NO MUNDO DOS BLOGS.
Todo mundo está se ligando, se conectando, se blogando. Os sinais de fumaça, os tambores, os pombos-correio, as cartas de papel, os telefonemas. Os blogs.
Para começar, para ver como é que fica, vamos falar de tudo...
No final, a gente vai perder. Perder tudo que vimos aqui. Perder aquilo que amamos e aquilo que odiamos. Perderemos tudo.
Mas quando perdermos, perderemos para outros. Deixaremos. Nada se perde, tudo se transforma. E assim, vai. E assim é que é. Assim que é que são as coisas. São assim que as coisas são. E serão.
No final, perderemos contra o mais forte. No fundo, todo mundo sabe disso. Mas tem gente que logo desiste. E do ponto de vista da Lógica, desistir é a melhor opção. Desistir é o que faz sentido. Como amassar um papel com um poema mal escrito e sem nenhuma poesia que valha a pena.
Mas tem gente que briga e briga e briga e nos deixa envergonhados. Gente que nem se importa se a festa está mesmo acabando. Age como se estivesse apenas começando. Gente que nos envergonha mesmo. Deixa a gente se achando uns bostas. Gente que veio aqui pra fazer coisas e acabaram fazendo outras. Gente que a gente nem viu fazer coisas, mas que depois de irem, a gente vê que fizeram o que nem essa gente achou que faria. Tem gente que resiste, gente que briga, gente que acha que é só o começo. E não o fim.
Tem gente que a gente acha que perdeu. Mas talvez, não.
Você às vezes acha que seus problemas se resumem à inconsistência do fornecimento de banda larga pela CTBC. Internet à baixa velocidade é foda...
Mas em 1975, os EUA perderam mais uma de suas guerras. Entre muitas.E deixaram no Vietnan os seus “corregilionários”. Pessoas que acreditavam nas propostas capitalistas dos americanos e que embarcaram nessa. Isso criou uma guerra civil no país que jogou nativos uns contra outros. Vizinhos, colegas começaram a se matar. E assim foi por toda uma década e meia.
Quando os EUA perceberam que não sairia iambu do capote, deram no pé. Nixon não quis nem saber. Deixou aquelas pessoas que estavam lá e que acreditaram nas propostas lindas a ver navios. No caso, a ver aviões.
Esse vídeo mostra um pouco do que foi aquilo. Mas têm outros. A internet tá cheia deles. Me lembro de um com um helicóptero, que cai com tanta gente querendo embarcar.
O fato é que para as pessoas que ficaram no país e que eram contrárias ao regime que ganhou a guerra, a situação era a pior possível. Perseguições, assassinatos. Vingança.
Outro dia o Ugo Degani me passou umas músicas que me lembraram o Philip Glass. Falei a ele da trilogia de filmes com trilha musical dele e da semelhança com os sons. Provavelmente, beberam em Philip Glass para que algo assim fosse feito. Me lembrei de quando vi no cinema, achei que era uma trilha visual para uma música. Ouvidos e olhos são sempre quatro referenciais que andam juntos.
Eu estava viajando e de alguma maneira, meu pai me esperou. Esperou que eu voltasse pra que ele pudesse ir viajar. Pra sempre. Era meu aniversário e meu presente foi a eterna vontade de ter sempre ele comigo. Afinal, pai é pra se ter sempre consigo. Pai é o que vemos por um espelho mágico que reflete nossa imagem formada por genes mais velhos e menos misturados. Pai é o reflexo daquilo que ainda não soubemos refletir. Pai é o que queríamos ser, mas nunca conseguiremos. Eu já havia lido esse texto no Cabral e ele nem sabia. E aí, ele o mandou pra mim. Me disse pra escolher uma música e fiquei com um peso nas costas. Responsabilidade aumentada. Mas como gostaria que meu pai estivesse aqui, imaginei que o Cabral também pudesse querer isso com o “seu” José Cabral. Voltar a conviver com pessoas especiais, como "seu" José ou "seu" Adelmo não tem mais jeito. Mas a gente sempre vai querer que pessoas assim estivessem aqui.
Um pôr-do-sol para meu pai por Renato Cabral
Hoje é 13 de maio; uma terça-feira. Estou a meio caminho de um hospital e rabisco estas linhas pra meu pai. Escrevo rápido para ver se dá tempo dele me ler. De que eu possa, enfim, dizer tudo o que não pude por 28 anos. Mas ele não pode me ouvir. E falo pra mim. Agora ele está numa sala de cirurgia enfrentando o momento mais grave de sua vida. Está pregado àquele limite que não conhecemos bem, em algum lugar entre o nada e a existência que persiste. Há médicos com ele, mas ele nunca esteve tão só...
Eu nasci num dia 27 de agosto. Fazia frio e foi quando o sol se punha. Na véspera de me ter, minha mãe ainda não tinha o dinheiro. Mas tinha medo. Pegou um colar de ouro que havia ganhado de presente de casamento de meu pai e foi para a rua. Após conseguir vendê-lo, ela passou a mão na barriga e me disse: “nós vamos conseguir”. O colar da minha mãe foi o primeiro presente do meu pai pra mim. E conseguimos.
Minha mãe até hoje é meu pai também. E meu pai foi durante todos estes anos um mistério. Minha mãe me deu o amor; me trouxe à luz. Meu pai fez a inscrição da identidade na minha alma, aquilo que torna cada um de nós singular.
Eu era pequeno e levado. E um dia quebrei a pipa do meu irmão. Ele me colocou de frente para o Cristo com os braços abertos. Foi a minha primeira crucificação. A vida faria o favor de trazer outras. Logo depois perguntei pra ele o que era Deus. Não me lembro da resposta. Não importava. Só lembro que ele sorriu.
Agora, de tantas coisas me lembro. E faço esse exercício com a memória, na tentativa de criar um mundo onde nós estejamos juntos outra vez. Me lembro daquela pescaria que ele havia me prometido e que de tanta vontade eu adoeci. Fiquei dez dias com a garganta inflamada na beira do rio, dentro de uma barraca. Foram meus melhores dez dias com meu pai.
Olho mais um pouco pra trás e me vejo andando pequenino, a tomar sua camisa e seu cheiro, seu tamanho de homem, quando ele chegava do trabalho. Eu a pôr os pés em suas botas e me sentir seguro ali dentro. Ainda não sabia escrever, mas já sabia que era homem.
Ele me ensinou a pôr o anzol na linha, a andar de bicicleta sem rodinha, a mergulhar e a pular de ponta, a ter orgulho de mim, do que conquistei e do que perdi. E como eu fui orgulhoso. E como me orgulho disso. Ao invés dos velórios, meu pai preferia uma boa cerveja. Ao invés de chorar, rir muito com os amigos. Teve tudo o que queria. Há uma imagem de meu pai que é inesquecível. Eu nunca a vi, só existe em minha imaginação; mas ele contava com gosto. Foi aquela vez em que ele foi de bicicleta até Tupaciguara. Era seu jeito de me chamar de molenga quando eu caí de bicicleta e era ele a me dar banho e a limpar minhas feridas.
Também me lembro de quando ele me batia e de como eu ficava emburrando o amaldiçoando em silêncio. Eu com bico; ele firme, a me mostrar que não adianta, que ser bruto não é o melhor jeito de vencer. Eu tive o peso de seu braço em mim e chorei. Mas tantas vezes aquela mão pesada me carregou quando eu não sabia pra onde ir.
Nunca um homem lutou tanto na vida, pelos que ele adorava. Nunca um homem terminou com tão pouco, sem deixar nada. Mas pensar assim seria só ressaltar uma ilusão. Se o critério para dizer o que é uma vida cheia e rica for a conquista de bens, então, meu pai viveu como um miserável. Agora, se a riqueza for sentir necessidade de pouco e a felicidade for saber gozar com o que temos, com o que não nos falta, meu pai foi alguém que teve, mesmo em meio a sua ignorância, a verdadeira sabedoria: aproveitou seu corpo, sua beleza, sua família, sua simplicidade, seu universo, e ganhou o amor da mulher mais admirável que eu já conheci; ele também. Tivemos sorte os dois.
E agora, na porta do centro cirúrgico, eu me pergunto: o que determina que a vida de alguém não foi em vão, que tenha valido a pena? E foi uma simples foto que trouxe a resposta para o que faz da vida de um homem algo grandioso. Um pequeno retrato teve o poder de mudar o sentido que o seu destino insistiu em construir. Era a foto de meu pai com sua neta. Ele com 64 anos. Ela com sete dias. Um olhando para o outro como quem descobre um tesouro. E ambos sem saber disso, de tão entretidos e presentes que estavam, de tão ali um com o outro. Um, a imagem de um projeto que já se encaminhava para o fim, das surras e das marteladas que levara; a certeza do crepúsculo que vinha. A outra, a pequena aurora, a nova promessa, o testemunho do vir a ser. Não sei o tempo que a luz levou para ir deles até a câmera, mas é assim mesmo. Os momentos mais intensos de nossas vidas são aqueles que não fazem diferença perguntar pelas horas. Meu pai, já velho, enfim, havia encontrado sua resposta, seu tempo de recomeçar; havia reencontrado seu orgulho. Diante de uma vida de tantas perdas e desencontros, estava, enfim, em paz, sem precisar de mais nada. Só estava ali...
Tivemos uma única conversa em todos estes anos. Eu tinha 17 naqueles dias. E foi o bastante. Ouvi a história de alguém que veio antes de mim e vi nela as misérias e as glórias que esperam cada um dos que possam ter a sorte de vivê-las. Foi preciso que ambos vivessem muito, tudo para poder dizer e aceitar que, no fim, não conseguimos ser pai e filho. Mas tivemos a sorte, de novo, de nos tornarmos amigos. Havíamos encontrado aquele tipo raro de amor que só mora na amizade, no desapego, que não pede nada em troca. Estávamos felizes pelo simples fato do outro existir. Logo comigo, que jamais achei que meu pai poderia ser meu mestre, encontrei naquele senhor tão magro no leito do hospital, um companheiro para meu copo, para meu choro. E era eu, desta vez, que segurava sua mão e lhe sorria. Quem sabe ele tenha conseguido notar meu obrigado. Quem sabe...
Hoje é 10 de junho. É um dia bonito, sem nuvem no céu. O sol ainda está nascendo e não faz frio. Meu pai morreu nesta manhã, após 28 dias numa UTI, lutando pela vida, nos dando o tempo para nos despedir, para nos gostar, para nos vermos de novo de um jeito totalmente inédito. A última vez que o vi, dois dias antes, antes que terminasse o horário das visitas, tirei minha mão da dele e, saindo, meio de lado, disse eu te amo. Não olhei para os olhos dele. Não sei se ele viu ou ouviu. Foi o único jeito que consegui. No dia em que meu pai morreu, nesta terça-feira, foi assim que o sol se pôs.
Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho. Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora. Gira a noite sobre suas invisíveis rodas E junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor dormirá com meus sonhos. Irás, iremos juntos pelas águas do tempo. Nenhuma viajará pela sombra comigo, Só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados E deixaram cair suaves sinais sem rumo Teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
Enquanto eu sigo a água que levas e me leva: À noite, o mundo, o vento enovelam seu destino, E já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar-entre, Este quase, Este poder ser que…, Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém, Eu sou um internado num manicómio sem manicómio. Estou doido a frio, Estou lúcido e louco, Estou alheio a tudo e igual a todos: Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura Porque não são sonhos. Estou assim…
Pobre velha casa da minha infância perdida! Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! Que é do teu menino? Está maluco. Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano? Está maluco. Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! Por exemplo, por aquele manipanso Que havia em casa, lá nessa, trazido de África. Era feiíssimo, era grotesco, Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê. Se eu pudesse crer num manipanso qualquer — Júpiter, Jeová, a Humanidade — Qualquer serviria, Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
És a mais bela de todas as estrelas do meu céu És a única que brilha em minha direção Nas noites escuras e negras Levanto meus olhos e a vejo Em meus sonhos confusos Nas noites abafadas e sem brisas Entra pela minha janela Cuida do meu sono Vigia e reza por ele Nas noites longas, intermináveis Em meus sonhos, perdido Levanto meus olhos e a venero Porque nas noites escuras e negras És a única que brilha em minha direção És a mais bela de todas as estrelas do meu céu
Eu já falei delas aqui nesse espaço. Já falei delas em outras ocasiões. Algo nelas me fascina. Talvez a serenidade aliada à consciência que nunca sairão dali. Alguém já me disse que pareço com elas, citando meus pés sempre presos como raízes à terra que nasci. E seus galhos mais altos a receber o vento fresco das alturas e os pássaros trazendo novidades.
Assim são as árvores e assim acho que sou também. Talvez por isso, por esse narcisismo que todos nós temos, de nos reconhecer em seres iguais, talvez por isso eu tanto gosto delas.
E assim, começo uma série com coisas relacionadas a elas. Começo com meu filho Ugo Degani e uma foto dele que publiquei já aqui. E vai ela de novo, de um ponto de vista nosso, dos humanos, se mostrando pequenos junto a elas.
Estou sofrendo a queda mais dura de todos os tempos Estou caindo rápido enquanto espero Pousar em seus braços Pois todo o meu tempo foi gasto aqui Desejando pertencer A você
Eu sonho com círculos perfeitos Os olhos no seu rosto O meu coração é uma ferida aberta que Apenas você pode preencher E embora a lua está crescendo Não consigo largar o seu retrato O amor pode ser assustador quando você cai
E quando a hora é certa, eu Espero que você responda Como quando o vento se cansa E o oceano fica mais calmo Eu posso estar sonhando, mas eu estou Desejando pertencer A você
Longing To Belong
Eddie Vedder
I'm falling harder than I've ever fell before I'm fallin fast while hoping I'll land in your arms Cause all my time is spent here Longing to belong To you
I dream of circles perfect Eyes within your face My heart's an open wound that Only you replace And though the moon is rising Can't put your picture down Love can be frightning when you fall
And when the time is right, I Hope that you'll respond Like when the wind gets tired And the ocean becomes calm I may be dreaming but I'm Longing to belong To you
Há muitos anos, quando eu ainda era um jovem, tecia uma certa ojeriza por Clint Eastwood. Talvez por ele aparecer nos filmes como um cara seco, duro, nada agradável e bastante conservador. Eu era o contrário disso tudo.
Mas o tempo passou para ambos. Ele aprendeu, eu aprendi. Ele fez filmes maravilhosos e eu acabei me rendendo. Nem vou listar aqui as tantas coisas lindas que ele fez, principalmente como diretor. Vou dizer apenas poucas palavras sobre Gran Torino.
Meu filho Ugo já havia me dito sobre a grandeza do filme e recentemente, meu primo Júnior disse o mesmo. Depois de duas opiniões assim, assisti hoje. E tive de vir aqui falar da profunda admiração que tenho por este diretor. A forma como ele trata (e tratou neste filme) a relação das pessoas é algo para se guardar e manter. A maneira intensa que os personagens mostram a doação que é feita a quem e por quem se gosta, arranca o peito da inquietude e leva os olhos ao alto em que as almas se encontram.
A gente vai sempre aprendendo com aqueles que já aprenderam.
Eu disse ao Renato Cabral que ia virar freguês dos textos dele. Afinal, meu blog bombou de visitas no post. Então, vai mais um texto fodástico do cara.
O vídeo é por minha conta.
A última gota para a flor de um jardim morto
O que resta quando alguém vai embora e toda presença se resume àquele pó intocado sobre peças familiares, coisas que a gente mantém com o ruído da lembrança?...
Ouça. Você partiu e desde então tem sido assim por aqui: esse rastejar de cabeça baixa. Não é tristeza, é que devagar é mais fácil recolher essas cascas que caíram, esse pedaço de foto, esse recorte de pano com seu perfume, meu vaso sempre a sua espera (comigo na cama te olhando de pernas abertas); meu travesseiro entre o ventre tomando o lugar da sua coxa. E meu cabelo arrumado como nunca pela falta do sopro dos seus dedos. A casa num silêncio querendo assuntar, quebrar o gelo pra poder, quem sabe, nesses golpes de intimidade, me perguntar sobre você. Saber por onde anda... Mas como responder se a resposta também me falta?
Quando você partiu com sua pele branca e aquela burca que seus cabelos pretos faziam só pra deixar maior seus olhos de esmeraldas, eu prometi ser feliz, achando que a felicidade fosse alguma coisa como um crachá. Fiz um pra mim. Ele abria as portas da outra dimensão, onde ninguém mais chora, mas lá dentro ainda faltava algo. Faltava eu. Porque quando você foi embora, levou aquele pedaço de mim que sabia ler a língua com que a felicidade gosta de cantar. E eu fiquei surdo desde então pra isso que é sorrir. Um analfabeto de alegria. Um aleijado de amor. Por isso tateio suas coisas no quarto à procura de pistas, de um abraço. Você sabe, o pior tipo de tristeza é a felicidade que ficou pra trás. E lembrar dessa felicidade é a maldição do presente.
Naquele dia em que você, antes de partir, me bateu e gritou comigo, eu já sabia que o que restaria não seriam os berros, os roxos, as unhas cravadas na alma; nem minha vergonha por ter te feito chorar. Porque quando a nossa música soprasse os ouvidos, o mais besta dos momentos, aquele sorvete tomado no colo do outro, aquele azeite sobre nosso macarrão, aquele cheiro de bochecha rosa, tudo isso iria quebrar essa mentira que a gente inventa pra se proteger; que se chama dor.
E você foi embora. Escreveu sua carta de despedida e nunca me enviou. Fiquei sozinho duas vezes por isso. E quando ela chegou, a casa já estava se enchendo de novo, com um novo sorriso inédito. Abro agora um envelope que me faz chorar. Eu achando que o jardim já tinha secado. Por que voltou com tão poucas linhas e essas correntes no meu pescoço? Cadê sua carne aqui pra eu poder chorar em cima e riscá-la de raiva? E agora cada lágrima gruda suas letras em mim como uma praga que nunca nos fez estar longe de fato.
No final do seu testemunho eu leio: “Fim”. E me lembro dos vivos, dos adiados, dos que se partiram ao meio... e sei que todo fim pra quem ainda está aqui nunca é terminal, porque ainda podemos ir a outros lugares, a outros jardins. Quem dera houvesse um atalho pra voltar pelo mesmo caminho que eu já sei andar, o que leva até suas flores; mas não consigo mais ir por aí. Sei percorrê-lo, mas desaprendi o jeito de como eu desviava dos espinhos. Porque eu entendi o que é estar sem você, mas ainda não aprendi a ser sem você.
Por que não uma lágrima pra encerrar, pra selar a caixa das lembranças, que jorra sua hemorragia sobre meus olhos toda noite? Por que não essa lágrima que é enxurrada pra tampar tantas pegadas que ainda tatuam meu peito? E o que eu faço com esses mil suspiros e versos aqui dentro? Vão sair com o tempo?
Sua força ao ir e não me deixar voltar é uma prova ainda maior do que é o amor, que é libertar e nunca prender. Perder pra ter, pra poder ser e se encontrar. Mas nem sempre só o amor basta. Você foi única na sua beleza, na sua loucura, no jeito que me teve e que me fez te querer tanto. Não deixe a flor secar nunca. Regue-a até o fim. Porque no fim, naquele fim, em que só temos nós mesmos, eu estarei do seu lado, ou você do meu. Nos vemos por aí, pelas calhas, pelos tetos, pelas quinas e navalhas; na lama e talvez no céu, que já foi nosso berço e nosso leito, mas com um outro olhar agora, e sempre com o mesmo carinho. Um último beijo. Que ele fique grudado na alma e em tudo que for você. Fico aqui, te admirando como a flor mais rara, que aprecio sem poder mais tocar. Sempre te amei. Mas sempre te amar é um tormento que não posso mais levar.
Por Renato Cabral – só um ruminante contador de histórias.
Conheço o Renato do tempo da Marbo. Logística era o que era na época. E nessa época, ele já era o cara. Mas neste texto, mostra o quanto é. O cara. Abduzo aqui o texto dele do livro facial que ele mantém. Procurem lá. É muito bom. É tão bom que fico sem graça de escrever minhas linhas.
Leia ouvindo isso:
Seja forte quando eu partir. Quando eu morrer, não diga nada a eles. Não insista com o tempo para que algo de mim resista. Que esqueçam logo meu nome e que a brisa mais boba tampe qualquer rastro de meu passo, de meu hálito. Quando eu me for, não tente me seguir. Às vezes comprar cigarros não tem mesmo volta. Tantas vezes ir não é uma escolha. Quando você se sentir sozinha, não vá às cartas, não procure nas fotos a minha lembrança. Já não estou nessas pistas, nesse resíduo de história. Até nas cartas e nos cheiros que te deixei já faltarei. Nem busque na sua memória ou na batida tropeçada do coração que se arrasta isso que aprendemos a reconhecer como saudade. Essa saudade não sou eu, mesmo que ela te tenha. Guarde sua fé para coisas mais importantes que achar que eu estou bem em outro lugar. Nosso time preferido, que ainda joga e sempre perde, precisa da sua torcida mais do que eu. Não sinta falta do aperto na cintura, do mergulho na represa, do meu olhar que te procura na multidão. Não sinta pena de nada. Não faça da culpa uma companhia quando eu faltar para o café. E quando andar pelos muitos sois que se porão, não busque minha mão no vão da caminhada. Vá sozinha. Ande longe. E não pense que no horizonte você verá meu vulto. Quando eu partir, não tenha vergonha de despejar seu olhar em outros homens, em outros corpos. Ele nunca foi meu. Mas como era bom ser o alvo da sua direção. Quando todos aqueles risos que criamos juntos como platéia e atores simultâneos for apenas um ruído de incômodo, ou até o melhor jeito de se sentar pra ver a novela e ver o tempo costurar seus sentidos, eu já terei desaparecido na esquina. Não busque informações com o barqueiro das almas. Ele só existe nas boas histórias dos boêmios. Não jogue sua moeda na fonte pra que minha alma tenha um lugar nesse barco. Pegue-a e compre uma nova maçã do amor. E não chore por eu não poder beijar o caldo doce que escorre por sua boca até seu queixo. Quando você passar perto dos terrenos baldios onde moram os parques de diversão que vêm no verão, não amaldiçoe a alegria dos outros com sua tristeza. Ela vai passar, assim como os parques irão embora um dia. Quando eu me for, que seu luto seja tão pouco como tentar encontrar as chaves do carro pela casa, para que você possa dar uma volta na cidade e ver a continuidade de tudo. Não será preciso gritar ou mundo que eu vali a pena ou que fui o grande desperdiçado. Qualquer julgamento não fará mais sentido quando você já não tiver um colo para sentar ou dedos carinhosos para luxar seu sono. Quando meu corpo for apenas aquela borra na mistura da terra, aí, talvez, quando você não puder mais me ver em nada, você poderá me reconhecer em tudo, até nas pequenas coisas que ninguém mais olha. Porque quando eu partir, saiba que eu já terei a resposta à sua pergunta: “você conseguiu a vida que quis ter? Conseguiu viver como se fosse viver para sempre?”. Quando eu fechar os olhos pela última vez, será a última vez que pensarei em nós. E é isso a eternidade pra mim: o máximo de tudo, no mínimo de nada possível. Como um beijo nosso. E mesmo que haja dor, agonia e desespero, eu estarei sorrindo, estarei sorrindo, ainda estarei sorrindo com você... sempre pra você.
"Somos os únicos seres capazes de iluminar nossa culpa. E culpa iluminada é culpa domada. Iluminado, o dedo acusador deixa de ser um algoz para ser simplesmente um dedo, parte do nosso corpo, parte da mão que nos fez humanos".
Sempre tive uma fixação pelo ano de 1968. Depois de o ter atravessado, anos depois, ficava me perguntando porque eu era tão criança naquele ano. Queria ter vivido aquelas coisas todas. 68 foi um ano de tantos acontecimentos, virou livros e livros, filmes e filmes. Em 68 havia ainda os Beatles e George Harrison.
O mais novo dos Beatles teve que tocar escondido por ser menor de 16 anos, em casas noturnas da Inglaterra. Imagino o John o acobertando. Hoje George faria 68. Mas isso talvez nem iporte mais. Tem gente, como eu, que sempre terá esse cara como uma pessoa sem idade. Atemporal.
Quando eu vi você tive uma idéia brilhante foi como se eu olhasse de dentro de um diamante e meu olho ganhasse mil faces num só instante
basta um instante e você tem amor bastante
um bom poema leva anos cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra, nove namorando a vizinha, sete levando porrada, quatro andando sozinho, três mudando de cidade, dez trocando de assunto, uma eternidade, eu e você, caminhando junto.
De noite, amada, amarra teu coração ao meu E que eles no sonho derrotem as trevas Como um duplo tambor combatendo no bosque Contra o espesso muro das folhas molhadas.
Noturna travessia, brasa negra do sonho Interceptando o fio das uvas terrestres Com a pontualidade de um trem descabelado Que sombra e pedras frias sem cessar arrancasse.
Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro, Á tenacidade que em teu peito bate Com as asas de um cisne submergido,
Para que ás perguntas estreladas do céu Responda nosso sonho com uma só chave, Com uma só porta fechada pela sombra.
No retrato que me faço - traço a traço - às vezes me pinto nuvem, às vezes me pinto árvore… às vezes me pinto coisas de que nem há mais lembrança… ou coisas que não existem mas que um dia existirão… e, desta lida, em que busco - pouco a pouco - minha eterna semelhança, no final, que restará? Um desenho de criança… Terminado por um louco!
Looking out the door I see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe I'm too young To keep good love from going wrong But tonight you're on my mind so (you'll never know)
I'm broken down and hungry for your love With no way to feed it Where are you tonight? Child, you know how much I need it Too young to hold on and too old to just break free and run
Sometimes a man gets carried away When he feels like he should be having his fun And much too blind to see the damage he's done Sometimes a man must awake to find that, really, He has no one
Olhando pela porta vejo a chuva que cai nos pranteadores do funeral
Desfilando em uma vigília de relações tristes enquanto seus sapatos se enchem de água
E talvez eu seja muito novo Para impedir que um bom amor dê errado Mas esta noite você esta em meus pensamentos então, nunca se sabe.
Estou completamente quebrado e faminto por seu amor Sem nenhuma maneira sequer para alimentar-me Onde está você esta noite? Querida, você sabe o quanto eu preciso Jovem demais para segurar a barra e velho demais para simplesmente me libertar e correr
Às vezes um homem se deixa levar Quando ele sente que na verdade ele deveria estar se divertindo E cego demais para ver o dano que causou Às vezes um homem deve acordar para descobrir que, na verdade, ele tem ninguém
Então eu vou esperar por você...E eu vou queimar Será que vou assistir ao seu doce retorno, ou será que um dia vou aprender? Amor, você deveria ter vindo para cá. Porque não é tarde demais!
Solitário é o quarto em que a cama é feita A janela aberta deixa a chuva entrar Queimando no canto está o único que sonha que já teve você com ele Meu corpo vira e anseia por um descanso que nunca virá
Nunca tem fim, meu reino por um beijo em seu ombro! Nunca tem fim, todas as minhas riquezas pelos seus sorrisos dados quando eu dormia tão gentilmente contra a ela! Nunca tem fim, todo o meu sangue pela doçura de seus risos! Nunca tem fim, ela é a lágrima que se pendura dentro de minha alma para sempre! Talvez eu seja jovem demais para impedir que um bom amor dê errado.
Amor, você deveria ter vindo para cá. Porque não é tarde demais!
Pode ser mais um capricho pode ser uma paixão pode ser coisa de bicho pode não. Pode ser já por destino pelos astros, pelos signos por uma marca, uma estrela talvez já estivesse escrito na palma da minha mão. Talvez não... Talvez até nem fique nem signifique nada nem me arranhe o coração pode ser só uma cisma pode estar só de passagem Ou não.
que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer. Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra desde a escolha debruçada no menu; um peixe grelhado um namorado uma água sem gás de decolagem: leitor embevecido talvez ensurdecido "ao sucesso" diria meu censor "à escuta" diria meu amor
Meu Deus, eu quero a mulher que passa Seu dorso frio é um campo de lírios Tem sete cores nos seus cabelos Sete esperanças na boca fresca! Oh! como és linda, mulher que passas Que me sacias e suplicias Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia Teus sofrimentos, melancolia. Teus pelos leves são relva boa Fresca e macia. Teus belos braços são cisnes mansos Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas Que vens e passas, que me sacias Dentro das noites, dentro dos dias! Por que me faltas, se te procuro? Por que me odeias quando te juro Que te perdia se me encontravas E me concontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas? Por que não enches a minha vida? Por que não voltas, mulher querida Sempre perdida, nunca encontrada? Por que não voltas à minha vida Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa! Eu quero-a agora, sem mais demora A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacífica Que é tanto pura como devassa Que bóia leve como a cortiça E tem raízes como a fumaça.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa! Eu quero-a agora, sem mais demora A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacífica Que é tanto pura como devassa Que bóia leve como a cortiça E tem raízes como a fumaça.
Já escrevi aqui sobre esse cara. E sobre essa música também. Coisas eternas que nunca irão embora. Coisas eternas, lindas, que nos acompanharão para sempre.
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio e nesse silêncio profundo se esconde minha intensa vontade de gritar.
Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo, que solidão errante até tua companhia! Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva. Em taltal não amanhece ainda a primavera. Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos, juntos desde a roupa às raízes, juntos de outono, de água, de quadris, até ser só tu, só eu juntos. Pensar que custou tantas pedras que leva o rio, a desembocadura da água de Boroa, pensar que separados por trens e nações tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos com todos confundidos, com homens e mulheres, com a terra que implanta e educa cravos.
Se não falas, vou encher o meu coração Com o teu silêncio, e agüentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite Em sua vigília estrelada, Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá, A escuridão se dissipará, e a tua voz Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão Em canções de cada ninho dos meus pássaros, E as tuas melodias brotarão Em flores por todos os recantos da minha floresta.