NO MUNDO DOS BLOGS. Todo mundo está se ligando, se conectando, se blogando. Os sinais de fumaça, os tambores, os pombos-correio, as cartas de papel, os telefonemas. Os blogs. Para começar, para ver como é que fica, vamos falar de tudo...
domingo, maio 01, 2011
Gozo XII
dos meus dias
tal como a laranja do lago
estagnado
é a lua do lago ao meio dia
quando o sol dos ombros está
rasgado
São teus os cilios
que as noites utilizam
é tua a saliva dos meus
braços
é teu o cacto que no ventre
incerto
debruça levar os seus
orgasmos
Não tenho mais que te dizer
das coisas
que tudo o mais te faço eu
deitada
enquanto sentes que o teu corpo
cresce
por dentro do mundo
na minha mão fechada.
Maria Teresa Horta
O Dia Seguinte ao do Amor
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo de nossas duas almas,
Chamarem nossos corpos nus,entrelaçados,
Seremos, na manhã, duas máscaras calmas e felizes,
De grandes olhos claros e rasgados…
Depois,volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!…
E as rosas da cidade inda serão mais rosas.
Serão todas felizes sem saber porque.
Até os cegos,os entrevadinhos… E
Vestidos contra o azul de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas,
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!
Mário Quintana
Gozo XI
um candelabro aceso
um chicote de gozo
nas palavras
E a seda do meu corpo
já te cede
neste odor de borco em que me abres
Sedenta e sequiosa
vou sabendo
a demorar o tempo que se espraia
ao longo dos flancos que vou tendo
as tuas pernas
vezes teu ventre
A tua lingua
vezes os teus dentes
na pressa veloz com que me rasgas.
Maria Teresa Horta
Gozo X
os flancos
e de feltro a lingua
de felpa ou seda
a abertura incerta
que cede breve a humidade
esguia
presa no quente do interior
da pedra
Ou musgo doce
de haste sempre dura
de onde pendem seus dois mansos frutos
que a boca aflora e os dentes prendem
a tatear-lhes
o hálito e o suco.
Maria Teresa Horta
Gozo VI
os palácios do teu sangue
de cristal absorto
encimesmado
São de esperma
os rubis que tens no corpo
a crescerem-te no ventre
ao acaso
São de vento – são de vidro
são de vinho
os liquidos silencios dos teus olhos
as rutilas esmeraldas que
sózinhas
ferem de verde aquilo que tu escolhes
São cintilantes grutas
que germinam
na obscura teia dos teus lábios
o hálito das mãos
a lingua – as veias
São de cupulas crisálidas
são de areia
São de brandas catedrais
que desnorteiam
(São de cupulas crisálidas
são de areia)
na minha vulva
o gosto dos teus espasmos.
Maria Teresa Horta
Gozo IX
de saliva tirando
toda a roupa…
já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.
Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?
Oh meu amor…
devagar…
até que eu fique louca!
Depois… não vejas o mar
afogado em minha
boca!
Maria Teresa Horta
terça-feira, abril 26, 2011
Minha nota de suicídio - por Renato Cabral
O texto abaixo do Renato Cabral que retirei dO Ruminante mostra bem essa coisa de fim. Ou de começo. Um texto imperdível.
Minha nota de suicídio
Nenhum testemunho final dará conta do que foi uma vida. Assim como nenhum relato do fim poderá explicar uma existência que acaba. Quando vocês estiverem lendo isso, eu já não estarei…
Das coisas da minha infância eu me lembro dos cantos. Era onde eu me sentia seguro e confabulava contra o mundo, mastigando minhas dimensões ocultas e ruminando as pontes para o outro lado. Toda a quântica deve muito às crianças. Talvez sejam isso os universos paralelos que os físicos tanto apontam o dedo: a brincadeira solitária de um moleque entretido com sua distração.
Sempre me perguntei se era possível contar nossa história por meio daquilo que deixamos nos outros, dos poucos amores ou amigos. Daqueles com quem atravessamos desertos salgados, comemos juntos na mesma mesa durante anos, ou simplesmente compartilhamos nossa angústia numa esquina. E me esbarrando nesse amontoado de gente, conhecendo suas cores, seus sonhos que ficaram pelas margens, o cheiro do seu hálito em mim e o desespero dos seus sorrisos é que descobri: só podemos contar quem somos por aquilo que nos tornamos graças à presença dos outros.
E me lembro dos meus irmãos. Meu irmão sempre me viu como um herói. Nunca disse a ele, mas ele deve saber: como voei alto com sua capa. Os melhores amigos são aqueles que podem passar uma eternidade em silêncio. E assim fomos nós. Minha irmã é a paixão que não terei por uma mulher. Por ser mais nova, me ensinou o pouco que sei sobre cuidar, sobre o medo de perder. Ela também não sabe: mas me deu o melhor presente de todos. Não devo ter filhos. Ainda bem que ela teve.
Para não morrer como um estufado de nada, um inchado de vazio, traço esta promessa de lembrar. Talvez esteja aí nossa única chance. Porque a existência não é esta prosa construída no presente, mas a poesia com que refazemos o nosso passado. Se a vida vale ou não ser vivida eu não sei. Diante da lata de lixo e do estômago vazio, qualquer enlevo que vá além do beco é perda de tempo. Mas a gente sempre dá um jeito de dobrar a fome. Tudo pra poder se perguntar entre uma esquina e outra sobre quem somos e por que estamos aqui.
Quem eu sou começou com meu pai. Só depois de sua morte fui entender o que era realmente ser um homem. E nunca é tarde para fazer as pazes com a covardia e mandá-la de volta. Poucas vezes me senti uma pessoa grande. As únicas vezes quando isso aconteceu era ao lado dele que eu estava. Aprendi com ele a maior das lições: nunca esqueça que construir um lar é menos ter uma morada e mais ter a chance de poder fugir pra casa depois que você for visitar o mundo. Como ele era rico. Morreu sem nada para poder nos dar tudo.
Mas não é possível se tornar homem de verdade até que você conheça seu primeiro amor. O meu veio tarde, porque até minha ingenuidade demorou a chegar. Seu primeiro presente pra mim foi um cérebro de uma apis melífera. Depois fui saber que isso era uma abelha. Quando os anos que você viveu com alguém são maiores que a quantidade de brigas, você deve pegar tudo e guardar no mesmo vidrinho com os miolos da abelha, porque realmente vale para o resto dos dias. Foi minha primeira história. Foi a mais longa. Seria fácil dizer que ela sempre será a mulher da minha vida. Mas ela não é. Mas só por ela eu me tornei o homem da minha vida. Quando sua mãe morreu, eu chorei duas vezes. Uma porque perdi a amiga de tantos anos. Outra porque sua mãe era meu último laço com ela.
Aí veio aquela baixinha de cabelos lisos, tão pretos. Tão perfeita, tão irretocável que essa dádiva se tornou minha cruz. Nunca consegui entrar naquele palácio e aproveitar o banquete. Como um vira-lata, os lustres me assustavam e eu dava um jeito de procurar a companhia da Lua e do frio. De tanto amor misturado com descuido, adoeci. E o castelo feito de cristal se quebrou sobre mim. Após o fim, pensei pela primeira vez em me matar. Ainda bem que os apaixonados são tolos. Mas, acredite, meu blefe foi um dos mais sinceros “eu te amo” que já disse. Poucas vezes fui tão inteiro num instante só. E foi naquela noite em que a chamei para namorar. Talvez eu morra sem sentir isso de novo. Ela nunca soube disso. Já estava na hora.
Então, descobri que no escuro também é possível ser feliz. Lá, conheci um novo jardim. Ela era tão linda que nunca consegui soletrar seu nome; preferia chamá-la de Flor. Com ela tive a chance, enfim, de enlouquecer. Nunca fui tão livre. Nunca foi tão sofrido. Nunca fui tão desgraçado na sorte de ser eu. Ela foi mais que meu amor, que minha amante, que meu anjo da guarda. Foi minha parteira. E todas as noites uma de minhas preces vai pra ela. Tudo porque um dia ela pegou na minha mão e me fez aceitar o que talvez seja o desafio de uma vida: olhar para nós sem máscaras. Um homem deve dizer “que pena” apenas uma vez. E eu digo: Flor, que pena não ter dado certo. Mas se há um conforto, é que ela dizia que temos ainda várias vidas pela frente. Como eu gosto de acreditar nisso…
E veio o tempo de ficar sozinho. Mas como é solitário estar só. E numa noite das mais qualquer, eu conheci a mulher que qualquer um gostaria de conhecer. Pela primeira vez não fui arrebatado de cara. Mas porque a vida já tinha me tirado a inocência, eu já tinha olhos para vê-la. E pela primeira vez minhas odes, poemas e serenatas me continham. Eram pra ela e não mais pra mim. Pela primeira vez consegui começar a desaprender sobre aquilo que achava que era. Estava começando de novo de um jeito inédito. Nosso amor, como um soldado, teve que avançar de trincheira a trincheira; atravessar tudo o que a existência faz o favor de pôr no caminho pra nos dizer sobre aquilo que vale a pena. Fomos vencendo as bombas, os arames farpados e, um dia, sem acreditar, sem achar que era possível, nos amamos com tanta simplicidade e força que os poetas e os romances teriam vergonha. Pela primeira vez eu sentia algo maior que ciúmes. Sentia inveja toda vez que ela contava dos outros de sua vida. Era tão fácil ser feliz com ela que já não fazia sentido esperar por outras vidas. Pra quê a eternidade quando já se está nela? Nunca tive a desculpa de dizer que ela era a paixão certa na hora errada. Por isso, já não tento entender o porquê desse barulho absurdo que fazemos quando estamos juntos e que só nós podemos ouvir de tão bonito que é. Morro com esta.
Hoje é o dia de minha morte. E pensar nisso é de uma tristeza tão sem nome, porque viver é uma diversão que a dor só faz aumentar. O que me faz lembrar das duas mulheres que não precisariam estar nestas lembranças: minha mãe, Ana; e a filha de minha irmã, Ana. A gente escolhe apenas uma mulher na vida para morrer junto. Mas escolher duas mulheres pelas quais você morreria é um milagre.
E se não existe os imortais, existe a imortalidade. E a imortalidade é essa graça do outro que conversa dentro de nós, que sorri com a nossa boca e se conserva por nossos dentes. E o eterno é poder ainda, e apesar de tudo, se alegrar por meio desses exageros. Toda existência é o momento definitivo de si mesmo, que apenas se alonga, se irradia ou se adia. É um sopro, que será esquecido um dia, uma centelha que nunca produzirá a faísca igual de uma nova chance. E por isso há tanta beleza em cada acerto ou deslize. Porque em tudo isso há a morte como a melhor testemunha de quem somos, desse único tiro que temos. Se saber morrer é a única forma de aprender a viver, só vamos nos salvar no apocalipse de todos os dias. Por isso, hoje morro. Porque já é hora de começar a viver de verdade.
Que vocês saibam: encontrei a mão de cada um aqui dentro. E por isso não vou sozinho. Esta é minha carta de despedida. A hora de partir chega a cada instante. E, quando eu morrer, fiquem com esta breve nota, porque mesmo para uma morte involuntária, toda chance de despedida vale a pena. Quem sabe não nos vemos por aí de novo. Quem sabe…
Por Renato Cabral
segunda-feira, abril 18, 2011
Gozo VIII
a sua veia
o veio que entumesce
no fundo da sua teia
Em cada vento
o seu peixe
no tempo que a água tenha
sedosa na sua sede
viciosa em sua esteira
Da seda
o tacto e o suco
dos lábios à sua beira
como se fosse um beiral
do corpo
p’ra lingua inteira
ou o lugar para guardar
o punhal
que se queira
Em cada punho
o seu ócio
um cinzel
de lisura
com a doçura do pranto
da prata e bronze
a secura
O travesseiro não apoia
as pernas já afastadas
mas ajusta as ancas dadas
Escalada
que se empreende na pele das tuas nádegas
Em cada corpo há o tempo
no gozo da sua adaga
Mas só no teu há o espasmo
com que o teu pénis
me alaga
Maria Teresa Horta
sexta-feira, abril 15, 2011
Gozo VII
São as tuas nádegas
na curva dos meus dedos
as tuas pernas
atentas e curvadas
O cravo – o crivo
sabor da madrugada
no manso odor do mar das tuas
espáduas
E se soergo com as mãos
as tuas coxas
e acerto o corpo no calor
das vagas
logo me vergas
e és tu então
que tens os dedos
agora
em minha nádegas.
Maria Teresa Horta
terça-feira, abril 12, 2011
Gozo V
no meu ventre
A fenda atenta
e voraz
que devora o que é
dormente
a febre que a boca
empresta
a vela que empurra o vento
a vara que fende
a carne
a crueldade que entende
o grito sobre o orgasmo
que me prende e me desprende
Maria Teresa Horta
Bike&Art
FROM STEEL: The Making of a Soulcraft from michael evans on Vimeo.
domingo, abril 10, 2011
Gozo IV
o contorno incerto
acertado nas linhas do
teu corpo
os dentes nos lóbulos e no pescoço
os lábios
a lingua a cobrirem os ombros
Maria Teresa Horta
Why don’t we do it in the road?
(John Lennon – Paul McCartney)
Why don’t we do it in the road?
No one will be watching us
Why don’t we do it in the road?
E POR QUE NÃO AQUI NA ESTRADA?
(tradução: Carlos Drummond de Andrade)
E por que não aqui na estrada?
Não há ninguém para ver nada
E por que não aqui na estrada?
sábado, abril 09, 2011
Sidney Lumet
sexta-feira, abril 08, 2011
Seja paciente
E procure amar as próprias perguntas.
Não procure as respostas que não lhe podem ser dadas
Porque não poderia vivê-las
E o que importa é viver tudo
Viva as perguntas agora
Talvez gradativamente e sem perceber
Chegue a viver algum dia distante as respostas.
Rainer Maria Rilke
quinta-feira, abril 07, 2011
terça-feira, abril 05, 2011
Gozo II
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte.
Maria Tereza Horta
domingo, abril 03, 2011
Vanishing Point
Os astros íntimos
cada qual de cada vez.
Primeiro olho o do meu peito:
um sol turvo é o meu defeito.
A minha amada adormece
desgostosa do que sou:
a estrela da minha fronte
de descuidos se apagou.
Ela sonha mal do rumo
que minha galáxia tomou.
Não sabe que uma esmeralda
se esconde na dor que dou.
A cara consigo ver,
sem tremor e sem temor,
da treva engolindo a flor.
Percorre a mata um espanto.
A constelação que outrora
ardente cruzava o campo
da vida, hoje mal demora
no fulgor de um pirilampo.
Mas vale ver que perdura
serena em seu resplendor,
mesmo de luz esgarçada,
a nebulosa do amor.
Thiago de Mello
sábado, abril 02, 2011
Rosto
Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.
Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na duvida do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.
Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O queijo assassino
Esse texto aí fala disso. Dessa estupidez que esses politicamente corretos tem trazido para esses nossos tempos. Nos anos 50, nos EUA era o macartismo que policiava quem não era "correto". Agora é essa mentalidade ridícula que diz que um queijo é um assassino.
(Aconteceu em Uberaba)
Na Terça, 22 de Fevereiro de 2011, em Uberaba houve uma “operação de guerra” na qual policiais militares devidamente armados, PROCON estadual e vigilância sanitária derrotaram um bando de queijos. Os facínoras estavam expostos em bancas do comércio, principalmente no Mercado Municipal, ameaçando os clientes pois estavam despidos de uma embalagem à vácuo e pior, sequer portavam sua tabela de informações nutricionais.
A comunidade pode ficar tranquila, os heróis que defendem nossas vidas dos ataques desses queijos de péssima índole venceram, quase uma tonelada foi apreendida e destruída pois era “imprópria para o consumo”.
Que bom que em meio a tantos estupros, arrombamentos, roubos de cargas, tráfico de drogas, sequestros e latrocínios ainda exista gente para nos proteger dos laticínios.
Ora autoridades, tenham um mínimo de bom senso, a fabricação e consumo de queijos é um costume milenar no mundo e multi secular em Minas. O nome diz, queijo mineiro, feito de leite de vaca, usando coalho que por si só já é um agente biológico que o azeda. Essa tradição, mais que centenária, nunca matou ninguém, meu trisavô já vendia queijos “marginais” em Dores do Indaiá e nunca foi tratado como bandido, ou será que devemos nos arrepender por todas as fatias que já engolimos, às vezes com goiabada caseira (também despida).
O queijo mineiro, principalmente da Serra da Canastra é apreciado como uma iguaria, porém se for levado à geladeira altera seu sabor original, como querem esses “soldados” que doam suas vidas, se preciso for, para nos livrar desse “venenoso alimento”.
Parece que o PROCON não sabe, mas costumamos, “até mediante torturas físicas”, deixar os queijos expostos ao ambiente para que eles fiquem curados. O IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária), casa de burocratas, impõe que ele seja embalado à vácuo e que traga na embalagem informações nutricionais. A continuar nesse pique o pão francês será o próximo, imagine um pãozinho embalado individualmente, com uma tabelinha de nutrientes e data de validade para sabermos se ele está quente do forno ou não. Tratam-nos como se fossemos ignorantes e sequer soubéssemos escolher uma fruta, um doce ou um pé de alface, deixem disso, temos mais o que fazer.
Estão extinguindo as chances de sobrevivência do pequeno produtor rural, aquele mesmo que por falta de opção vai ser um João Ninguém na cidade onde seus filhos poderão exercer atividades menos regulamentadas como o tráfico.
O excesso de normas inviabiliza os pequenos negócios em detrimento de grandes laticínios e hipermercados, portanto gera desemprego e tensão social. Fica, para as autoridades, um questionamento do povo:
Se prendem os queijos, porque não prendem os ratos?
quinta-feira, março 31, 2011
Prometeu
Teu meu no copo do breu
Meu eu no claro do teu
Teu eu pra cima com o meu
O tempo que foi
Que lembro e que não
O meu e o teu
O himeneu
Que não foi
Que foi não
Aconteceu
Pro meu e pro teu
O que prometeu
E se cumpriu
LXXXVI
Com quatro beijos, hoje penetrou tua formosura
E atravessou a sombra e meu chapéu:
A lua ia redonda pelo frio.
Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
De escarcha azul, serenidade do céu,
Espelho, apareceste e completou-se a noite
Com tuas quatro adegas tremulas de vinho.
Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
Cruz verde, perrexil da sombra radiante,
Vaga-lume á unidade do céu condenado,
Descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.
Pablo Neruda, em Cem sonetos de Amor
quarta-feira, março 30, 2011
Além
Mas quando perdermos, perderemos para outros. Deixaremos. Nada se perde, tudo se transforma. E assim, vai. E assim é que é. Assim que é que são as coisas. São assim que as coisas são. E serão.
No final, perderemos contra o mais forte. No fundo, todo mundo sabe disso. Mas tem gente que logo desiste. E do ponto de vista da Lógica, desistir é a melhor opção. Desistir é o que faz sentido. Como amassar um papel com um poema mal escrito e sem nenhuma poesia que valha a pena.
Mas tem gente que briga e briga e briga e nos deixa envergonhados. Gente que nem se importa se a festa está mesmo acabando. Age como se estivesse apenas começando. Gente que nos envergonha mesmo. Deixa a gente se achando uns bostas. Gente que veio aqui pra fazer coisas e acabaram fazendo outras. Gente que a gente nem viu fazer coisas, mas que depois de irem, a gente vê que fizeram o que nem essa gente achou que faria. Tem gente que resiste, gente que briga, gente que acha que é só o começo. E não o fim.
Tem gente que a gente acha que perdeu. Mas talvez, não.
Foto: Zanone Fraissatsábado, março 26, 2011
Vietnan
Você às vezes acha que seus problemas se resumem à inconsistência do fornecimento de banda larga pela CTBC. Internet à baixa velocidade é foda...
Mas em 1975, os EUA perderam mais uma de suas guerras. Entre muitas. E deixaram no Vietnan os seus “corregilionários”. Pessoas que acreditavam nas propostas capitalistas dos americanos e que embarcaram nessa. Isso criou uma guerra civil no país que jogou nativos uns contra outros. Vizinhos, colegas começaram a se matar. E assim foi por toda uma década e meia.
Quando os EUA perceberam que não sairia iambu do capote, deram no pé. Nixon não quis nem saber. Deixou aquelas pessoas que estavam lá e que acreditaram nas propostas lindas a ver navios. No caso, a ver aviões.
Esse vídeo mostra um pouco do que foi aquilo. Mas têm outros. A internet tá cheia deles. Me lembro de um com um helicóptero, que cai com tanta gente querendo embarcar.
O fato é que para as pessoas que ficaram no país e que eram contrárias ao regime que ganhou a guerra, a situação era a pior possível. Perseguições, assassinatos. Vingança.
Vida é muito mais que MSN.
World Airways Evacuation From Da Nang To Saigon 1975 from PhuongBui on Vimeo.
sexta-feira, março 25, 2011
quinta-feira, março 24, 2011
Glass
quarta-feira, março 23, 2011
Um pôr-do-sol para meu pai - por Renato Cabral

Eu já havia lido esse texto no Cabral e ele nem sabia. E aí, ele o mandou pra mim. Me disse pra escolher uma música e fiquei com um peso nas costas. Responsabilidade aumentada. Mas como gostaria que meu pai estivesse aqui, imaginei que o Cabral também pudesse querer isso com o “seu” José Cabral. Voltar a conviver com pessoas especiais, como "seu" José ou "seu" Adelmo não tem mais jeito. Mas a gente sempre vai querer que pessoas assim estivessem aqui.
Um pôr-do-sol para meu pai
por Renato Cabral
Hoje é 13 de maio; uma terça-feira. Estou a meio caminho de um hospital e rabisco estas linhas pra meu pai. Escrevo rápido para ver se dá tempo dele me ler. De que eu possa, enfim, dizer tudo o que não pude por 28 anos. Mas ele não pode me ouvir. E falo pra mim. Agora ele está numa sala de cirurgia enfrentando o momento mais grave de sua vida. Está pregado àquele limite que não conhecemos bem, em algum lugar entre o nada e a existência que persiste. Há médicos com ele, mas ele nunca esteve tão só...
Eu nasci num dia 27 de agosto. Fazia frio e foi quando o sol se punha. Na véspera de me ter, minha mãe ainda não tinha o dinheiro. Mas tinha medo. Pegou um colar de ouro que havia ganhado de presente de casamento de meu pai e foi para a rua. Após conseguir vendê-lo, ela passou a mão na barriga e me disse: “nós vamos conseguir”. O colar da minha mãe foi o primeiro presente do meu pai pra mim. E conseguimos.
Minha mãe até hoje é meu pai também. E meu pai foi durante todos estes anos um mistério. Minha mãe me deu o amor; me trouxe à luz. Meu pai fez a inscrição da identidade na minha alma, aquilo que torna cada um de nós singular.
Eu era pequeno e levado. E um dia quebrei a pipa do meu irmão. Ele me colocou de frente para o Cristo com os braços abertos. Foi a minha primeira crucificação. A vida faria o favor de trazer outras. Logo depois perguntei pra ele o que era Deus. Não me lembro da resposta. Não importava. Só lembro que ele sorriu.
Agora, de tantas coisas me lembro. E faço esse exercício com a memória, na tentativa de criar um mundo onde nós estejamos juntos outra vez. Me lembro daquela pescaria que ele havia me prometido e que de tanta vontade eu adoeci. Fiquei dez dias com a garganta inflamada na beira do rio, dentro de uma barraca. Foram meus melhores dez dias com meu pai.
Olho mais um pouco pra trás e me vejo andando pequenino, a tomar sua camisa e seu cheiro, seu tamanho de homem, quando ele chegava do trabalho. Eu a pôr os pés em suas botas e me sentir seguro ali dentro. Ainda não sabia escrever, mas já sabia que era homem.
Ele me ensinou a pôr o anzol na linha, a andar de bicicleta sem rodinha, a mergulhar e a pular de ponta, a ter orgulho de mim, do que conquistei e do que perdi. E como eu fui orgulhoso. E como me orgulho disso. Ao invés dos velórios, meu pai preferia uma boa cerveja. Ao invés de chorar, rir muito com os amigos. Teve tudo o que queria. Há uma imagem de meu pai que é inesquecível. Eu nunca a vi, só existe em minha imaginação; mas ele contava com gosto. Foi aquela vez em que ele foi de bicicleta até Tupaciguara. Era seu jeito de me chamar de molenga quando eu caí de bicicleta e era ele a me dar banho e a limpar minhas feridas.
Também me lembro de quando ele me batia e de como eu ficava emburrando o amaldiçoando em silêncio. Eu com bico; ele firme, a me mostrar que não adianta, que ser bruto não é o melhor jeito de vencer. Eu tive o peso de seu braço em mim e chorei. Mas tantas vezes aquela mão pesada me carregou quando eu não sabia pra onde ir.
Nunca um homem lutou tanto na vida, pelos que ele adorava. Nunca um homem terminou com tão pouco, sem deixar nada. Mas pensar assim seria só ressaltar uma ilusão. Se o critério para dizer o que é uma vida cheia e rica for a conquista de bens, então, meu pai viveu como um miserável. Agora, se a riqueza for sentir necessidade de pouco e a felicidade for saber gozar com o que temos, com o que não nos falta, meu pai foi alguém que teve, mesmo em meio a sua ignorância, a verdadeira sabedoria: aproveitou seu corpo, sua beleza, sua família, sua simplicidade, seu universo, e ganhou o amor da mulher mais admirável que eu já conheci; ele também. Tivemos sorte os dois.
E agora, na porta do centro cirúrgico, eu me pergunto: o que determina que a vida de alguém não foi em vão, que tenha valido a pena? E foi uma simples foto que trouxe a resposta para o que faz da vida de um homem algo grandioso. Um pequeno retrato teve o poder de mudar o sentido que o seu destino insistiu em construir. Era a foto de meu pai com sua neta. Ele com 64 anos. Ela com sete dias. Um olhando para o outro como quem descobre um tesouro. E ambos sem saber disso, de tão entretidos e presentes que estavam, de tão ali um com o outro. Um, a imagem de um projeto que já se encaminhava para o fim, das surras e das marteladas que levara; a certeza do crepúsculo que vinha. A outra, a pequena aurora, a nova promessa, o testemunho do vir a ser. Não sei o tempo que a luz levou para ir deles até a câmera, mas é assim mesmo. Os momentos mais intensos de nossas vidas são aqueles que não fazem diferença perguntar pelas horas. Meu pai, já velho, enfim, havia encontrado sua resposta, seu tempo de recomeçar; havia reencontrado seu orgulho. Diante de uma vida de tantas perdas e desencontros, estava, enfim, em paz, sem precisar de mais nada. Só estava ali...
Tivemos uma única conversa em todos estes anos. Eu tinha 17 naqueles dias. E foi o bastante. Ouvi a história de alguém que veio antes de mim e vi nela as misérias e as glórias que esperam cada um dos que possam ter a sorte de vivê-las. Foi preciso que ambos vivessem muito, tudo para poder dizer e aceitar que, no fim, não conseguimos ser pai e filho. Mas tivemos a sorte, de novo, de nos tornarmos amigos. Havíamos encontrado aquele tipo raro de amor que só mora na amizade, no desapego, que não pede nada em troca. Estávamos felizes pelo simples fato do outro existir. Logo comigo, que jamais achei que meu pai poderia ser meu mestre, encontrei naquele senhor tão magro no leito do hospital, um companheiro para meu copo, para meu choro. E era eu, desta vez, que segurava sua mão e lhe sorria. Quem sabe ele tenha conseguido notar meu obrigado. Quem sabe...
Hoje é 10 de junho. É um dia bonito, sem nuvem no céu. O sol ainda está nascendo e não faz frio. Meu pai morreu nesta manhã, após 28 dias numa UTI, lutando pela vida, nos dando o tempo para nos despedir, para nos gostar, para nos vermos de novo de um jeito totalmente inédito. A última vez que o vi, dois dias antes, antes que terminasse o horário das visitas, tirei minha mão da dele e, saindo, meio de lado, disse eu te amo. Não olhei para os olhos dele. Não sei se ele viu ou ouviu. Foi o único jeito que consegui. No dia em que meu pai morreu, nesta terça-feira, foi assim que o sol se pôs.
terça-feira, março 22, 2011
Poema LXXXI
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
E junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
Só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
E deixaram cair suaves sinais sem rumo
Teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
À noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
E já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
Pablo Neruda, em Cem sonetos de Amor
segunda-feira, março 21, 2011
Esta velha angústia
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar-entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim…
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!
Fernando Pessoa
domingo, março 20, 2011
Por que Fukushima Daiichi não será outra Chernobyl

Estrela
És a única que brilha em minha direção
Nas noites escuras e negras
Levanto meus olhos e a vejo
Em meus sonhos confusos
Nas noites abafadas e sem brisas
Entra pela minha janela
Cuida do meu sono
Vigia e reza por ele
Nas noites longas, intermináveis
Em meus sonhos, perdido
Levanto meus olhos e a venero
Porque nas noites escuras e negras
És a única que brilha em minha direção
És a mais bela de todas as estrelas do meu céu
Invocação ao amor
a água
o travo
aquele odor antigo
de uma parede
branca
Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas
Pedir-te sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta
pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara
Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas
Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua
Meu ciúme
meu perfil
minha fome
meu sossego
minha paz
minha aventura
Meu sabor
minha avidez
saciedade
minha noite
minha angústia
meu costume
Maria Teresa Horta
sábado, março 19, 2011
Árvores - 1
Assim são as árvores e assim acho que sou também. Talvez por isso, por esse narcisismo que todos nós temos, de nos reconhecer em seres iguais, talvez por isso eu tanto gosto delas.
E assim, começo uma série com coisas relacionadas a elas. Começo com meu filho Ugo Degani e uma foto dele que publiquei já aqui. E vai ela de novo, de um ponto de vista nosso, dos humanos, se mostrando pequenos junto a elas.
quarta-feira, março 16, 2011
Longing To Belong (Desejando Pertencer)
Longing To Belong (Desejando Pertencer)
Eddie Vedder
Estou sofrendo a queda mais dura de todos os tempos
Estou caindo rápido enquanto espero
Pousar em seus braços
Pois todo o meu tempo foi gasto aqui
Desejando pertencer
A você
Eu sonho com círculos perfeitos
Os olhos no seu rosto
O meu coração é uma ferida aberta que
Apenas você pode preencher
E embora a lua está crescendo
Não consigo largar o seu retrato
O amor pode ser assustador quando você cai
E quando a hora é certa, eu
Espero que você responda
Como quando o vento se cansa
E o oceano fica mais calmo
Eu posso estar sonhando, mas eu estou
Desejando pertencer
A você
Longing To Belong
Eddie Vedder
I'm falling harder than I've ever fell before
I'm fallin fast while hoping
I'll land in your arms
Cause all my time is spent here
Longing to belong
To you
I dream of circles perfect
Eyes within your face
My heart's an open wound that
Only you replace
And though the moon is rising
Can't put your picture down
Love can be frightning when you fall
And when the time is right, I
Hope that you'll respond
Like when the wind gets tired
And the ocean becomes calm
I may be dreaming but I'm
Longing to belong
To you
terça-feira, março 15, 2011
Cada um
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos,
Nada mais nos é dado.
Fernando Pessoa
domingo, março 13, 2011
Gran Torino

Há muitos anos, quando eu ainda era um jovem, tecia uma certa ojeriza por Clint Eastwood. Talvez por ele aparecer nos filmes como um cara seco, duro, nada agradável e bastante conservador. Eu era o contrário disso tudo.
Mas o tempo passou para ambos. Ele aprendeu, eu aprendi. Ele fez filmes maravilhosos e eu acabei me rendendo. Nem vou listar aqui as tantas coisas lindas que ele fez, principalmente como diretor. Vou dizer apenas poucas palavras sobre Gran Torino.
Meu filho Ugo já havia me dito sobre a grandeza do filme e recentemente, meu primo Júnior disse o mesmo. Depois de duas opiniões assim, assisti hoje. E tive de vir aqui falar da profunda admiração que tenho por este diretor. A forma como ele trata (e tratou neste filme) a relação das pessoas é algo para se guardar e manter. A maneira intensa que os personagens mostram a doação que é feita a quem e por quem se gosta, arranca o peito da inquietude e leva os olhos ao alto em que as almas se encontram.
A gente vai sempre aprendendo com aqueles que já aprenderam.
Timidez
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
e um dia me acabarei.
Cecília Meireles
segunda-feira, março 07, 2011
sexta-feira, março 04, 2011
Traze-me
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- Vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- Vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo – esperança!
- Vê que nem sequer sonho – amor!
Cecília Meireles
quarta-feira, março 02, 2011
Mais um texto do Cabral
O vídeo é por minha conta.
A última gota para a flor de um jardim morto
O que resta quando alguém vai embora e toda presença se resume àquele pó intocado sobre peças familiares, coisas que a gente mantém com o ruído da lembrança?...
Ouça. Você partiu e desde então tem sido assim por aqui: esse rastejar de cabeça baixa. Não é tristeza, é que devagar é mais fácil recolher essas cascas que caíram, esse pedaço de foto, esse recorte de pano com seu perfume, meu vaso sempre a sua espera (comigo na cama te olhando de pernas abertas); meu travesseiro entre o ventre tomando o lugar da sua coxa. E meu cabelo arrumado como nunca pela falta do sopro dos seus dedos. A casa num silêncio querendo assuntar, quebrar o gelo pra poder, quem sabe, nesses golpes de intimidade, me perguntar sobre você. Saber por onde anda... Mas como responder se a resposta também me falta?
Quando você partiu com sua pele branca e aquela burca que seus cabelos pretos faziam só pra deixar maior seus olhos de esmeraldas, eu prometi ser feliz, achando que a felicidade fosse alguma coisa como um crachá. Fiz um pra mim. Ele abria as portas da outra dimensão, onde ninguém mais chora, mas lá dentro ainda faltava algo. Faltava eu. Porque quando você foi embora, levou aquele pedaço de mim que sabia ler a língua com que a felicidade gosta de cantar. E eu fiquei surdo desde então pra isso que é sorrir. Um analfabeto de alegria. Um aleijado de amor. Por isso tateio suas coisas no quarto à procura de pistas, de um abraço. Você sabe, o pior tipo de tristeza é a felicidade que ficou pra trás. E lembrar dessa felicidade é a maldição do presente.
Naquele dia em que você, antes de partir, me bateu e gritou comigo, eu já sabia que o que restaria não seriam os berros, os roxos, as unhas cravadas na alma; nem minha vergonha por ter te feito chorar. Porque quando a nossa música soprasse os ouvidos, o mais besta dos momentos, aquele sorvete tomado no colo do outro, aquele azeite sobre nosso macarrão, aquele cheiro de bochecha rosa, tudo isso iria quebrar essa mentira que a gente inventa pra se proteger; que se chama dor.
E você foi embora. Escreveu sua carta de despedida e nunca me enviou. Fiquei sozinho duas vezes por isso. E quando ela chegou, a casa já estava se enchendo de novo, com um novo sorriso inédito. Abro agora um envelope que me faz chorar. Eu achando que o jardim já tinha secado. Por que voltou com tão poucas linhas e essas correntes no meu pescoço? Cadê sua carne aqui pra eu poder chorar em cima e riscá-la de raiva? E agora cada lágrima gruda suas letras em mim como uma praga que nunca nos fez estar longe de fato.
No final do seu testemunho eu leio: “Fim”. E me lembro dos vivos, dos adiados, dos que se partiram ao meio... e sei que todo fim pra quem ainda está aqui nunca é terminal, porque ainda podemos ir a outros lugares, a outros jardins. Quem dera houvesse um atalho pra voltar pelo mesmo caminho que eu já sei andar, o que leva até suas flores; mas não consigo mais ir por aí. Sei percorrê-lo, mas desaprendi o jeito de como eu desviava dos espinhos. Porque eu entendi o que é estar sem você, mas ainda não aprendi a ser sem você.
Por que não uma lágrima pra encerrar, pra selar a caixa das lembranças, que jorra sua hemorragia sobre meus olhos toda noite? Por que não essa lágrima que é enxurrada pra tampar tantas pegadas que ainda tatuam meu peito? E o que eu faço com esses mil suspiros e versos aqui dentro? Vão sair com o tempo?
Sua força ao ir e não me deixar voltar é uma prova ainda maior do que é o amor, que é libertar e nunca prender. Perder pra ter, pra poder ser e se encontrar. Mas nem sempre só o amor basta. Você foi única na sua beleza, na sua loucura, no jeito que me teve e que me fez te querer tanto. Não deixe a flor secar nunca. Regue-a até o fim. Porque no fim, naquele fim, em que só temos nós mesmos, eu estarei do seu lado, ou você do meu. Nos vemos por aí, pelas calhas, pelos tetos, pelas quinas e navalhas; na lama e talvez no céu, que já foi nosso berço e nosso leito, mas com um outro olhar agora, e sempre com o mesmo carinho. Um último beijo. Que ele fique grudado na alma e em tudo que for você. Fico aqui, te admirando como a flor mais rara, que aprecio sem poder mais tocar. Sempre te amei. Mas sempre te amar é um tormento que não posso mais levar.
Por Renato Cabral – só um ruminante contador de histórias.
terça-feira, março 01, 2011
Sem título
É tempo é volta é vento
É sombra é chuva é lágrima
É vento e tempo não volta
Não volta não seco não Sol
Não luz não sombra não tempo
Não lágrima não chuva não vento
Não luz não Sol é noite
Lua não Sol
Sol não chuva
Chuva não vento
Tempo
Tonto e tento e tanto
Tempo é tempo
É não é
Tanto









