sábado, julho 16, 2011

All You Need Is Love - The Beatles

Good Night - The Beatles

O seu santo nome…

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

Carlos Drummond Andrade

Sonhar é acordar-se para dentro

Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste…
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.

Insite em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro… eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…
Como também disfarce é a minha vida!

Mario Quintana

quinta-feira, julho 14, 2011

Poesias – II

Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso

Paulo Leminski

Soneto

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c’os demais, que só, sisudo.

Gregório de Matos

sábado, julho 09, 2011

J.L.&M.J.

O Coração que ri

A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.

Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.

Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.

A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.


Charles Bukowski

Esperando para atravessar

Alguns momentos antes de um momento histórico.



terça-feira, julho 05, 2011

É para o alto que se deve cair - por Renato Cabral

Machucados são de todo o tipo. Tem idade que eles são mais visíveis. Tem idade que não são. Em todas elas, há que se guardá-los sim. São os retratos da alma crescida.



É para o alto que se deve cair

Sempre acreditei que só há um tipo de memória que devemos guardar. E ela não fica na cabeça, mas no corpo. É que as articulações são menos mentirosas que nossas sinapses. Trago poucas, mas só elas me dizem realmente quem fui e como vivi.

Depois de cruzarem aquela bola, lá do meio da rua, corri para cabeceá-la. Meu irmão fez o mesmo. Só que por ser muito maior que eu, seu ímpeto também era proporcional. E ao invés da bola, acertou minha cabeça. Foi minha última lembrança. Só os pontos não me deixaram esquecer de nada. Acordei tonto, com água fria no rosto, a olhá-lo com os olhos mais assustados que os meus. Se naquele fim de tarde eu não tivesse arrebentado minha cabeça contra a dele e desmaiado, talvez hoje ele fosse menos cuidadoso comigo. A gente toma gosto por não querer ver machucado quem amamos.

E, que ironia, porque um tempo depois, o mesmo irmão, que cuidou de mim naquele dia, quase me esmagou com o carro. Na garagem, eu, meus brinquedos e aquele mundo que só existia para mim. Foi quando ele chegou com meu pai. Adolescente, ele aprendia a dirigir. Adolescente, ainda não sabia que sua ansiedade era mais pesada que seu pé. Ele não me esperou sair da garagem. Fui esmagado contra o muro. E, que coisa, minha caixa de brinquedos salvou minha vida, amortecendo meu corpo contra o carro. Logo comigo, que sempre achei que era mesmo um super-herói, uma espécie de homem de ferro. Mas quebrei o quadril. Nove meses sem andar. Que bom. Na escola, estaria na quarta-série. Na cama, os livros não tinham idade. Foi quando aprendi a ler de verdade.

Uma outra vez, meu vizinho me enfiou um pedaço de antena de TV nos olhos. Fazíamos revólveres com aquilo. Na brincadeira, apagávamos bandidos. Na vida real, minhas vistas quase se apagaram. E lá no hospital, aprendi como é bom voltar a enxergar. A primeira pessoa que vi foi minha mãe a me olhar de um jeito totalmente novo. Fiquei feliz, porque o que vi, não precisava dos olhos para enxergar: seu abraço me contou tudo. O mesmo abraço que me dava quando sarei de todas minhas pneumonias.

Penso em todos esses machucados como um testamento. Às vezes o corte é no coração, mas dói no cotovelo. Um amor que se perde, um animal de estimação que se vai. A dificuldade de respirar como anúncio de que você ficou menor, mais longe do ar. Minhas cicatrizes são como carimbos num passaporte. Sei como foi duro conquistar cada um, mas morro de orgulho de todos. Foi assim quando quebrei a mão na capoeira, foi assim quando numa corrida de aventura perdi todas as unhas dos pés. Talvez, me machucando nas duas pontas, meu corpo quisesse me avisar sobre a importância de ter equilíbrio, quando na verdade eu só queria ir aonde os outros não iam.


Como todo moleque, virei jogador de futebol. Mas meu excesso de querer me fez torcer o joelho. Meus ligamentos não aguentaram minha vontade. Minha vida poderia ter todos os rumos que quisesse ou os que a imaginação pedisse, mas a gente só vive realmente o que viveu. Meu joelho me aposentou. E, como um aposentado, estava livre aos 20 anos para ter uma vida nova e ir experimentar outras bobagens. Daí, por não poder mais mudar a direção da minha corrida sob a pena de sempre torcer o joelho, aprendi a correr em linha reta. E foi por isso, por aquele dia, que passei a treinar triátlon. Quem imaginaria que um tempo depois eu completaria duas provas do IronMan, nadando 4 km, pedalando 180 km e correndo uma maratona no final. Quem diria que eu conseguiria uma vaga num campeonato mundial. Hoje ao tentar manter o peso com dietas Herbalife, nem eu acredito. Não fossem as tendinites que coleciono, duvidaria que fiz. Enfim, eu era o homem de ferro que sempre suspeitei ser quando criança. Por ser indeciso demais, nunca me dei para tatuagens. Sem saber, ganharia uma da forma mais dolorida. Num feriado de Romaria, pedalando na estrada, bati num vergalhão e cai a 72 km/h numa descida. Desse dia trago dois troféus. Um, o capacete esmagado que salvou minhas memórias. O outro, a lembrança da minha namorada a cuidar de mim. Sete dias que se resumiram a ter forças para suportar a dor de um ombro queimado como fogo pelo asfalto quente. E todos os dias que olho para a marca do buraco na minha carne, me lembro daquela menina que poderia estar em qualquer parte do mundo, com qualquer um, mas estava comigo na minha cama a sorrir quando eu gemia. Tomara que as cicatrizes que eu deixei no seu coração estejam fechadas hoje. Tomara que ela pense nelas com carinho.

Mas, às vezes, as piores feridas não acontecem em nosso corpo, mas ficam nele mesmo assim. Só no dia em que meu pai sofreu o derrame é que fomos saber de tudo. Ele havia caído num golpe, perdido tudo, perdido a casa, perdido a saúde. Aquela ferida demorou a fechar. Mas quando se fechou, nos olhávamos como sobreviventes que se fizeram mais fortes desde então. E o tempo passou. E um dia, uma semana após ter visto sua neta nascer, ele sofreu um aneurisma. Morreu um mês depois na UTI. Neste caso, só neste caso, faço questão de não deixar a ferida sarar. Não quero correr o risco de esquecê-lo.

Outra vez foi com alguém que eu nem sabia direito que amava. Depois de nos encontrarmos e nos declararmos, senti que precisava segui-la. Ela saiu arrancando e eu atrás com o pressentimento de que haveria uma boa surpresa me esperando no final daquilo tudo. Algumas esquinas depois, ela passou em alta velocidade no sinal vermelho. Não consegui avisá-la. Um carro a pegou no meio, em cheio. A sensação de que poderia tê-la perdido não caberia neste texto. Por isso, saí do carro prendendo a respiração. Tinha medo de que se eu respirasse, faltasse o ar para ela. E foi quando ela se virou, olhou para mim e disse que estava tudo bem. Não fosse o acidente, não teríamos nos apaixonado ainda mais. E não seríamos tudo que somos um para o outro hoje. Eu sabia que coisas boas nos esperavam. Depois daquele dia, passei a rezar todas as noites, pedindo que ela nunca se machuque. Faço isso mesmo sem acreditar em Deus.

Sempre suspeite que o medo de encarar minha mediocridade e a vida pequena que poderia me esperar era o que me trazia para todas essas aventuras e supostas intensidades. Mas a verdade é que passei a vida inteira fugindo: fugi dos meus amores, fugi das minhas melhores oportunidades, fugi do atleta que poderia ter sido. Mas não fugi de casa. Aos 31, ainda moro com minha mãe. É que enfrentar a vida é exatamente passar a maior parte do tempo nela sendo um médio. E aí percebi que, para alguns, como para mim, até a maturidade pode não vir. Nunca cresci. Me tornei um Peter Pan no pior sentido. Mas não importa, ou se importa, importa menos que minhas cicatrizes. Só podemos nos orgulhar daquilo que foi feito. Se minha vida não me fez o homem que talvez todos apostassem que eu viria a ser, minhas quedas me fizeram ser o garoto que viveu todos seus tombos. E tentou sorrir todas as vezes. Dizem que não devemos chorar quando caímos. Sempre fiz questão de chorar. E sempre fiz questão de, ao cair, cair atirando.

E, por favor, não veja isso como mais um lamento de um desperdiçado. É que às vezes não há como se levantar do chão sem um pouco de autocrítica, de ódio por si mesmo e sem aquela leve cuspida para o alto em que você deixa que tudo caia na própria cara só para se lembrar que é importante sair do lugar. Que bom que meus ossos fora do lugar sabem melhor que eu disso.

Renato Cabral

segunda-feira, julho 04, 2011

Milk

Um outro tanto

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia
poder amar-te ainda
um outro tanto

Maria Teresa Horta

O Rio de Janeiro continua Beautiful

Olha a bateria aí...


Igual – Desigual

Eu desconfiava:
Todas as histórias em quadrinhos são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os "best-sellers" são iguais.

Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todas as experiências de sexo são iguais.

Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas, e rondóis são iguais
e todos, todos os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.

Todos os amores, iguais, iguais, iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.

Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho ímpar.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, julho 03, 2011

Team Ghost

Team Ghost - High Hopes from 16ar on Vimeo.

O Amanhã

Amanhã quando acordar… quero ver flores.
Hoje quando dormir… quero ver estrela.
E um dia quando acordar,
quero acordar com o mundo melhor,
onde não exista diferença,
para que o respeito prevaleça, você não desapareça.
Amanhã quando acordar… quero acordar com o passado morto e o presente vivo…
com o sorriso de um bom amigo…
Hoje quando dormir, quero sonhar… sonhar com você… sempre…

Mario Quintana

Simply Red - Fairground

Quando o Simply Red lançou essa música, ela veio pra ser dançante e até alguns remixies apareceram no rastro. Mas essa versão meio jazzy é pra ficar nas favoritas de quem aprecia uma boa música e, quem sabe, um bom tinto de companhia.




Pride and Joy

sábado, julho 02, 2011

Ugo

Copiaram o nome do meu filho, mas o som é muito bom. Sugestão do Luciano Araújo.


Scar Tissue

Essa é fundamental...


Crazy Mary

Maria doidona...


Toma-me

Toma-me.
A tua boca de linho sobre a minha boca austera.
Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo. Da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.

E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu delinqüescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga

Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa
De púrpura. De prata. De delicadeza.

Hilda Hilst

Paciência




Paciência

Lenine

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára

Enquanto o tempo acelera
E pede pressa
Eu me recuso, faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo que me falta pra perceber?
Será que temos este tempo pra perder?
E quem quer saber
A vida é tão rara

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei
A vida não pára
A vida não pára, não
A vida não pára
A vida é tão rara

sexta-feira, julho 01, 2011

Não tem preço

Afinal, as grandes corporações têm interesses nas mesmas proporções... Leia esse texto.


quinta-feira, junho 30, 2011

Eu Vou Estar



Eu Vou Estar

Capital Inicial

Eu não vou pro inferno
Eu não iria tão longe por você
Mas vai ser impossível não lembrar
Vou estar em tudo em que você vê
Nos seus livros, nos seus discos
Vou entrar na sua roupa
E onde você menos esperar
Eu vou estar

Eu não vou pro céu também
Eu não sou tão bom assim
E mesmo quando encontrar alguém
Você ainda vai ver, a mim
Nos seus livros, nos seus discos
Vou entrar na sua roupa
E onde você menos esperar

Embaixo da cama
Nos carros passando
No verde da grama
Na chuva chegando
eu vou voltar
Nos seus livros, nos seus discos
Vou entrar na sua roupa
E onde você menos esperar
Eu vou estar


terça-feira, junho 28, 2011

Black

Desejo

Queria ser essa noite que te envolve; e
cobrir-te com o peso obscuro dos braços
que não se vêem. Um murmúrio
desceria de uma vegetação de palavras,
enrolando-se nos teus cabelos como
secretas folhas de hera num horizonte
de pálpebras. Deixarias que te olhasse
o fundo dos olhos, onde brilha
a imagem do amor. E sinto os teus dedos
soltarem-se da sombra, pedindo
o silêncio que antecede a madrugada.

Nuno Júdice

segunda-feira, junho 27, 2011

Lugares e Estados de Alma

A influência exercida sobre a nossa alma, pelos diferentes lugares, é uma coisa digna de observação. Se a melancolia nos conquista infalivelmente quando estamos à beira das águas, uma outra lei da nossa natureza impressionante faz com que, nas montanhas, os nossos sentimentos se purifiquem: ali a paixão ganha em profundidade o que parece perder em vivacidade.

Honoré de Balzac, in ‘A Mulher de Trinta Anos’



Fotos feitas em Penedo - RJ

terça-feira, junho 21, 2011

Finalmente - por Renato Cabral

Quando li a parte que o Cabral diz "aquele final de música onde os guitarristas nos arrebatam", não pude deixar de lembrar dessa versão do Clapton. Me lembrei dele também pela paixão que ele nutriu (e curtiu) pela mulher do seu melhor amigo. Mulher de amigo não é homem não...

Desse jeito, coloquei aqui o som do cara. Reparem "aquele final de música onde os guitarristas nos arrebatam"... Como diz Júnior Degani, o homem sabe fazer a guitarra chorar. Quem sabe o som de Clapton se encaixa nas letras do Cabral...



Como um cavaleiro sem armadura, à deriva nos confins de um tempo sem nome, em companhia de todos os sonhos sem datas que nem quem os perdeu já se lembra mais, fui rastejando pelas bordas daquilo que não tem canto nem fronteira. No frio e no escuro dessa película, abafada de qualquer coisa, de coisa nenhuma, eu por ali, esperando sinais e anjos, esperando alguém ir me buscar. Eu na companhia de um relógio que não andava. E por não correr, eu também não passava. Trombado de inércia, tombado de espera, congelado por todos os lados. Mas havia um lugar, e sempre há esse lugar, minha querida, um pedacinho de mim que não quis se esquecer nem se calar, um tantinho assim de memória grudada às artérias do peito, ali, perto daquele pulsar tímido, que me mantinha vivo, lúcido entre delirante e alucinado. E que bom que esse frio que é se esquecer de si não congelou meu coração.

E foi quando encontrei um jeito. Havia encontrado aquele final de música onde os guitarristas nos arrebatam, onde os filmes nos fazem chorar, aquele final de beijo onde os namorados sabem que aconteceram, aquele pegar de mão espontâneo no momento que precede a travessia de uma rua perigosa. Havia encontrado um jeito de me amarrar ao mastro de Ulisses e agora todas as sereias com suas serenatas de morte eram apenas um tapete de rosas por onde deslizava minha nave, minha nau da salvação. E fui, minha querida, fui atravessando tudo aquilo com tanta raiva e com a garganta flamejada de vontade de um grito que nunca antes fora berrado.

Eu na grande viagem de volta. Quanto tempo esperei para que aquela luz que um dia estalou em meu peito, e fugiu, desse a volta em todo o universo e retornasse para me reencontrar. Quanto tempo é preciso se desperdiçar para então quebrar esse ovo de maldades que fazemos com a gente mesmo? Quanto de nós precisa virar pedra e ser enterrado para que um dia possamos virar tesouro e sermos escavados, e achados, e comemorados?

E ia. E já ouvia todos os barulhos de novo, os cheiros que tinha me esquecido, que me faziam arrepiar as entranhas e lubrificar com lágrimas as juntas. E a correr de novo, rápido e sem lugar, a deslizar urgente, mas sem pressa, firme, mas sem mágoa de nada mais. Eu, livre das correntes e dos calabouços. Havia chegado minha luz, meu tempo, e tudo estava claro. A luz da paciência. Como foi doloroso resistir. E como é bom sentir o cheiro da vitória, enfim.

E não era sonho, meu amor. Você nem outros tantos irão acreditar, mas essa é a viagem que demorou tudo, que precisou do Big Bang como centelha de um pavio sem fim, que precisou que do hidrogênio se fizessem os elefantes e os dias tristes de quem já se abandonou mil vezes, mas nunca desistiu. É assim que me sinto agora. Com a sensação de quem pode tocar o todo. E toco. Já não é mais ser a pequena gota misturada ao oceano, mas, antes, o contrário. É sentir todo o sal do mundo temperar as vistas e nem mesmo assim se perder, de tão aqui, de tão presente, de tão você, de tão já. Ah!

O abraço não mais à criança que um dia queremos ser de volta, ou voltar a ser porque ser isso é não ser nada e continuar tendo a desculpa para não ser. Mas o abraço a quem demorou a eternidade para se fazer e chegar, o abraço para quem teve de ver os sóis ficarem velhos e frios e as sondas espaciais jogadas no escuro chorarem de solidão até encontrarem seu abismo ou seu contato, tudo isso para poder dizer que o tempo de crescer e vingar, de se vingar contra o desespero, havia chegado para mim. E quando esse tempo chega, meu amor, você se sente forte demais para não precisar mais bater em ninguém, nem rasgar a si mesmo com suas unhas. E você só olha, só olha, você só olha. E basta. Porque você sabe tanto quanto tudo. Porque você já não precisa saber de nada. E essa sensação, esse prazer é a verdade que fica, que não precisa ser anunciada. É o que sobra e que só não é tudo porque tudo já é ela. É quando você se pega se sentindo sendo.

É por isso que agora, durante as noites, minha alma vira esse anjo, esse cavaleiro com asas. E quando ela sai do meu corpo para cumprir sua missão, sonho os desastres e os pesadelos de fim de mundo. É porque minha alma nestas horas está longe, pingando sua promessa de amor em outras almas solitárias, indo àquele confim buscar outros perdidos, àquele lugar que por tantos dias ela também já esteve. Indo buscar no abandono um jeito de resistir e dar conta, buscar aquele estalo que temos quando nos vemos no espelho e não arrumamos a franja, só as malas para partir para a grande viagem de ter visto pelo menos uma vez nosso próprio rosto sorrir de verdade, de ter redescoberto o amor por si mesmo. Tudo enquanto durmo, e os boêmios fazem sua poesia, e os poetas deitam suas espadas.

Enquanto meu espírito se esvazia no mundo de tão cheio, durmo e te encontro em outro lugar, onde nossos sonhos contam as coisas de trás para frente, do avesso e de cabeça para baixo e tudo sempre termina num beijo. E de manhã, quando abro os olhos, estou oco, mas preparado para o retorno daquela grande ave que volta quando o sol raia e entra em mim com tanta força que é por isso que fico a te olhar na cama com os olhos de quem já fez todas as viagens, arrebatado com tudo porque tudo diz respeito ao jeito com que te olho e te quero. E minha alma, esse anjo cavaleiro, volta para mim e eu volto para você.

Tive que percorrer toda a história, toda a distância das galáxias na velocidade de todas as angústias para chegar a este dia de hoje e te dizer, e me dizer: finalmente. Eu consegui. Nós conseguimos. Já não faz mais sentido combater a tristeza com alegria, não é preciso mais regar as trevas com esta luz nem salpicar sorrisos nas feridas, porque já não existe nada para trás. Porque já não existe nada antes de você e de nós dois juntos assim.

E é assim. Finalmente, minha querida. Finalmente o amor. Porque o amor é essa chance, o amor é essa paciência, único jeito de resistir, o amor é o que faz a luz fazer a curva e voltar. O amor é esse barco que vem nos salvar. O amor, amor da minha vida. Finalmente o vejo do cais. Ele chegou. Finalmente.

Renato Cabral

segunda-feira, junho 20, 2011

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão.

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
— para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

José Gomes Ferreira

sexta-feira, junho 17, 2011

Lover You Should Have Come Over

Poucas músicas têm a emoção das músicas desse cara, que se foi muito cedo.




quinta-feira, junho 16, 2011

Campos de concentração são mais bonitos de mãos dadas - por Renato Cabral

Não é que tem caminho mais difícil. Tem caminhos desconhecidos. Então, difíceis. Então, misteriosos. Então, lindos.



Naquele dia, quando li a frase mais triste de toda a Filosofia, tive que aceitar o que passamos a vida evitando olhar. Mas eu só tinha 14 anos e ainda não sabia que toda aquela dor e vazio eram ainda piores quando tudo crescesse e eu ficasse menor com a idade. Porque essa é a melhor imagem da vida adulta: sobre como nos apequenamos diante dos infortúnios. E foi naquele mesmo dia que fui arrastado para o campo de concentração. Mas, infelizmente, não havia inimigo presente para o qual levantar minha espada e resistir; e toda violência era um tapa que só doía por dentro. Um dia te falei que só há uma história que vale a pena ser contada: a nossa. Estava errado. Por isso hoje quero contar uma outra, que não é minha nem sua, apesar de a termos feita juntos. Ela fala como mesmo nos campos de concentração ainda podemos ser felizes. Nem todos conseguem, assim como não são todas as flores que dão a sorte de serem encontradas…

São nos momentos que precedem os desastres que podemos ver as coisas essenciais. E porque você estava do lado de fora, pude te ver. Sei disso, porque foi quando tudo virou silêncio e até os vendedores de chicletes da rua pararam de assobiar. Eu como mais um na fila, como o ruminante a espera do abate. E, que ironia, logo aquela fila, o pior lugar para quem tem urgência e pressa, foi o nosso começo.

Eu com um ingresso sobrando. Preso. Você do lado de lá da cerca, sem entradas. Mas livre. Eu, um refugiado, a caminho de menos um dia. Você, minha cruz vermelha, na luta por mais um, por salvar mais um. E quando nos olhamos pela primeira vez, foi quando pudemos trocar o que tínhamos sobrando. Eu, minha alma, meu pedido de ajuda. Você, sua liberdade. Porque começava ali, sem a gente suspeitar, a nossa história e o nosso amor. E que bom que o preço de amar não é deixar de ser livre, mas deixar de se importar com isso.

E te pergunto, por quê? Porque a mim, que não tinha escapatória, restavam as câmeras de gás. Mas a você que tinha tudo, podia ter fugido, mas me deu a mão e abriu mão de tanto para estar comigo ali…

Até aquele dia, até você chegar – e só fui saber disso agora – achava que a vida me teria como o grande desperdiçado, mais um filho que não deu certo, que quase vingou, mas tombou em vão. Como a eterna criança que por ter brincado demais levou a sério seu tabuleiro imaginário e a brincadeira perdeu a graça. Mas que bom saber que a única coisa em vão é mesmo a saudade com que lembramos da gente no passado, sempre achando que éramos melhores. Não somos.

Até aquele dia, hoje sei, me faltava saber olhar para as coisas simples e para as responsabilidades que podem, sim, trazer coisas grandes. Por não querer crescer, nunca pude aprender o que a vida adulta e madura poderia me dar. E recusei ser livre. Troquei minha liberdade pela má-fé nas filas. Eu cheio da companhia de outros vazios ao meu lado. É muito bom ser criança e brincar, mas é muito melhor ser grande e poder olhar mais longe e ir mais longe, além daquele pequeno parquinho de areia onde nos distraímos com nossa suposta ingenuidade.

Até aquele dia, achava que entrar nos campos de concentração não era uma questão de escolha. E não é mesmo. Mas a gente pode entrar de mãos dadas. A vida num campo de concentração já é por demais dura e difícil mesmo com nossa imaginação. Mas seria impossível sem um amor para nos salvar.

Você me salvou e nunca soube disso, porque nem eu sabia ao certo o que era aquela sensação que eu sentia ao estar de pé ao seu lado. Eu, pleno, eufórico, tímido com meu próprio bem-estar, envergonhado como se a felicidade fosse uma doença perigosa. Eu, um vira-latas que encontrou seu banquete, sua desforra, seu tempo de uivar de novo para a Lua que já habitava em mim. Eu, desconcertantemente cheio de luz, iluminado pelo seu sorriso. E triste por saber que todos nós podemos vibrar assim, mas poucos alcançam isso. E contente de saber que um alcançou. E sem palavras quando pude perceber que este homem era eu. Pelo menos uma vez na vida. Pelo menos por um instante fui eu. E naquela hora, sorri como em nenhum outro dia. E chorei como em nenhuma outra vez.

Que bom não termos nos perdido no meio da multidão. Quando me lembro dos sonhos do fim do mundo, agradeço por eles terem sido apenas o prenúncio ao contrário das coisas maravilhosas que iríamos viver. E se acabasse agora, saiba. Foram apenas alguns meses. Mas foram meus melhores meses. E porque a vida é por demais um campo de concentração onde empilhamos desastres e dessabores, onde nos empenhos em achar sentido para nossa existência, pude achar em você meu motivo para resistir. Enfim, já podia aceitar que cresci.

E agora, mais uma vez, me recordo daquela frase que foi o passaporte para ver o infortúnio que pode ser tudo isso ao nosso redor: “A vida é como um pêndulo, oscilando da direta para a esquerda, da falta ao tédio, sem nunca cessar”. Quem disse isso foi Schopenhauer. Ele não estava errado. Mas hoje, só hoje, como num milagre, contrariando toda a lógica, prefiro relembrar aquele filme que um dia vimos juntos e que termina assim: “essa parte da minha vida, essa pequena parte se chama felicidade.” Então, vamos aproveitar, minha querida, antes que o pêndulo volte a oscilar.

Ps. Me tornei homem aos 31 anos. Como demorou. E depois que esse dia chegou, pude ver o mais importante: saber olhar para trás e para tudo antes de hoje com a maior das gratidões. Porque tudo me levou àquele dia, àquela fila e se eu não tivesse entrado nela, não teria te encontrado. Que bom que você me tirou da fila. Que bom que você aceitou meu ingresso.

Renato Cabral

segunda-feira, junho 13, 2011

Noites azuis

Pelas noites azuis de verão, irei em atalhos sob a lua,
Picotado pelos trigos, pisar a grama pequena:
Sonhador, sentirei nos pés o frescor que acena.
Deixarei o vento banhar minha cabeça nua.

Não falarei, não pensarei em nada sequer:
Mas me subirá na alma o amor soberano,
E irei longe, bem longe, feito um cigano,
Pela Natureza — feliz como se estivesse com uma mulher.

Arthur Rimbaud

quinta-feira, junho 09, 2011

Sapatênis: ou o meu pedido de demissão - por Renato Cabral

Quem sente náuseas ao ouvir a musiquinha do Fantástico às vésperas de uma segunda-feira?



Achei que dava para suportar sem minha caderneta de frases inoportunas, sem os tapas e pontapés, que me deixavam feio, mas me defendiam. Pensei que se não abrisse a janela do departamento, estaria livre das ruas que não visitei, das mulheres que não provei. Daí, aceitei a ideia de que a velha ideia de ir de Lhasa a Kathmandu pedalando poderia esperar. Esperar talvez até que o câncer viesse primeiro, ou o primeiro infarto. Porque para toda inação ou falso desconsolo é preciso uma alavanca e um martelo para nos tirar do lugar.


E foi quando assinaram minha carteira. Tirei uma foto sorrindo, ganhei um canto na cela. Segui o horário, atento para atrasos menores que 15 minutos e no lanche comi pão com manteiga. Achei gostoso. De mentira. Falei mal de alguns perto do bebedouro. De verdade. Respondi a todo bom-dia com um sorriso carregado. Dei abraços demorados nos que faziam aniversário. Achei que, compartilhando as pequenas coisas que enchem um dia de migalhas, estaria com eles e o tempo passaria mais rápido. E passou mesmo.

Depois das dezoito, o aperto no peito cedia. Mas era leveza de vazio, de quem havia jogado sua arca de ouro no mar e ficado mais pobre que antes. No domingo, o aperto apertava de novo. O dia de folga para chorar a falta do que fazer estava acabando. E me lembrava dos poucos feriados do ano, a oferta de esmola para as almas miseráveis. E pensava nas férias, aquela ponte aérea que achamos que nos levará à felicidade. A passagem dividida em 12x no cartão.

E começava de novo, porque todo dia é uma segunda-feira para quem bate pedras ou bate o cartão. Alguns por ali ainda resistindo em círculos, como um bicho na gaiola. Outros com o mesmo olhar de “tanto faz” que já pesava meus cílios. Eu sem ser bom o bastante, ali também; mais um a colaborar com a atuação dos amolecidos, a sentir o cabresto como os equinos. Minha má-fé voluntária virou dor nas juntas e passou a arder na hora de ir para casa. Era a artrite provocada pelo auto-vodu.

Nada ajudava. Nem o self-service da esquina com sua sobremesa grátis, nem os chocolates dos dias de comemoração. Aí, nessas horas, pulava do barco e tentava mergulhar fundo, voltar para aquele lugar que um dia teve nome e não precisava esperar a folha de pagamento do dia 10 para sorrir porque paguei as contas sem juros. Mas não tinha o mesmo fôlego. E a verdade é que a poltrona já tinha as minhas curvas e o teclado a poeira dos meus dedos. No reflexo das águas, ou do monitor, a silhueta de um homem sem rosto, náufrago afogado de olhos acorrentados. Minha vontade resumida a levar o dedo ao controle do ar condicionado e gelar o ambiente seco como nossos olhos.

Então entendi que coragem e aventura são coisas para quem só morre uma vez. Nós, o povo bunda, morremos demais; a cada dia um tanto assim. Mas sem dor, tediosamente devagar. Não bastasse o peso do crachá, passei a arrastar uma vitrola de lamentações, que anunciava um cadáver cada dia menos adiado. Eu como o alterego dos armários de aço.

Daí, quando as pessoas se concentravam na sua atuação, na sua enganação, e tudo era silêncio, me lembrava que conheci homens autênticos, os que nunca morrem. Para eles, quando o fim chega, já não podem experimentar a morte. Porque quando ela está, eles já partiram. Para eles, morrer é sempre a morte dos outros. Para os amarelões, a morte vem em forma de um tapa nas costas, ou de um pequeno elogio no fim do expediente; é o pouco de grama necessária para os ruminantes mascarem seu autoengano e babarem seu desespero sem reclamar do engarrafamento até a praia.

Um dia a jaboticabeira lá do fundo do quintal vingou e me peguei sorrindo até a metade, em meio ao trabalho, no meio do dia, com o café morno nas mãos. Aquela bolota preta me lembrou que eu tinha passado a pintar os cabelos. Aquela bolota preta me lembrou que agora eu usava 44 e já não tinha mais 20.

Às vezes falava alto na sala. Eles achavam que era carência, exibicionismo, falta de prudência. Mas era eu gritando para meu outro, aquele que me esperava no portão de saída e não entrava comigo. Era meu teatro de pânico, meu deboche que sempre me deu a muleta para tirar a cara da lama. Eu, que sempre fui egoísta, esqueci que isso era o que me salvava da mesmice, era minha cerca contra as ovelhas que às vezes são mais perigosas que os lobos.

Nas comemorações de resultados, via cada um sugando do delírio do outro um motivo para acordar de novo. Estavam embriagados como nunca fui. Hipnotizados como nunca fiquei. Pareciam imersos numa ignorância libertadora. Mas a verdade é que todos tinham no olhar a cumplicidade de saber de sua mentira. Isso nos unia. Vivíamos como todo mundo vive, porque a mediocridade não torna mesmo ninguém melhor que ninguém.

E assim era o dia de todos por ali. Faltava aquele remédio para suportar o tédio: apatia ou uma escopeta. Assim, amanhã, às oito, nosso tempo estará contado; nosso corpo se revirando no mesmo lugar e o olhar perdido, o meu apontando para o Himalaia. E, que ironia, às vezes me sobra dinheiro no fim do mês. Comprarei um sapatênis. Irei com ele no próximo happy hour.

Por Renato Cabral

quinta-feira, junho 02, 2011

Canção

Tanto o amor me manteve acorrentado
e acostumado à sua serventia,
que o peso que no peito eu conhecia
hoje em leveza vejo transformado.

Porém amor, de forças renovado,
me toma o espírito e me silencia
e minh’alma em doçura delicia
e sem cores me deixa desmaiado.

Depois ele retoma seu poder
e faz com que os espíritos em bando
saiam todos, chamando

a minha dama por me socorrer.
É o que me ocorre ao vê-la e me domina
tanto, que coisa igual não se imagina.

Dante Alighieri

quinta-feira, maio 26, 2011

Maravilhosos anos 70 - 6

Por sugestão do Carlos Francisco.


Eddie Vedder - Ukulele Songs

O cara é uma lenda. A voz inconfundível faz dele uma marca indelével no r'n'r. Fora isso, se fosse pouco, ainda é uma figura. Neste link, seu mais recente trabalho.

quarta-feira, maio 25, 2011

Beijo

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue.
Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!…
Diz tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a soluçar… Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais!
que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!

Castro Alves

A Inigualável

Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de setim…
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem joias pretas…

E tão febril e delicada
Que não podesses dar um passo –
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de côr no regaço…

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas –
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas…

Ah! que as tuas nostalgias fôssem guisos de prata –
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata…

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim –
Os teus espasmos, de sêda…

- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim…

Mário de Sá-Carneiro

quinta-feira, maio 19, 2011

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny

domingo, maio 15, 2011

Maravilhosos anos 70 - 5

Maravilhosos anos 70 - 4

Maravilhosos anos 70 - 3

Sem título

Use a noite pra mergulhar
Num mar de estrelas e sonhos
Vá ao fundo da imaginação
Use a noite pra se soltar
Deixar fluir o que você quiser
E chegar onde for chegar
O que vier ao coração

Maravilhosos anos 70 - 2

Maravilhosos anos 70 - 1

Canção da Noite

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu

Chico Buarque de Holanda

sábado, maio 14, 2011

Sem necessidade de título

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

Árvores - 6

sexta-feira, maio 13, 2011

Sonho de consumo

Tem gente que quer uma casa no campo. Outros uma à beira da praia. Tem uns que querem uma "machinna" italiana. Outros uma alemã. Tem gente que quer ir a Dubbai. Outros a Miami. Tem gente que quer um anel de brilhantes. Outros, um de noivado.

Meu sonho de consumo é estar num show com estes caras. E se possível, na acompanhia de uns Deganis, como Ugo e Júnior.





quarta-feira, maio 11, 2011

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Vinícius de Moraes

Teu corpo seja brasa

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo
um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

Alice Ruiz

domingo, maio 08, 2011

Árvores - 5

Árvores - 4

Uma foto tirada no estado do Rio de uma árvore nascida no estado de Minas Gerais. Maravilhas de Visconde de Mauá, RJ.

sábado, maio 07, 2011

Campo de Flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.

De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.

Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.

Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, maio 05, 2011

Aos amigos de travessia e os travessos da Santa Sexta - por Renato Cabral

O assunto desse texto do Cabral já foi utilizado aqui nesse blog. E em todos os lugares onde alguém possa escrever. Sobre o tema, músicas melosas foram feitas. Outras nem tanto ficaram guardadas com a gente. A Ciência já se debruçou também sobre essa conversa de amigos. Concluiu que os amigos influenciam sim, como diziam nossos pais. Até pra engordar.

Tenho um amigo que batia na janela do meu quarto às três da manhã pra me chamar pra tomar cerveja. E eu ia. Há mistérios, mágica, mil coisas doidas que nos ligam a essas pessoas. Sabe-se lá o que são.



Para que serve um amigo, você me perguntará. Não dá para responder com tese. Talvez com história.

Dos amigos, interessante, me lembro mais dos que já não o são do que daqueles que perduraram e ainda estão por aqui. Os que ficaram não mais notaram minha barriga, os brancos da cuca, o gosto excessivo pelo passado ou os sucessos medianos que coleciono. É que enxergar o tempo em nós apenas é possível por esses detalhes que só os já distantes têm os olhos para ver. A proximidade só permite tocar o essencial. Mas nem sempre é o essencial que conta sobre o que vale a pena.

Eu tenho três amigos. Só três sobraram. Que bom que a história, as circunstâncias e minha chatice fizeram o favor de filtrar os grãos finos daqueles que sobreviveram ao tempo. São estes que levamos na capanga como os falsos cristais que colecionávamos como diamantes quando éramos crianças. A fantasia não é uma mentira, é a poção mágica que damos ao mundo para que as pedras nos cantem e os muros nos deixem passar.

O primeiro amigo jamais permitiria que eu o chamasse assim. Se ele ler isso, se indignará e na primeira oportunidade me fará outro de seus favores: me mostrará que estou errado, mais uma vez. Uma vida interessante talvez possa ser contada pelas aventuras a que nos dedicamos, aquelas pequenas bobagens que conseguimos contrapor à seriedade do mundo. A maior parte das minhas foram feitas ao lado dele. Andamos de bicicleta pela América do Sul, escrevemos nossas primeiras linhas no Calabouço, fomos a uma final do Atlético no Mineirão. Ele sempre a me chamar de gordo, mesmo quando minha adiposidade era só de 4% e eu tentava uma vaga para o IronMan do Havaí. Ele sempre a me alertar sobre o desperdício, insistindo que a média não era o melhor local para gente como eu. E enquanto eu tentava sair do lugar, ele já se banhava na cachoeira mais próxima. Gostava de dizer que melhor que sair à rua como quem foge de casa, era fugir de casa como quem vai à rua. Nunca gostou de revoluções e de barulho. Talvez por isso seu silêncio e sua discrição contem melhor como ele transformou suas pequenas bobagens em diamantes. Gostava de me lembrar que a morte é o melhor alívio para os desperdiçados. Mas que, geralmente, nem a morte eles conquistam, porque falta vida para morrer. É um dos que vivem seu tormento com a sabedoria dos que aprenderam que é preciso parar de brigar com a própria loucura, muito menos colocá-la no ringue com a dos outros. Nas palavras dele: “quando morrermos, morrerá também uma forma de ver o mundo”. Vivo e com os olhos abertos como poucos.

O segundo amigo é uma mulher. Nas vésperas de seu primeiro casamento não fui convidado. É que ela ainda não sabia da amizade que teríamos. Mas nunca a perdoei de qualquer forma. Porque foi uma festa grande. Hoje, no segundo casamento, ela prepara outra festa.Vai ter um filho, que insisto em chamar de Malu, porque gostaria que fosse mulher. Ela sempre teve que conviver com meu egoísmo. E aquela esquina que nos conhecemos e plantamos o melhor de nós eu ainda levo aqui dentro por onde vou. Poucas pessoas me deixaram falar tanto. Para poucos falei tanto. O que é uma pena. Porque ler seus textos, ouvir sua música, suas histórias e a agonia e a grandeza da sua alma era muito mais interessantes que saber das minhas misérias. Quando eu for velho a pedalar solitário para Martinésia ou quando voltar do Himalaia, é bem provável que seja na companhia dela que estarei para ouvir que estou velho, gordo e chato como nunca. Sorrirei mais uma vez, como sempre.

Meu terceiro amigo não é uma pessoa. Mas uma mesa imaginária: a Santa Sexta, um grupo de fanfarrões geniais que se reúnem há mais de dez anos, todas as sextas, para celebrar o que o espírito humano tem de maior: a fome. Cada um a sua maneira contribuiu para que eu parasse de dividir minha existência entre o medíocre e o herói. Deles, aprendi que a vida pode nos tirar tudo, mas que aquilo que resta tenha pelo menos tempero. Somos esse grupo multidisciplinar de autodidatas onívoros, apenas tentando responder às grandes questões que nos iguala e talvez um dia nos leve além: será a vida possível quando não mais tivermos ereções ou após uma broxada? No fundo, o encontro é só (e não é pouco) um grande exercício cuja pretensão máxima é no mínimo dominar o mundo e colocar tudo num blog para que as próxima gerações possam saber do que uma mente desocupada e bem alimentada é capaz. Nossa metafísica acontece num restaurante qualquer (ainda queremos esquecer aquele longo inverno no shopping) com a desculpa de debater (e se possível comer) os grandes temas: bundas, tetas, internet, música, Deus, inimigos e videogame. Mas a melhor pauta mesmo é perceber como estamos todos piores com o tempo, independente do dinheiro e das mulheres de cada um. Menos o Roberval, claro.

Que não seque nossa memória, para que as histórias não fiquem ralas. Porque nosso testemunho por aqui é frágil em todas suas linhas e na sua extensão. Mas épico e humano também por isso. Para que serve, então, um amigo você pergunta? Para nada mais do que poder caminhar. Nascemos sozinhos, morreremos sozinhos, mas, como dizem, a vida é uma travessia. E o que é belo em nós é mesmo esse estar a caminho. No fim, você vai notar, o que importa não são as histórias, mas a força que elas dão para nos desprendermos, que nos permitem dar prova (ao mundo e nós mesmos) de nossa tentativa de desafiarmos a morte. E por isso meus amigos são essa ponte e esse corrimão, sem o qual não teria testemunha para meus afetos, para o desgosto das quedas nem para celebrar o gosto por esse mistério que é estar por estas bandas.

Dizem desde há muito tempo que estamos todos dentro dessa caverna, distraídos a nos enganar com as sombras de sua parede. Que o mundo lá fora é outro, muito mais legal. Não sei. Mas que bom é ter a companhia de outros enganados, ou desenganados, para tentarmos esse desprendimento e apenas bebermos juntos enquanto a revelação não vem. E acho mesmo que não virá. Também não importa. Porque juntos, o tempo que passa não é o tempo que corre, mas o tempo que permanece. Juntos até o fim dos tempos meus amigos.

Por Renato Cabral