quatro horas de um sábado, razoavelmente diferente de outras madrugadas de sábado do passado. Silêncio de almas dormindo, de luz da Lua a penetrar pelas frestas das venezianas de madeira, velhas e alquebradas pelo abrir e fechar às notícias do tempo, das nuvens, do Sol, dos vapores de mercúrio. Das serenatas inusitadas. O calor que já se pronunciava em Outubro lhe colavam de suor as coxas — dos joelhos ao púbis —, voltadas para o lugar vazio da cama. Seu braço estendido, agora sob o travesseiro, seu nariz a buscar emoções aromáticas, seus seios a roçar o lençol, seus pés espalmados, um com a planta por sobre o outro como Cristo na cruz e os olhos a mirar a luz lunar penetrando incólume no quarto... O desconforto de não dormir começou a lhe informar que assim permanecendo — em estado de insônia — lhe imporia penas rigorosas com seu rosto, com sua disposição quando o Sol surgisse na manhã de sábado. Isso já se denunciava em seu corpo, aquecido não pelo fino lençol de algodão a lhe cobrir a nudez, mas pela temperatura da estação, pelo simples fato de permanecer acordada — havia lido há algum tempo sobre o sono, sobre como o corpo humano reduz sua temperatura enquanto dorme —, por deixar seu sangue se agitar pelo movimento que ocorria em seu cérebro. Começou a pensar na razão que lhe fazia permanecer acordada enquanto muitos dormiam. A falta de sono apenas lhe tiraria a capacidade de melhor absorver as lições do dia que se avizinhava. Mas acordada estava. Mais uma vez, acordada estava e pensando — ou se deixando corroer por pensamentos. Fazia calor. Já não eram apenas suas coxas que se colavam molhadas pelo suor. Todas as partes de seu corpo que se tocavam entre si, aquecidas, se demonstravam desta forma. Pequenas gotas exaladas pelos poros, por entre pêlos, em curvas macias, se apresentavam ao ar. Molhavam.

Girou seu corpo, afastou o lençol, apoiou suas costas na cama, afastando ao máximo os braços e as pernas do resto do corpo. Seu corpo agora respirava, espalhado no colchão como o esboço gráfico do Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci. Áureas Proporções se mostrariam naquele pequeno corpo nu de pele branca e macia, não fosse o escuro da madrugada, cortado apenas por fachos de reflexos esparsos. No teto, percebeu a sombra refletida dos arbustos do lado de fora. Algo no jardim refletia a luz da Lua — ou das lâmpadas da rua — por entre as paletas de madeira da janela e criava sombras, figuras estranhas na laje, como um cineminha de crianças. Assim como ao se olhar muito para as nuvens acaba-se encontrando imagens com significados, aquele embaralhado de sombras e luzes começaram a significar algo. Um coelho raivoso se transforma em uma palmeira de caule mais espesso que o comum. Um pirata com bandana na cabeça se movimenta até virar uma girafa alada. Aquela outra figura seria o perfil de um rosto masculino? Algo que lembrasse alguém? Mas tudo lembrava. Dos flocos de espuma no travesseiro às sombras no teto. Essa era a razão de sua insônia e ela bem sabia disso. Essa ausência acompanhada da ansiedade eterna, da sensação que ele acabará nos próximos momentos. Mas o tempo passa e não se acaba. E as noites vêm e o sono não. Mesmo com doses quase industriais de pílulas para dormir o sono que às vezes chega é um sono cansado — talvez mesmo por causa delas —, com pesadelos e sobressaltos.

Desiste das sombras cheias de figuras no teto, acende o abajur, cerra as pálpebras, protegendo as retinas da luz que reflete na parede pintada de um quase vermelho-abóbora. Se fumasse, fumaria. Em vez disso, procura um livro e o primeiro que lhe cai à mão é uma edição de 1979 de Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade. Sempre Drummond. Perdem-se os amigos, perdem-se os amores, mas os poetas sempre ficam. Principalmente Drummond. As folhas do livro, se um dia foram brancas, estão agora num tom quase acobreado. Repara neste detalhe, de como as folhas estão envelhecidas pelo tempo, ou pelas substâncias que trataram a celulose até virar papel. Se põe em dúvida se as folhas estão mesmo neste tom ou se apenas absorve a cor ambiente. Segura o livro com a mão direita e puxa com o polegar esquerdo da contra-capa até a capa, fazendo uma pequena brisa com as folhas. De repente, do interior, cai um pequeno papel. Agacha-se e já identifica a ocasião de sua origem. Numa perfumaria do centro da cidade, aquele papel servira para uma amostra de um perfume masculino. Ali no assoalho, agachada com o pequeno papel de amostra de perfume colado às suas narinas, com o perfume ainda presente no papel se misturando ao seu aroma de mulher, lhe fez recordar cenas de amor, de suor, de calor. Ainda mais lembranças a lhe tirar o sono. O sono.

Sente calor, sente necessidade de dormir. Procura entre livros, discos, pequenas caixas, canetas, batons, pequenos blocos de anotações, o frasco com as pílulas para dormir. Entre tantos objetos, chacoalha como uma cascavel. Deixa-o vazio com ajuda de uma garrafa de água, sem nenhum frescor. Abre as folhas da janela e um brisa fria invade o quarto, proeminente no sobrado. O céu ainda está escuro e o dia parece não chegar nunca. Antes de desligar o abajur, toma o livro, abre numa página qualquer e lê: Mas o homem perdeu o sono. Não podia acreditar. O sono. Novamente. Seria coincidência? E esta noite que não acabava... O dia que não chegava ou o sono que não vinha... Não sabia ao certo o que queria. Se queria dormir ou amanhecer. No escuro, já não sentia calor. Uma sensação de frio lhe arrepiava. Por fora e por dentro. As imagens no teto agora eram diferentes. O preto-e-branco havia ganhado cores. Estranhas. Assim oblongas. Psicodélicas. E o quarto parecia agora silencioso, como se antes não estivesse.

O frio continuava a entrar pela janela, empurrado pela mudança de cores que começava a acontecer na abóbada celeste. Ao pé da cama, o livro de Drummond aberto quase ao meio. Se ela pudesse, leria:

Por entre objetos confusos,
Mal redimidos da noite,
Duas cores se procuram,
Suavemente se enlaçam,
Formando um terceiro tom
A que chamamos aurora.



Livro: Antologia Poética - Carlos Drummond de Andrade
Desenho: Homem Vitruviano - Leonardo da Vinci








sábado, maio 31, 2008

Prosas curtas sobre separações – 7

As pessoas agem de maneira totalmente amorfa ante uma separação. Me repeti agora. Mas é mais um fato que agora se repete nessa prosa. O agir de forma completamente estranha ao comportamento dito esperado das pessoas.

Há um filme interessante em que o personagem principal sobrevive a um acidente aéreo e acaba se transformando. Vai ao encontro do que lhe ameaçava. Não tem mais medo. Se joga contra a parede que lhe escondia a verdade. No filme se apresenta um rompimento. Na prosa aqui, por um lado ele se apresenta também, mas por outro é apenas um esboço. Ou uma tentativa. Ou nem uma coisa nem outra. Tudo se torna confuso na mente das pessoas ante uma separação. E amorfas se tornam suas ações.

Lâmpadas Brancas, Lâmpadas Róseas

Só se lembrava da caminhonete subindo — subindo era realmente a palavra correta para descrever o que o veículo vindo pela esquerda fez — sobre o pequeno e frágil carro que ele dirigia. Mais que isso em suas retinas, só a luz vinda daquela típica luminária de hospital, com seis lâmpadas cegantes, direcionadas para o foco que lhes interessavam, era o que a lembrança reportava. Não era só isso. Se lembrava também da lataria se dobrando, do barulho dos vidros se quebrando, dos ossos se quebrando. Era como se tudo se passasse em slow motion. Acabara de se lembrar de um filme, com Jeff Bridges, onde um avião caía e o desastre, o horror, se esmiuçava na grande tela. O aço da carcaça do avião comendo a terra, revolvendo a plantação — de milho? — com pessoas, com bagagens, com poltronas se misturando como num liqüidificador. Percebeu que sua experiência tinha sido bem mais tranqüila. Não havia pessoas, bagagens, poltronas, pés de milho. Apenas aquela caminhonete lhe tomando o espaço. Apenas seu braço esquerdo, sua clavícula sendo esmagados por aquele ser metálico, movido a diesel, fumegante. 

Continuavam ali as seis lâmpadas, a observar o que sempre observavam. Corpos despedaçados, seres nascendo, outros morrendo. Cânceres, infartos, buracos por tiros, ossos estilhaçados. Sangue brotando. Vidas se esvaindo. Brancas, sépticas, eficientes. Assim continuavam as lâmpadas em sentinela. Continuavam as lembranças, continuava o cérebro a restituir os flashs da memória, a própria memória. 

Do lado de fora daquele ambiente limpo, cartesiano e eficaz, outra pessoa conversava sobre o ocorrido. Dizia não entender como podia aquilo ter acontecido. Ele era — ou ainda é — o exemplo de perfeição em conduzir uma máquina no trânsito. Nunca atravessara um sinal vermelho. Nunca entrara numa contramão. Nunca dirigira do lado esquerdo de uma via. Como poderia ter se envolvido num acidente de trânsito? Se distraiu ou fez algo de errado que não podia ser identificado. O cara da caminhonete em nenhum momento foi citado como possível responsável. Ela já começava a criar a possibilidade de ele ter criado o fato. Ter criado o acidente para chamar sua atenção. O fato de há alguns dias haver terminado com a relação entre eles lhe parecia ser a razão mais apropriada para explicar aquele insólito acontecimento. Um acidente de trânsito ocorrido com uma pessoa que absolutamente não era a pessoa que se poderia envolver num acidente de trânsito. Pessoa cuja capacidade de tratar com as habilidades necessárias para se safar naquela selva do dia a dia da cidade era ele. Mas onde ele estava naquela hora?

Ela explicava para seu interlocutor que aquilo parecia coisa arrumada, não era possível que o acidente pudesse ter acontecido com uma pessoa tão cuidadosa. Um simples acidente de trânsito parecia ter sua ocorrência relacionada a interromper aquilo que ela havia iniciado há algum tempo. Há algum tempo ela havia determinado que sua vida seria alterada. Há alguns meses havia decidido que a retidão, o caráter reto e sempre previsível dele lhe interrompia seu caminho para o que entendia ser seu objetivo de vida. Aquela vida estava absolutamente retilínea, reta demais. Entendia que não havia nascido para retas e ângulos retos. Gostava das curvas, das forças centrífugas, das forças de atrito se relacionando com seu corpo. Com ele, tudo era muito normal. Só normal. Normal no sentido da norma. Previsível. Como um homem tão previsível podia se envolver num prosaico acidente de trânsito? Ela olhou para seu interlocutor, pegou sua mão, sentiu seu calor, percebeu que era o mesmo de sempre, mesmo naquela situação, dentro de uma sala de espera de um hospital. Mãos curvas, pensamentos oblíquos, caráter em forma de camaleão, se adaptando às situações. Curvas, forças centrífugas, forças de atrito. Forças de atrito a criar calor, o mesmo calor antes percebido naquelas oportunidades sentidas. Acontecidas e gozadas em seu esplendor e objetivadas em suas repetições. Uma sensação de segurança lhe passou pelo corpo roliço e quente. Mesmo uma sensação sabida por ela que não lhe trazia segurança. Sensação efêmera é verdade, mas que lhe parecia eterna. A efemeridade e a eternidade se confundiam na sensação e na mistura das letras. Não mais lembrava porque estava naquele hospital. Apenas o que lhe aportava à alma era aquela sensação.

Saíram da sala de espera, cruzaram o saguão onde pessoas tensas, com almas em suspensão aguardavam algo. O ar da rua, mais leve, em movimento por uma suave brisa, criava uma oportunidade mais amena, mais aconchegante para as possibilidades. Entraram no carro estacionado próximo à entrada do hospital. O motor potente, a reluzência da tinta metálica e dos faróis de xenônio e dos vidros blindados eram mais fortes que as seis lâmpadas daquela luminária do centro cirúrgico. O motor rugiu forte, o movimento se fez, o ar se deslocou e as lanternas traseiras e vermelhas foram diminuindo de tamanho conforme se afastavam. As lâmpadas de vapor de sódio avermelhavam a cor prata do carro, apenas quando por baixo delas ele passava, tornando-o salmão. Era como uma lâmpada rósea a piscar intermitentemente. Da cor de mertiolate, timerosal, como na sala do centro cirúrgico.

As seis lâmpadas continuavam brancas, sépticas, eficientes, objetivas no direcionamento ao seu escopo de existência. Retas, como para o qual foram desenvolvidas e fabricadas. A iluminar o reto, mesmo agora fragmentado.


Filme: Fearless (Sem medo de viver)
Diretor: Peter Weir
Com: Jeff Bridges, Rosie Perez, Isabella Rossellini, Tom Hulce.



sexta-feira, abril 25, 2008

Prosas curtas sobre separações – 6

As separações inevitavelmente interferem na vida das pessoas. As fazem agir de maneira totalmente amorfa. Transformam os caminhos, isolam os ares dentro dos peitos, tornam abruptos os ritmos do coração. As separações fazem pessoas ditas sensatas desistirem de assim ser. Separações geram a dor, a vontade do grito, a boca desesperada. Separações são distanciamentos físicos. Ou não. São como imãs que continuam a se atrair, mesmo não estando em contato. As separações não eliminam a força magnética. Talvez não haja ciência. Haja apenas a consciência.

Página 27

Uma tosse quase periódica com origem na última mesa era praticamente o único barulho que se podia ouvir naquela biblioteca. Era possível perceber que quem tossia já se sentia constrangido, como se atrapalhasse imensamente aquelas duas outras únicas pessoas naquela tarde. Na verdade, ele nem mais percebia as tosses seguidas, como se elas pertencessem ao ambiente, como as lâmpadas, o revestimento do piso. Sobre sua mesa, papéis soltos com anotações, um lápis com uma das pontas mordida, dois cadernos, uma pasta de plástico e uma carta junto a um envelope já aberto e com alguns rabiscos e desenhos. O estado do envelope denunciava sua idade ou o desgaste a que teria sido submetido. Não havia livros em sua mesa.

[A terceira ocupante daquele imenso espaço vazio estava tão mergulhada com seus óculos de lentes grossas em dois grossos volumes que nem imaginava que do lado de fora da biblioteca fazia uma tarde ensolarada de sábado, muito menos se preocupava com a tosse intermitente do fundo do salão, tamanha era sua concentração. Ela não tinha a menor idéia, nem o menor interesse em saber o que os demais estavam estudando ou fazendo.]

Entre os vários papéis soltos com anotações escolheu um mais limpo. Tomou o lápis carcomido e escreveu a palavra olvido. Era uma palavra curiosa para ele. Sua aparência vocal com o órgão utilizado para escutar sons sempre lhe incomodava. Escreveu-a outras vezes, intercaladas com ouvido. Começou lendo-as em voz alta, fechando a primeira letra “o” em ouvido e abrindo em olvido. Quando percebeu, estava quase em igualdade de competição com a moça da tosse intermitente. Então passou a apenas analisar aqueles signos; como poderiam ter surgido duas palavras tão parecidas e com significados tão distintos? E como olvido se encaixava tão bem com sentido! Com traços volumosos, escreveu a palavra Não com “n” maiúsculo e bem maior que as demais letras. À sua mão, apenas aqueles papéis, aqueles cadernos com orelhas, o lápis. Começou a tornar o Não mais caprichado. Acertou as falhas onde não havia grafite, deu serifas aos tipos, arredondou o til e terminou fazendo com que o interior do “o” se transformasse numa magra e quase perfeita elipse. Colocou o papel para o lado e pôs a carta no envelope. Ficou quieto por uns três minutos com as duas mãos espalmadas por sobre o envelope, olhando para frente. Só via as estantes da biblioteca com livros e mais livros, entremeadas pelos corredores que lhe permitia a vista alcançar, na parede do fundo, uma reprodução do quadro O Grito de Edvard Munch. A boca da personagem da tela lhe pareceu familiar, como uma letra “o”. Tomou o papel novamente e com o lápis já quase sem ponta escreveu a palavra FIM, em maiúsculas. A palavra saiu quase colada ao “o” do Não, mas pelo lado de baixo. O papel havia se virado e a esguia elipse havia se deitado e o “m” do FIM a tocava. Com a ponta muito grossa do lápis e a rapidez como escreveu a palavra FIM, o “f” havia se encostado no “i” e virou um “a” maiúsculo. Ficou olhando para aquilo e leu AMO, com um “o” muito maior que o resto. Esboçou um sorriso e pensou que mesmo as coisas findas podem se tornar lindas.

Tomou novamente o envelope nas mãos, tirou de seu interior a carta puída de tanto ser manuseada. Abriu suas folhas, colocou-as sobre a mesa e, com o indicador, tentou reduzir as protuberâncias das dobras — isso explicaria o estado do papel. Leu a carta como que fosse a primeira vez. Parou em alguns parágrafos, tentou entender a colocação de algumas palavras, respirou nas vírgulas, parou nos pontos. Ao fim de cada página, colocava-a por baixo das demais e continuava. O dedo indicador da mão direita sempre tentando eliminar a orelha do canto superior direito da folha. As paradas dos parágrafos, a respiração das vírgulas, o descanso dos pontos. Na última página da carta, demorou-se mais, apesar da menor quantidade de palavras e do maior espaço em branco do papel sem pautas. Fixou-se em algumas palavras, olhou bem para a assinatura, verteu uma lágrima. Com o dedo indicador, limpou o líquido do papel, mas já havia mais um círculo enrugado na carta, como as pontas dos dedos quando ficam muito tempo na água. Voltou seus olhos e num relance leu a palavra insensíveis. Ela estava colocada num contexto que tratava das relações desgastadas de duas pessoas. Instantaneamente, ele pegou a última página da carta e a colocou por baixo das demais. Surgiu não outra folha de carta, mas a página de um livro, arrancada de suas companheiras. Nela, um poema de Drummond falava de coisas findas, de coisas intangíveis, de coração confundido, do apelo do Não. Na parte da página sem tipos impressos, uma dedicatória escrita com tinta azul à missivista, que a devolvia junto à carta.

Ele olhou para aquelas letras angulosas há muito escritas naquele pedaço de papel e se lembrou quantas vezes recitou aqueles versos para ela. Ficou imaginando quantas vezes ela os havia lido. As quatro estrofes com três versos sempre terminados em “ão”, um som tão melancólico, sem existência em outras línguas. Os dois primeiros versos de cada estrofe em rima criavam ritmo em cada vez que eram pronunciados. Mais uma vez ficara extasiado com a beleza daquelas palavras simples, mas que colocadas naquela seqüência, diziam tanta poesia! Quanto tempo aquele pedaço de papel ficou fora do livro original? pensou ele. Não havia data na dedicatória, mas pôde relembrar quando naquela mesma biblioteca, há tempos havia arrancado aquela folha — para espanto dela pelo absurdo do bárbaro ato — e feito aquela dedicatória. As mulheres se encantam quando os homens fazem absurdos por elas. Mas agora encanto não mais havia; e o produto do absurdo estava ali nas suas mãos.

Olhou para a reprodução no fim do corredor, percebeu que quem tossia havia deixado o ambiente, voltou a vista para a mesa, juntou os papéis e os cadernos na pasta plástica, dobrou a carta, guardando-a no envelope e este na pasta. Pegou o poema e dirigiu-se às estantes. Conhecia-as muito bem e assim chegou rapidamente numa seção de Literatura Brasileira. Retirou um livro e foi direto no local onde faltava uma folha. A inexistência dela estava ali, quase a reclamar por sua falta. Pensou em quantas pessoas deixaram de ler aquela maravilha por tanto tempo. Pensou em quanto tempo deixou de ver maravilhas em outras pessoas por ter cometido aquele ato. Colocou a página no vazio, leu o poema por uma última vez, fechou o livro com sua dedicatória dentro e o colocou no seu lugar. E se foi.

A terceira pessoa estava tão mergulhada com seus óculos de lentes grossas em dois grossos volumes que nem percebeu que estava sozinha naquele mundo silencioso, perdendo um pôr de Sol deslumbrante que acontecia do lado de fora da biblioteca.


sábado, março 22, 2008

Prosas curtas sobre separações – 5

Como o óbvio título diz, essa série trata de separações. Mas separações não são só físicas. Elas podem ser feitas mediante a colocação de um Oceano Atlântico entre duas pessoas, como no texto do mês passado. Ou não. Ou podem ocorrer numa simultaneidade de presenças absolutamente brutal.

Afinal de contas, o que são separações?
Mais que uma mulher

Era uma tarde clara, daquelas quando a época do ano faz com que o Sol cruze a abóbada celeste bem ao Norte, como a entrar pelos olhos horizontalmente. Era um tempo que o sustento era difícil para os profissionais de sua área de atuação. A recessão que o país passava sufocava os negócios imobiliários e qualquer trabalho, por menor que fosse, ajudava no orçamento, permitindo que os credores fossem enfrentados com mais coragem.

Seu possível cliente — um investidor com dinheiro para fazer uma grande compra, algo raro naqueles tempos — passou para pegá-lo com a intenção de lhe mostrar um imóvel que estava interessado e queria um trabalho de avaliação. Ele não sabia que imóvel seria objeto do trabalho, pois o cliente queria confidencialidade no negócio. Havia conseguido as chaves com um dos proprietários e iria visitar o imóvel, fechado há anos, com um profissional que pudesse lhe abastecer de informações para sua tomada de decisão. O trânsito insuportável do lado de fora daquele carro alemão parecia reservado apenas aos mortais, que não dispunham do silêncio e do ar refrigerado que envolviam aquele ambiente refinado, com bancos de couro, vidros escuros e blindados, amplo espaço nos bancos traseiros e ainda a despreocupação com o ato de dirigir, reservado a um rapaz de uns vinte e cinco anos, com óculos e terno escuros a esconder músculos arduamente trabalhados.

O caminho percorrido diminuiu-lhe a surpresa de parar bem em frente àquele velho clube noturno, há muito tempo fechado e abandonado. Sua atual fachada se reduzira a um muro construído porcamente no alinhamento do imóvel, com um portão de chapa metálica de pequena espessura pregado sobre um quadro de madeiras toscas, a servir de entrada para o imóvel. Quem não conhecia o interior nem imaginava o que ali existia. Ou existira. O muro, encimado por uma verdadeira parede de outdoors, era como enormes barbas grisalhas e mal cuidadas e profundas rugas a esconder um rosto que antes já fora altivo e alegre, característico dos jovens. Tentava enxergar por entre as placas publicitárias, buscando a velha e linda fachada afastada e majestosa do clube, concebida nos anos 50, quando as pessoas tinham na alma o otimismo pós-guerra, que o Mal havia sido vencido, que tudo iria ser maravilhoso. Foi quando o investidor lhe convidou a entrar. O motorista já havia aberto o portão e voltara para cuidar do automóvel; entrou e pôde ver como o tempo pode ser cruel com as coisas bonitas. Sua memória fazia emergir imagens do passado para se colar àquela realidade, talvez na tentativa de maquiar aquela feiúra, aquela fachada descuidada. Tentava encaixar pastilhas sobre pilares pelados, vidros bisotados sobre esquadrias apodrecidas pela ferrugem, carpetes vermelhos sobre uma rampa esburacada. Tentava florescer arbustos sobre chão coberto de lixo, tentava vislumbrar dois pequenos leões de pedra que guardavam a entrada e agora não mais presentes. Tentava sentir o delicioso aroma de pipoca feita na hora num carrinho na calçada e não o cheiro ardido de urina, indicando a presença mais que humana naquele ambiente. A memória insistia em querer se sobrepor à realidade, as tintas de tempos maravilhosos passados naquele prédio.

Os dois entraram no imóvel com o investidor fazendo perguntas a respeito das características da construção, da localização. Seria razoável aproveitar a estrutura do prédio? Ou apenas utilizar o terreno, demolindo tijolo por tijolo? As perguntas lhe vazavam os ouvidos, pois sua atenção se fixara na tentativa de sua memória em colar sobre as imagens que ia vendo, aquelas que há muito havia visto. Colar arte final sobre rascunho. Sim, uma espécie de rascunho invertido, pois este já não trazia a expectativa de evolução para algo finalizado, construído. Era a própria imagem da destruição, não só do aspecto físico do prédio, mas também do que ele representou um dia, quando jovens lotavam o lugar em busca dos amigos, dos amores, das emoções próprias da idade. Era agora um prédio escuro, mas isso era lógico. Nunca havia entrado ali com as luzes apagadas. Toda aquela entrada era sempre bem iluminada nos tempos de luz. Holofotes direcionados para quadros na parede jogavam luz indireta sobre as pessoas. A iluminação daquele ambiente era de um bom gosto incrível. As pessoas não se sentiam agredidas pela claridade, ao contrário, os pontos luminosos eram em sua maioria imperceptíveis. Apenas os objetos iluminados recebiam destaque e não a fonte luminosa. As tapeçarias nas paredes, os quadros, as esculturas, uma fonte simpática a jorrar água sobre si mesma, as pessoas. Estes eram os atores principais daquela peça que acontecia naquele tempo. Naquele momento, observando o ambiente, a memória lhe trazia os rostos das pessoas que freqüentavam aquele lugar e elas eram bem diferentes da realidade de então. Os rapazes e as moças — como era difícil se lembrar com estas palavras: rapazes e moças, vocabulário mais arcaico para estes dias difíceis... — tinham aspectos dos mais estranhos, visto a evolução da moda e dos costumes. Os caras — sim, já eram assim chamados — que gostavam de se mostrar mais atuais cortavam seu cabelo como John Travolta nos filmes em que à época faziam sucesso. Outros ainda mantinham o que sobrou do final dos anos sessenta e início dos setenta. Cabelos compridos como os das bandas de rock que apareceram naquela época, preenchendo o vazio deixado pelos Beatles e ocupando os corações e mentes daqueles jovens que não tiveram a oportunidade de ver John, nem Paul, nem George, nem Ringo. Mas algo era comum a todos e os tornava uma tribo: as calças de boca larga, a rodear toda a circunferência dos sapatos plataforma. Algumas ainda com cintura baixa a deixar a já aposentada Brigit Bardot com saudades de seu tempo. Inimagináveis barrigas masculinas ficavam à mostra, deixando em vantagem os adolescentes que praticavam algum esporte. Talvez isso explicasse como o esporte naquela década era tão valorizado pelos jovens daqueles anos. As meninas eram quase uma tribo única. Cabelos, em sua maioria compridos — lisos conviviam com enrolados sem nenhum preconceito, pois não havia ainda a ditadura da pranchinha, a nivelar belezas das meninas adolescentes —, saias rodadas, meias de lurex — para quem nunca viu, uma malha com pontos brilhantes — dentro de sandálias glamurosas. Pontos brilhantes. Talvez esse fosse o ponto. Ou os pontos que faziam a diferença para ele. As pessoas eram pontos brilhantes e era assim que ele as via. Sentia-se com um deles, naquela época. Havia decidido assim permanecer e por isso, se juntara a outro ponto luminoso. A idéia era ampliar a luz, expandi-la para outras fronteiras.

Nesta hora, quebrando a ligação com os tempos passados, o investidor lhe chama a atenção para a amplitude do lugar. Estavam no salão principal da construção e mesmo para um capitalista convicto, aquilo era maravilhoso e ele falava dos tacos da madeira nobre em composição geométrica que não mais existia naqueles dias atuais, dos forros de gesso em formato de ameba, típicos dos anos 50, das colunas com desenhos e grafismos em que a cultura dos anos de globalização banalizaram. Ele sorriu e sentiu que mesmo alguém que apenas se preocupava com o retorno sobre o investimento também reconhecia aquilo que ele um dia havia reverenciado. Olhava para o teto quando o investidor — tomado de um entusiasmo incomum aos que se preocupam apenas com o saldo bancário —, puxou as grossas, velhas e empoeiradas cortinas, deixando que os raios de sol penetrassem no ambiente por enormes esquadrias guardando ainda vidros embaçados e sujos. Pelo horário, o Sol já se preparava para deixar aquelas paisagens. Ia inclinado, quase a tocar o horizonte, mas com força suficiente para jorrar seus fótons por sobre um até então não notado globo de espelhos preso ao teto do salão. O ato de abertura das cortinas, não apenas por si só, mas pelo jorro no globo, iluminaram o ambiente caquético. Pedacinhos de luz se espalharam pelas paredes, pelo teto, pelo chão. Espalharam-se pela sua mente, pela sua memória. Imediatamente lhe veio nos ouvidos — ouvidos distantes, de memória apenas — uma música daqueles anos. Era uma música que tocara à exaustão naquela época. Os irmãos que a cantavam faziam rios de dinheiro com músicas lentas — como os caras daquela época gostavam de músicas lentas... — e outras, podemos dizer, de balanço. Mas a que ele se lembrou no momento, vendo aqueles pedacinhos de luz espalhados pelo ambiente, foi uma que dizia algo sobre uma mulher que fazia parte de tudo que ele fazia, cujos braços o fazia se sentir como se tivesse encontrado o paraíso. Braços que deixara descansar sua cabeça, sua alma. Braços que havia segurado, conduzido pelas notas daquela música que dizia algo sobre uma mulher que era muito mais que uma simples mulher. Para ele, muito mais que uma mulher. Naquela época, ele achava que passados mil anos, ele voltaria a se apaixonar por aquela mulher. Imaginava que se a perdesse, morreria. O globo estava parado — o movimento daqueles tempos o embriagava — mas refletia pontos por todos os lados. Olhou para seu lado e nem o investidor viu. Poeira, tempo putrefato, dias passados era o que via. Sua memória cansada foi buscar nos recônditos do cérebro as lembranças daqueles dias. Os cabelos, a saia rodada, os olhos. O conjunto maravilhoso flutuando no ar, na memória, no ar agora empoeirado. Onde estariam agora todos aqueles elementos? Onde havia se escondido aquele olhar? E aqueles cabelos, aquela pele de seda? Aquele espírito livre, disposto a mudar o mundo, a beijá-lo com lábios não aflitos de vida, mas ansiosos, elevando a alma, as almas, a um pedestal elevado, a um altar humano, demasiadamente humano. Onde estaria aquele coração pulsante, a ritmar o colo branco, vibrando os seios ansiosos de vida? Onde estaria a sede, a fome, a vontade?

A razão começou a lhe trazer para os dias atuais. Enquanto os pontos luminosos lhe levavam ao passado, flashs invertidos — como negativos de fotografias — lhe faziam se sentir nos dias atuais. Naqueles que seriam os dias futuros daqueles maravilhosos dias. Pensava como seria no final do dia ao voltar para sua casa. A história não havia sido como imaginara, como a música dos Bees Gees descrevia. Na sua casa havia outra mulher, diferente daquela que recebera aqueles pontos de luz refletidos pelo globo de espelhos. Diferente em alma. Diferente em olhos. Diferente em seios, em lábios, em flancos nem tanto agora ansiosos.

A razão — ou as palavras objetivas do investidor — lhe traziam à realidade. Valia ou não a pena o investimento? Jogar ao chão ou restaurar aquele imóvel? Sugeriu o fechamento da cortina, pois o Sol já se ia; propôs a saída do salão, já que a poeira invadia os canais nasais. Incentivou a observação externa do prédio — a alma já caía em prantos.
Do lado de fora, um rapaz de uns vinte e cinco anos, com óculos e terno escuros a esconder músculos arduamente trabalhados, guardava um carro alemão, escuro, como a noite que se avizinhava. A última visão do edifício, o último elogio ao elemento imobiliário, ao ente cosmopolita, indivíduo urbano daquela comunidade de olhos cegos, de ouvidos moucos, de boca rota.

O compromisso feito de uma avaliação absolutamente profissional, indicando as melhores opções de retorno, buscando alavancar os investimentos com melhores taxas de retorno e menor pay back estariam disponibilizadas na semana posterior. O cadeado dourado fechava os toscos portões enquanto fechavam sobre si mesmos as portas blindadas com couro de cor bege, elegantes e suaves. O ar refrigerado já estava ligado para maior conforto dos ocupantes do automóvel que se mostrava superior aos demais veículos daquela via transversal. A movimentação da máquina, a compenetração do trabalho do motorista, a ansiedade por retorno sobre o capital do investidor, confrontavam com a sua vontade de voltar para sua casa. Iria olhar para os olhos da mulher que lá estava. Iria tentar sentir o coração a pulsar sob os seios. Seria ela mais que uma mulher?

Música: More Than a Woman
Intérpretes: Bee Gees



sábado, fevereiro 23, 2008

Prosas curtas sobre separações - 4

Muitos de nós passamos por questionamentos brutais, por perguntas que não querem calar. Duvidamos de coisas até então ditas como verdades, olhamos para os lados com olhos diferentes. Miramos o horizonte com olhos que parecem não ser os próprios. E às vezes é necessário entender que viver nada mais é que estar num eterno estado de mudanças. Penetrar nesse mundo é penetrar na vida. Assim se parece.

No mês passado postei aqui um texto onde alguém com mais experiência se questiona, busca por coisas e pessoas que há muito se pareciam perdidas no tempo e no espaço. Agora, de certa maneira, isso se repete aqui, mas com enfoque diferente. Um olhar na necessidade de mudar até os ossos e continuar a ser a mesma pessoa. Talvez nós podemos mudar tudo e continuar a ser a mesma pessoa.

Viagem com Goethe

Ela estava naquele aeroporto, mas seu pensamento não. Estava na assustadora massa de água salgada que teria que transpor para realizar sua aventura. Pensava o pior. O avião no oceano, pedaços de tudo espalhado por onde a vista alcançasse. E aquela massa brutal de água por baixo do seu corpo. Balançou a cabeça e sentiu aqueles pensamentos escaparem como água por cabelos molhados. Começou a se lembrar de Goethe. Rapidamente enfiou a mão na bolsa de tecido impermeável e sentiu que não havia esquecido o livro. Imaginava-se caminhando entre ciprestes, em cidades medievais, conversando com velhos que lembrassem seu avô. Tirou o livro da bolsa, puxou a capa e leu na orelha: “Sigo sendo a mesma pessoa, mas creio ter mudado até os ossos”. Queria se sentir na viagem assim, do mesmo jeito que Goethe se sentiu naquele tempo, há mais de duzentos anos, bem mais que seus quase vinte. Mas percebeu que já se sentia desta maneira. Os acontecimentos das últimas semanas tinham feito até seus ossos mudarem. Se fosse há um ano atrás, a decisão de vender seus poucos bens para empreender esta viagem seria impensável. Se lembrava de como era metódica e nem um pouco dada a arroubos ou aventuras. Era apenas mais uma dedicada universitária que se formaria com notas altas, paparicada por professores orgulhosos de sua cria. Professores. Seu pensamento tinha saído da morte eminente em águas internacionais para cair onde ela não queria, de onde queria fugir. Não teve jeito. Foi preciso lembrar-se dele, como numa necessidade de vomitar o que lhe revolvia o estômago, o coração. Lembrou da primeira vez que o viu, na sala de aula, no terceiro dia de faculdade. Sentara-se na primeira fila de carteiras, como havia feito por toda sua vida escolar; ele chegou à beira do tablado de madeira, que servia de uma espécie de palco. Ela sentada, ele de pé. O campo de visão que ela tinha era amplo, mas só tinha olhos para a apertada calça jeans do professor. Olhou tanto, tentou tanto imaginar seu interior, que ele não pôde deixar de perceber a avidez daqueles olhos azuis. Não foi necessário mais que um mês para se envolverem numa ardente relação, meio estranha, meio implacável. Um já meio grisalho professor de quarenta anos e uma branquela miúda de dezoito. O ar nas aulas parecia eletrificado e esta eletricidade afetava os demais alunos, que rapidamente perceberam o que acontecia. E quanto mais pessoas começavam a perceber a relação dos dois, mais ela procurava ser como sempre foi. Fechada em si mesma, dedicada aos estudos, devorando livros, tirando as melhores notas da turma. Sentando-se na primeira fila.

Por um momento, uma enorme algazarra lhe roubou a atenção. Uns trinta metros à frente de onde estava sentada, um grupo de pessoas recebia alguém que chegara de longe. O viajante dizia em voz alta – praticamente gritava – como era bom voltar ao seu país, como o cheiro de sua terra era bom. Imediatamente ela se lembrou de uma frase do livro que segurava contra o peito: “Signor, perdonate! Questa è la mia patria!”. Abriu um sorriso, se lembrou do trecho do livro, em que uma medonha cantoria havia assustado Goethe, e de certa forma, desculpou aquele senhor por assustá-la também. Começou a pensar se se comportaria assim também quando retornasse. Iria mudar até os ossos e seguir sendo a mesma pessoa? Iria gritar num saguão de aeroporto para tantas pessoas sua saudade de seu país? Abraçaria e beijaria as pessoas como aquele senhor estava fazendo? Percebeu que poderia sim, pois ter entrado de cabeça num caso de amor sem futuro, com um homem casado, absolutamente apaixonado por sua mulher de anos de convivência já foi uma mudança até os ossos. Ter deixado para trás este estranho caso de amor foi outra óssea transformação. Ter trancado a matrícula na faculdade. Ter vendido carro, terreno. Ter posto as mãos em todas suas economias. Ter decidido imitar, ao menos em parte, o que Goethe fez. Ter tomado a decisão de partir como Goethe fez, no anonimato, sem que ninguém soubesse. Apenas cartas postadas horas antes de sua partida contariam para pessoas escolhidas seu destino, mas não sua volta. Pela primeira vez estava analisando como havia feito várias mudanças num período tão pequeno de sua vida, ainda tão inicial. Imaginava-se, até então, como uma personalidade pronta, perfeita, sem necessidade de alterações. Imaginava-se intelectualmente encaminhada e ponto final. O que mais poderia importar se não o alcance de seu sonho? Não havia percebido quanto que mirar num sonho impede de sequer olhar de relance para outros. Era excessivamente focada em suas atividades, buscando sua meta com a firmeza dos grandes executivos de grandes corporações. Passaria por onde e por quem fosse necessário para atingir seu objetivo. Mas naquele momento, sentada num banco de aeroporto, à espera do anúncio de embarque, percebeu que já havia mudado até os ossos. Parecia uma pessoa totalmente diferente. Era louca antes ou tornou-se agora? Não conseguiria responder, mas se sentia segura e tranqüila quanto ao desejo de chegar ao seu destino. E para vislumbrá-lo melhor, abriu o livro e procurou as aquarelas, os nanquins, os rascunhos realizados há séculos, retratando as paisagens que ela ansiosamente aguardava encontrar.

Fechou o livro, olhou para seu relógio quase que simultaneamente ao aviso de embarque ecoando por todo o aeroporto. Teve a sensação que o aviso era unicamente para ela e como se assim fosse, se levantou e foi atender à solicitação. Jogou a bolsa-mochila às costas, arrumou o prendedor nos cabelos e, no rápido movimento da cabeça, percebeu com o canto dos olhos uma figura de aspecto familiar parada no mezanino do saguão, com as mãos apoiadas no guarda-corpos. Sentiu um frio na espinha, mas se conteve e não voltou seu olhar para ela. Começou a caminhar para o portão de embarque imaginando se o vulto que havia visto poderia ser ele. Se fosse, não teria descido? Estaria ali só para se certificar de sua partida? Ou seria outra pessoa com o mesmo biótipo e vivendo sua própria vida? Ela não quis resposta e entrou no corredor, mostrando bilhete e documentos aos funcionários da companhia aérea. Enquanto caminhava no túnel que levava à aeronave, se virou para trás, mas só via pessoas que lhe acompanhariam na viagem.

Sentou-se em sua poltrona junto à janela, olhou para fora e as luzes do aeroporto eram embaralhadas pela garoa que formava gotículas na superfície transparente. Uma senhora de uns cinqüenta e poucos anos, com certeza em sua primeira viagem de avião, senta-se na poltrona oposta, na mesma fileira e está pálida, como a luz branca da aeronave. Sua respiração é difícil e o suor desmancha sua pesada maquiagem. Pouco depois senta-se ao seu lado uma mulher de uns vinte e cinco anos, mostrando ter muito, muito mais experiência de vida que a mãe apavorada, com um copo de água, procurando acalmar-lhe. Desvia o olhar, que já censurava o estilo de vida da filha da assustada mãe, ajusta o cinto, estica as pernas e volta novamente o olhar para o aeroporto. Os comissários de bordo fazem o procedimento padrão e a aeronave começa a se movimentar.

A chuva parece aumentar ou talvez a simples movimentação tenha transmitido esta impressão. A grande massa metálica já corre contra o vento, deixando as luzes do aeroporto obliquamente inclinadas e empanadas pela velocidade. Ela continua a olhar pela janela e o que vê é uma imensa camada de nuvens que por muito tempo permaneceriam ali, dando a impressão que o avião estava parado. Decidiu que sua atitude de não olhar para a tal figura foi a mais acertada, acalmando assim, sua inquieta alma. Algum tempo depois de observar as características das personalidades de alguns de seus acompanhantes, ela olhou para fora e já podia ver algumas estrelas. Estava sobre uma enorme massa de vapor de água que estava sobre uma enorme massa de água salgada e sob uma enorme massa de estrelas. Mais uma vez veio à sua mente o eterno estado de mudanças em que havia penetrado. Haveria de mudar novamente até os ossos e continuar seguindo a ser a mesma pessoa? Fechou os olhos, dormiu e sonhou que estava caminhando entre ciprestes, em cidades medievais, conversando com velhos que lembravam seu avô.

Livro: Viagem à Itália: 1786 – 1788
Título original: Italienische Reise
Autor: Johann Wolfgang von Goethe
Tradução: Sérgio Tellaroli
Ed. Companhia das Letras – São Paulo - 1999

sábado, janeiro 26, 2008

Prosas curtas sobre separações - 3

Em Dezembro publiquei um texto que faz parte desse grupo de prosas curtas sobre separações, do qual esse agora faz parte. Depois do post vieram me perguntar se é ficção ou se aquilo aconteceu. Disseram que há detalhes demais para não ter acontecido de verdade. Mas é ficção. Mas há coisas ali retiradas de coisas acontecidas. Não necessariamente comigo. Podem ter acontecido comigo. Ou com você que me lê, caro leitor... O bom da ficção é isso. Talvez não aconteceu... Mas pode ter acontecido. Com você, comigo, com o cara que mora em frente, com o personagem de um filme antigo que passa na TV de madrugada. Ou com seu pai.

Neste post, acontece o mesmo. Muita coisa aí pode ter acontecido. Outras poderiam. O limiar do acontecer é tênue demais. Um mínimo desvio e aquilo que poderia ter acontecido fica apenas na imaginação. Na ficção. Ou não.

Não posso tirar meus olhos de você

Enquanto assinava a fatura do cartão de crédito para pagamento de quarenta litros de gasolina e de uma garrafa de água mineral, percebeu que todas as pessoas que estavam próximas ao pátio do posto olhavam curiosas para aquela obra de arte montada sobre quatro pneus. Claro que não era a primeira vez que isso acontecia. Houve casos de crianças que pediam para dar uma voltinha, sob o olhar de adultos morrendo de inveja e se arrependendo de terem crescido e perdido a inocência das crianças. Nestas horas, esta inocência fazia toda a diferença. Guardou o cartão na carteira, pegou as chaves do bolso, tirou uma folha de uma sete copas que havia se jogado sobre a capota preta, entrou na obra de arte e todos lhe olhando. Quando pôs a chave na ignição e a girou, o motor V8 de 365hp roncou grave, maravilhando agora os ouvidos dos donos dos olhos já maravilhados na platéia. Reparou que um adolescente falou algo com muita convicção para alguém que deveria ser seu pai, que concordou com a cabeça, sorrindo. Engatou a ré e começou a se afastar lentamente, quase que para não atrapalhar o deleite das pessoas. Foi quando se aproximou da dupla e pode escutar quando o filho disse ao pai que o carro era tão bonito que não podia tirar os olhos dele. Sentiu que havia poesia naquelas palavras, sentiu-se parte dela e sorriu interiormente, pois também sentia a mesma coisa. Acelerou pelo piso de paralelepípedos e quando já saía do posto, tomando a rodovia, olhou pelo retrovisor externo e todas aquelas pessoas olhavam em sua direção, com rostos quase que extasiados.

Manteve na memória o rosto do tal adolescente e se lembrou que foi naquela idade, com uns quatorze ou quinze anos, que vira pela primeira vez um Chevelle. Era uma época que não existiam carros importados no país e apenas por ser um, já era muita novidade. Mas as formas do carro, o barulho do motor, tudo isso maravilhou aquele adolescente dos anos 70. Naquela época, aquele exemplar já tinha uns três ou quatro anos, mas seu proprietário cuidava dele como uma obra de arte que realmente era, por isso sua aparência de zero quilômetro que aquele adolescente imaginou ser. Só muito tempo depois é que ficou sabendo que aquele era um Chevrolet Chevelle SS 454, ano 1971.

Depois de quase trinta anos, estava ele dirigindo um destes exemplares raros de máquinas que não se fabricam mais. Observou o interior do carro e se lembrou como estava quando o comprou, quase pronto para o ferro velho. O interior fora inteiramente refeito: forrações, bancos, painel. A maioria com equipamentos originais e reformados. Olhou para frente e viu apontando para a faixa preta de asfalto sendo engolida, o capô vermelho com as duas faixas pretas, que se repetiam na traseira. Começou a se concentrar na viagem, pois algum apressadinho num carro de último tipo acabara de lhe ultrapassar de forma perigosa. Mas não conseguia deixar de pensar como o sonho adolescente de possuir um Chevelle o acompanhou e talvez tenha interferido em outros, positiva ou negativamente. Esta viagem era um destes exemplos. Estava sendo realizada exatamente para resgatar um outro sonho quase perdido. Mas pensava no garoto no posto com o pai, em suas palavras, quando se lembrou de uma fita cassete que deveria estar no porta-luvas do carro. Segurou a direção, se inclinou para a direita e, mantendo a vista para a rodovia, vasculhou entre vários objetos em busca da fita. Lá estava ela, solta, sem a caixa que havia se quebrado há muitos anos. Olhou para a etiqueta grudada onde leu: “Janeiro de 1983”. Quem a gravou não havia se importado com os títulos das músicas, muito menos com seus intérpretes, por isso, ele procurava uma música, que por ter marcado tanto sua vida, sabia seu nome. A música havia sido gravada por vários artistas, mas curiosamente, nunca ficara sabendo a intérprete daquela gravação. Colocou-a no toca-fitas e começou a procurar a música. Achou-a facilmente, tantas e tantas vezes que havia feito esta operação vinte anos atrás.

Oh! Pretty baby!... I need you baby!, cantava a plenos pulmões. Pelo jeito que cantava, acabou se lembrando de um filme que o marcou, mas que não se lembrava do nome. Era algo como The deer hunter, com Robert de Niro em mais uma de suas magistrais interpretações, além da cena que tanto o marcou, com a personagem de Christopher Walken metendo uma bala na própria cabeça. O filme tratava de pessoas que tinham uma vida tranqüila, caçadores de finais de semana, que de uma hora para outra se viram metidos numa guerra que não lhes pertenciam e viam suas vidas se perderem nas selvas e pântanos do Vietnã. Neste filme, numa cena ótima, soldados em folga tomavam cerveja e jogavam bilhar e cantavam aos berros — como ele cantava agora — a mesma música sobre uma gravação de Frank Valli. Aquela vez no cinema, não era a primeira que a havia escutado. Era uma canção que fez sucesso nos anos 60, mas ele era apenas um menino então. Como uma música de sua época de infância pôde marcá-lo tanto assim? Tornara-se a música que embalou o caso de amor de sua vida, agora realmente havia se certificado disso. Estava naquela estrada por isso. Não admitia perder um sonho assim, sem lutar. Já tinha concluído que havia dirigido sua vida de uma maneira que agora se arrependia. Conseguiu o Chevelle e toda a epopéia de sua restauração apenas porque utilizou esta tal “maneira” de dirigir sua vida. Havia conseguido muito para um menino encantado por um automóvel, mas absolutamente sem dinheiro para consegui-lo. Mas só pensava agora em retomar um sonho que em nada dependia desta sua “maneira”. A atriz principal do seu filme — cuja trilha sonora urrava dentro do carro —, que há vintes anos lhe acompanhava, já não agüentava mais esta “maneira” de vida e voltara para sua cidade natal, no alto das montanhas.

Desligou o toca-fitas, pensou como iria chegar a ficar de frente para ela, depois de tudo o que havia acontecido, o que iria falar, se tocaria a música para ela se lembrar do tempo em que ela havia gravado a tal fita cassete, escrito aquela etiqueta com aquela data... O que realmente falaria a ela? Como isso era difícil para ele. Talvez dissesse algo como “não posso tirar meus olhos de você”. Não seria nada original, mas era verdade. Mesmo assim, já não tinha tanta certeza da decisão que tomara de viajar. Mas estava quase chegando. As curvas da estrada, serpenteando pelas montanhas mostravam isso. O dia ia se indo, o Sol já se apresentava apenas por seu poder laranja-vermelho a tingir o céu e uma fina fatia que ele observou intermitentemente pelo retrovisor, até desaparecer por completo.

O Chevelle ano 71 rolava imponente pelo asfalto juntando seu vermelho ao laranja do céu unindo-se no horizonte. A noite começava a cair e o que se viam eram apenas as luzes vermelhas das quatro lanternas redondas da traseira do Chevelle.

Música: Can't Take My Eyes Off Of You
Autores: Bob Crewe – Bob Gaudio
Intérprete: Gloria Gaynor (mas há outros: Frank Valli, Lauryn Hill e mais um mundo inteiro de pessoas que adoram essa música)
Filme: The deer hunter
(Ganhador do Oscar de melhor filme de 1978)
Direção: Michael Cimino
História: Michael Cimino, Deric Washburn, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker e Deric Washburn
Atores: Robert De Niro, Christopher Walken, Merryl Streep, John Savage, John Cazale.
Veja ficha técnica no link



quarta-feira, dezembro 19, 2007

Prosas curtas sobre separações - 2

Há alguns posts atrás incluí um texto que escrevi em 2000. Pra ser mais exato, no dia 21 de Maio. É sobre cinema, é sobre pessoas, é sobre essa coisa a que chamamos viver. É sobre amor, é sobre separação.

Depois que escrevi este texto, resolvi fazer mais. Imaginei fazer uma série. Prosas Curtas sobre Separações. Mas por que o tema? Porque é popular, porque acontece, porque é assim que a vida é. Ao longo dos anos, fui tentando um texto aqui, outro ali. Nada que despertasse aplausos, nada que não fosse assim tão diferente. Mas quis fazer as prosas seguindo uma determinada linha. Quem se atentar, perceberá. Mas algo é claro: tem sempre uma ou mais obras de arte presentes: música, filme, livro, etc. Há sempre um local ou um ambiente que define o clima. Os personagens não têm nomes. Não há referências do que aconteceu e do que acontecerá. Cada um que ler que resolva essa questão.

Então, resolvi publicá-los aqui. Mais uma vez me dizem que estou ausente deste blog. Preciso mesmo estar mais por aqui. Sei que muitos aqui aparecem pra me encontrar. Preciso vir mais. Assim, vou publicar este que já é o segundo (o primeiro, O Último Cinema do Centro pode ser lido por este link). Prometo publicar os demais a cada mês. E, de repente, até escrever mais alguns dentro do mesmo tema.

Aguardo os comentários dos que aqui vem me encontrar.


It Never Entered My Mind

Eram quase onze horas da noite quando a porta bateu às suas costas. A cada lance descido da escada um quase tombo, que seria provocado pela irregularidade entre um degrau e outro, formando um leque de sombras e luzes amareladas. Quando chegou ao térreo, a respiração que já estava difícil pelas narinas entupidas, pareceu piorar pelo esforço de saltar pelos degraus, fazer as curvas nos patamares, se assustar pelos quase tombos. Novamente aquele térreo de luzes apagadas e a procura pelo interruptor do porteiro eletrônico que abria a porta. A tentativa que começou com uma carícia na parede logo se revelou em tapas nervosos que, claro, resultaram na abertura da porta. Esta foi preciso puxar para ser fechada.

Já não chovia mais. O chão da calçada e da rua estava molhado como se alguém o houvesse lavado e puxado a água com um rodo. Não havia enxurrada e as nuvens brancas e baixas se movimentavam em alta velocidade, mostrando que logo o céu se abriria para as estrelas. Mesmo assim, empurrada pelos largos e apressados passos, a água do piso subia pela sola e molhava a parte de cima dos sapatos da cor da roupa daqueles estrangeiros que vão à África em filmes antigos. A água tornava o bico dos sapatos em marrons quase pretos, mas nenhum pingo manchara o resto da roupa. 

Antes de entrar num bar, estilo café – destes de onde as pessoas pouco vêem a rua e de fora não se sabe como está lá dentro –, olhou para os sapatos e, por um átimo de tempo, aquela mancha marron se tornou o principal problema de sua vida. Se arrependeu por os calçar naquela noite, como se soubesse que choveria. Dentro do bar, ninguém se importara pelas manchas marron-escuras num par de sapatos cansados e destituídos de alguma postura nobre e elegante; até porque logo ficariam escondidos por debaixo do estribo do balcão.

O cara que servia bebidas não era o de sempre. Pensou em perguntar onde ele estava, pois um rosto conhecido até que seria bom naquela hora. Mas desistiu. Devia ser o dia de folga, devia estar gripado em casa, devia ter achado coisa melhor que ficar escutando conversa de bêbado. Só pediu uma vodka com limão e girou o pescoço à sua volta para perceber se o haviam percebido. Mas cada pessoa do bar, cada grupo de pessoas só estava interessada no seu micro ambiente. O barulho de copos, de conversas, o barulho de um bar deste tipo as fazia se juntar para compartilhar o assunto. [Não conseguia entender o que tinha acontecido naquela noite. Aquilo não entrava na sua cabeça.] Um surpreendente trompete de Miles Davis – parecia até milagre escutá-lo ali, como na trilha sonora de um filme europeu – desviou sua procura visual pelo ambiente para a atenção auditiva. Tinha quase certeza que aquela música havia sido tema de algum filme. Quis tentar lembrar do nome, o ator, quando havia assistido, mas a atenção se desviou para as pessoas. Então, começou a perceber as palavras de sedução de um casal ao seu lado. Ela de pé, brincando com o salto alto no estribo do balcão e ele sentado no banco, para nivelar os rostos e as palavras. Aquela velha conversa de melhor mulher do mundo, de amor eterno, razão de uma vida... O piano compunha com a bateria tocada com aquelas vassourinhas, dando suavidade à melodia do trompete. E sua memória, já embalada pela vodka, viajou por lembranças, por sons parecidos com aqueles, por palavras parecidas com aquelas, por gestos parecidos com aqueles.

Quando olhou para os lados, não havia mais Miles Davis, nem casal encostado no balcão. Apenas dois homens e uma mulher numa mesa do fundo jogavam fardos de fumaça ao ar pesado que os rodeava. O cara que serviu sua vodka pedia com os olhos que todos fossem embora, que o deixasse ir dormir, largar seu corpo cansado num magro colchão num bagunçado quarto qualquer. Ao pagar a conta é que percebeu que não havia tomado apenas uma vodka. Desconfiou do cara, achou que ele estava querendo cobrar mais que o devido, mas pagou e saiu. E teve a certeza que o cara estava certo. O embaralhar dos passos mostrou que não foi uma nem duas vodkas. O cara nem teria interesse em lhe roubar algumas vodkas.

Suas narinas já não estavam entupidas, pois sentia o vento frio da madrugada a entrar por elas, se misturando ao torpor do álcool destilado. Não podia decidir nada, mas o alto teor de coragem a que foi tomado o empurrava rua afora. Quando deu por si, estava em frente ao prédio que horas antes havia deixado. Um cachorro vira-latas acorda assustado, late esganiçadamente, tenta mostrar posse do lugar próximo à entrada do prédio, mas foge buscando outro lugar para terminar a noite. Os latidos do cão são os únicos sons que podem ser ouvidos na rua afastada e quieta daquele bairro. Apenas eventualmente um carro passa pela rua transversal, com mais movimento já que era uma das ligações com o centro da cidade. Não mais que os sons abafados e afastados que uma cidade emite podia ser ouvido. Era tanto silêncio que, se tentasse, poderia ouvir o ressonar das pessoas dormindo naquele prédio. Afinal eram apenas três andares de um prédio construído bem no alinhamento da rua, com as janelas dos apartamentos voltadas para ela.

Para ter mais visão da fachada do prédio, atravessou a rua, sentou-se na mureta de uma casa, levantou os olhos, buscou a janela mais à esquerda do último apartamento do último andar. As luzes estavam apagadas. Todas as luzes de todos os apartamentos estavam apagadas. Tentava imaginar como estaria o interior do quarto. Se haveria roupas espalhadas pelo chão, se a porta estaria aberta, se haveria perfumes e cheiros. Se havia sons. Se lembrou de Miles Davis e o casal cheio de conversas e intenções. Se lembrou do cara que servia bebidas no bar e sua vontade de ir para casa. Talvez nem teria chegado ao seu magro colchão àquela hora. Se lembrou dos bicos de seus sapatos, encharcados e manchados. Olhou para eles e estavam secos. Seus olhos também não estavam mais molhados. Suas narinas também não estavam mais entupidas. Não entedia a razão, mas se sentia bem. Se fosse num script de um filme metido a sério, talvez tentasse alguma coisa. Um grito, um tiro, um ato qualquer. Mas a única coisa a fazer era se recostar no gramado da casa, também já seco, que se erguia num talude da mureta até uma varanda no alto, cercada por grades, como uma grande gaiola sem pássaros. Ficou a olhar para a fachada do prédio.

As manhãs dos longos dias de Dezembro começam bem cedo e o Sol aquece toda a cidade que se movimenta, agita e faz barulho. Não só a rua transversal agora está movimentada. A cidade toda se envolve numa busca frenética por algo. Molhada pela chuva do dia anterior e aquecida pelo Sol, a grama do talude cresce.