NO MUNDO DOS BLOGS.
Todo mundo está se ligando, se conectando, se blogando. Os sinais de fumaça, os tambores, os pombos-correio, as cartas de papel, os telefonemas. Os blogs.
Para começar, para ver como é que fica, vamos falar de tudo...
Fernando Pessoa é sempre bom em qualquer momento. Não é o momento que o recomenda, pois ele dispensa isso. Cada um que o lê, faz do momento o seu. Quase ao fim deste ano, leio este poema e entendi que devia colocá-lo aqui. Cada um que o ler que faça desse momento, o seu.
Desejo partir Fernando Pessoa
O meu desejo é fugir.
Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir, não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer aldeia ou ermo
que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias.
Quero repousar, alheio do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso.
Uma cabana à beira mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente só a minha vontade não pode dar.
Toda idade tem prazer e medo. E sempre se erra feio. E bastante. Às vezes, não dá pra perceber se o erro é erro ou acerto. Ninguém nos dirá. Às vezes, olhamos pra trás e vemos apenas os acertos. Às vezes, apenas os erros. Acabamos sempre misturando os dois.
Mas não interessa. Todo fim de ano é assim. Sempre queremos algo melhor. A isso chamamos esperança, sentimento impossível de se desassociar de outro chamado desejo. Eu desejo.
Amor Pra Recomeçar Roberto Frejat
Eu te desejo não parar tão cedo Pois toda idade tem prazer e medo E com os que erram feio e bastante Que você consiga ser tolerante Quando você ficar triste Que seja por um dia, e não o ano inteiro E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero
Desejo que você tenha a quem amar E quando estiver bem cansado Ainda, exista amor pra recomeçar Pra recomeçar Eu te desejo, muitos amigos Mas que em um você possa confiar E que tenha até inimigos Pra você não deixar de duvidar Quando você ficar triste Que seja por um dia, e não o ano inteiro E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero Desejo que você tenha quem amar E quando estiver bem cansado Ainda, exista amor pra recomeçar Pra recomeçar
Eu desejo que você ganhe dinheiro Pois é preciso viver também E que você diga a ele, pelo menos uma vez, Quem é mesmo o dono de quem
Desejo que você tenha a quem amar E quando estiver bem cansado Ainda, exista amor pra recomeçar Eu desejo que você tenha quem amar E quando estiver bem cansado Ainda, exista amor pra recomeçar
A noite se refresca Pra ver a nudez da Lua, Pra ver com olhos de estrela A Lua nua Na sua esquina noturna, Em perfume de flor Evaporando na brisa Os espíritos do dia, da tarde.
Tomando o rumo do céu Os olhos de mar, de longe, Os olhos do ar, das montanhas, Os olhos que vivem no vale Formado por duas serras Naquelas terras Onde nunca pisei com os pés. Apenas com o coração.
Still got the Blues é uma das músicas que eu poderia listar dentro de uma determinada categoria. Pelo seu solo de guitarra, Gary Moore acabou colocando seu nome entre aqueles que eu dei atenção. Não que isso seja lá grande coisa. Mas ela sempre me acompanhou, sempre esteve entre meus CDs e agora, entre meus mp3s. Quem já escutou o solo, sabe do que falo. Mas agora fico sabendo que um tal de Jürgen Winter ganhou em um tribunal de Munique um processo de plágio contra Gary Moore. Segundo o apurado, Jürgen compôs uma música — Nordrach — para um grupo alemão chamado Jud's Gallery em 1974. Still got the Blues é de 1990. Moore alegou que não foi proposital, mas admitiu ter estado na Alemanha muitos anos antes de compor Still got the Blues. Dizem que a memória musical de um profissional pode lhe permitir lembrar, anos depois, um trecho ouvido por acaso. Foi isso que aconteceu? Sabe-se lá... O que eu posso dizer é que se não fosse Gary Moore, este solo maravilhoso provavelmente não teria chegado aos meus ouvidos. Ou alguém acha que um grupo lá do meio da Alemanha vai ter a mesma repercussão de um norte-irlandês? Nos links aí embaixo dá pra perceber que é realmente igualzinho o tal solo... Isso não reduz a maravilha que é escutá-lo uma vez após outra e deixar a alma se encher de alegria musical. Tem gente que sabe do que eu falo.
Still got the Blues (Ainda fico triste)
Costumava ser tão fácil dar o meu coração Mas descobri do modo mais difícil Há um preço que se tem que pagar Descobri que o amor não era amigo meu Eu já deveria saber isto, após tantas vezes
Tanto tempo, foi há tanto tempo Mas ainda fico triste por sua causa
Costumava ser tão fácil apaixonar-me novamente Mas descobri o modo mais difícil É uma estrada que leva à dor Descobri que o amor Era mais que apenas um jogo Você está jogando para vencer Mas perderá do mesmo jeito
Tanto tempo, foi há tanto tempo Mas ainda fico triste por sua causa
Tantos anos desde que vi seu rosto Mas aqui no meu coração há um espaço vazio Onde você costumava estar
Tanto tempo, foi há tanto tempo Mas ainda fico triste por sua causa
Embora os dias venham e vão Há uma coisa que sei Ainda fico triste por sua causa
Outro dia estava zapeando pela TV e passei por um filme relativamente recente, mas que me chamou a atenção. Aparecia uma paisagem irlandesa, um carro velho com dois caras com jeito de integrantes do IRA, mas a música era essa aí do link ali embaixo. Fiquei pensando como é que pode. Uma música tão antiga e tão boa suficiente para ficar assim guardada na mente das pessoas e povoar um filme dos anos 2000. Fiquei lembrando de festas que exigiam roupas mais elegantes, que tocavam músicas pra dançar juntinho. Essa era ótima para isso e tantas vezes a usufrui junto com os genes dançantes herdados do “seu” Adelmo. Não quero vir aqui falar de coisas velhas, mas aqueles que adoram ir a festas que só tocam músicas de duplas deveriam escutar isso aí um pouquinho. De preferência, em dupla.
O céu sempre esteve acima da minha cabeça
Minha cabeça sempre esteve entre as estrelas
Minhas estrelas sempre estiveram dentro de meus olhos
Meus olhos sempre estiveram fitando o brilho delas
E estarão.
Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim (Herbert Viana)
Meu coração sem direção Voando só por voar Sem saber aonde chegar Sonhando em te encontrar E as estrelas que hoje eu descobri no seu olhar As estrelas vão me guiar
Se eu não te amasse tanto assim Talvez perdesse os sonhos Dentro de mim E vivesse na escuridão Se eu não te amasse tanto assim Talvez não visse flores Por onde eu vim Dentro do meu coração
Hoje eu sei Eu te amei No vento de um temporal Mas foi mais Muito além Do tempo de um vendaval Dos desejos num beijo Que eu jamais provei igual E as estrelas dão um sinal
Se eu não te amasse tanto assim Talvez perdesse os sonhos Dentro de mim E vivesse na escuridão Se eu não te amasse tanto assim Talvez não visse flores Por onde eu vim Dentro do meu coração
A parede pálida do cômodo onde se armazenam saudades reflete a cálida luz da velha lâmpada sépia que encena atos obscenos fluindo-se nas sombras disformes.
Trincas, manchas, pessoas sem rostos desfilam sobre a superfície puída sobre a massa caída.
Não tive a oportunidade de guardar lembranças de meu irmão. Ele se foi quando meus três anos tinham acabado de se completar. De certa forma, sua aura ficou comigo. Quis mudar o mundo como ele. A diferença é que ele não falhou neste intento. Mas ele se foi antes de me contar como eu poderia fazer isso.
Por fim, minhas lembranças dele acabaram se tornando as lembranças deste dia. Ir buscar água num tanque para que minha mãe limpasse aquele bloco retangular de cimento pintado com o nome dele me parecia algo estranho. Minha idade não permitia ir além daquela visão, de minha mãe esfregando um pedaço de pano ali, cuidando, tornando aquele pedacinho sólido em algo etéreo e eterno, enchendo de água jarros que trazia de casa para colocar flores simples e bonitas.
Mas foi vendo minha mãe ali, dedicada àquele filho ausente, que me fez sentir cada vez mais sua falta. Falta de alguém que não tive a oportunidade de guardar lembranças. Foi ali que comecei a sentir saudades de algo que não vivi. Sentir saudades.
Venho aqui agradecer a gentileza de uma homenagem que recebi de meu amigo Lobístico. Em 2005 ele gravou um vídeo de Gilberto Gil numa de suas andanças pela Terrinha. Garimpou o vídeo em suas arrumações findesamanianas, que normalmente nós todos vez por outra aventuramos a empenhar, e o dedicou a mim, cá do outro lado do Atlântico. A lisonja me faz agradecer com outra obra do Gil que sempre trouxe carinhosamente comigo. Uma música simplesmente única e própria do gênio do nosso ex Ministro da Cultura. Neste vídeo, para completar também minha homenagem, Mariza canta com Gil em Aveiro, uma cidade portuguesa litorânea. Mariza é uma cantora moçambicana de fados que eu não conhecia, mas que pude ouvir e me encher de prazer por este meio contemporâneo chamado Youtube.
As demais cores primárias que me desculpem, mas é o azul que sempre me traz paz. E aqui, ele ainda pode ser o mar ou a imensidão do céu noturno, coalhado de estrelas com a grande Lua dentro.
Lobístico desafiou a mim e mais seis blogueiros (Alcandura, Bu, Lubalecio, Morning Theft, Shape e Super M.) a listar sete músicas que serviram de suporte a algum momento de suas vidas. Em todos os pedaços da minha, música sempre esteve presente e escolher sete é simplesmente um ato de injustiça com as demais. No entanto, resolvi eleger as primeiras que me vieram à mente, pois sei que se fosse pensar muito não conseguiria chegar apenas em sete.
A idéia era descrever momentos em que as músicas tiveram participação ativa. Talvez minha lista não cumpra com essa premissa, mas cada música surgiu em minha mente para a lista por alguma razão que não pretendi descobrir. Algumas pessoas que me conhecem provavelmente entenderão algumas escolhas. Apenas meu inconsciente realmente saberia a razão de eu eleger estas sete. Isso não importa. Por isso, não descreverei os tais momentos, já que as músicas se perpetuaram por uma imensidão deles. Vou escrever apenas algumas palavras que certamente farão que estes momentos aflorem junto à melodia de cada uma das minhas sete escolhas.
Sgt Peppers Heart Club Band - The Beatles
O álbum inteiro marcou minha infância. Meu irmão colocava o vinil numa vitrola e eu ficava chapado. Minhas primeiras lições autodidatas de inglês foram com ele. Não consigo lembrar de momentos de minha vida em que os Beatles não estivessem presentes, não é Júnior?
The Great Gig in the Sky - Pink Floyd
Quando eu tinha uns dezesseis anos participei de uma peça teatral em que The Dark Side of Moon fazia o pano de fundo. O álbum foi fundamental em minha formação e escolher uma música dele já é doído.
More than a Woman - Bee Gees
O final dos anos 70 me colocou de frente para a vida, para os amores e as dores que acabam sempre andando juntos.
Can’t Take my Eyes of off You - Gloria Gaynor
Faz mais de vinte e cinco anos que essa música me tomou de jeito. Até já escrevi um pequeno conto com ela de protagonista. Quem sabe um dia faço como Heath Ledger nesse vídeo...
No Ordinary Love - Sade
A voz de Sade Adu diz que esse não é um amor comum.
Indifference - Pearl Jam
Muito mais que a música, o vídeo do Lobístico me fez recordar momentos de paz à beira mar. Um lugar assim sempre me deixará feliz.
Outras músicas dele poderiam estar aqui, mas escolhi essa por alguns signos presentes no vídeo. Chaves, por exemplo, que poderiam abrir portas e passagens.
(Clique no título da música para ver, ouvir e se emocionar)
A primeira vez que a vi foi no filme Cabo do Medo, um remake que Martin Scorsese fez de um filme de 1962. Robert de Niro mais uma vez extrapola no papel de um estrupador que saiu da cadeia e vai em busca do advogado que o encarcerou. Nesta versão de 1991, Robert Mitchum faz um papel secundário. Foi uma forma de Scorsese relembrar a versão de 1962, quando Mitchum fez o personagem do estrupador. Não vi a versão de 62 para comparar. Mitchum foi um ótimo ator, mas de Niro realmente faz toda a diferença. Mas ela que dizia é Juliette Lewis. Em Cabo do Medo ela faz a filha do advogado Nick Nolte e de Jessica Lange. Na época ela era uma adolescente fresquinha, no sentido original da palavra, já que ela é de 1973. Depois ela fez outros grandes filmes como Assassinos por natureza, Kalifornia e um outro que não me lembro o nome, mas em que ela faz uma deficiente mental emocionante.
Recentemente meu filho Ugo me apresentou outra face dela. O lado roqueiro com sua voz meio rouca e visceral. Roberto Gori contribuiu também me cedendo alguns mp3 para a minha apreciação. A banda chamada Juliette and The Licks tem aquela velha “pegada” clara e pura que a gente gosta. A gente que sempre esteve com aquelas batidas e notas características sempre presentes na vitrola, no tape deck, no walkman, no iPod, no Youtube, em qualquer lugar que se possa ouvir músicas que façam vibrar. The old and good rock’n’roll.