NO MUNDO DOS BLOGS.
Todo mundo está se ligando, se conectando, se blogando. Os sinais de fumaça, os tambores, os pombos-correio, as cartas de papel, os telefonemas. Os blogs.
Para começar, para ver como é que fica, vamos falar de tudo...
Não é que tem caminho mais difícil. Tem caminhos desconhecidos. Então, difíceis. Então, misteriosos. Então, lindos.
Naquele dia, quando li a frase mais triste de toda a Filosofia, tive que aceitar o que passamos a vida evitando olhar. Mas eu só tinha 14 anos e ainda não sabia que toda aquela dor e vazio eram ainda piores quando tudo crescesse e eu ficasse menor com a idade. Porque essa é a melhor imagem da vida adulta: sobre como nos apequenamos diante dos infortúnios. E foi naquele mesmo dia que fui arrastado para o campo de concentração. Mas, infelizmente, não havia inimigo presente para o qual levantar minha espada e resistir; e toda violência era um tapa que só doía por dentro. Um dia te falei que só há uma história que vale a pena ser contada: a nossa. Estava errado. Por isso hoje quero contar uma outra, que não é minha nem sua, apesar de a termos feita juntos. Ela fala como mesmo nos campos de concentração ainda podemos ser felizes. Nem todos conseguem, assim como não são todas as flores que dão a sorte de serem encontradas…
São nos momentos que precedem os desastres que podemos ver as coisas essenciais. E porque você estava do lado de fora, pude te ver. Sei disso, porque foi quando tudo virou silêncio e até os vendedores de chicletes da rua pararam de assobiar. Eu como mais um na fila, como o ruminante a espera do abate. E, que ironia, logo aquela fila, o pior lugar para quem tem urgência e pressa, foi o nosso começo.
Eu com um ingresso sobrando. Preso. Você do lado de lá da cerca, sem entradas. Mas livre. Eu, um refugiado, a caminho de menos um dia. Você, minha cruz vermelha, na luta por mais um, por salvar mais um. E quando nos olhamos pela primeira vez, foi quando pudemos trocar o que tínhamos sobrando. Eu, minha alma, meu pedido de ajuda. Você, sua liberdade. Porque começava ali, sem a gente suspeitar, a nossa história e o nosso amor. E que bom que o preço de amar não é deixar de ser livre, mas deixar de se importar com isso.
E te pergunto, por quê? Porque a mim, que não tinha escapatória, restavam as câmeras de gás. Mas a você que tinha tudo, podia ter fugido, mas me deu a mão e abriu mão de tanto para estar comigo ali…
Até aquele dia, até você chegar – e só fui saber disso agora – achava que a vida me teria como o grande desperdiçado, mais um filho que não deu certo, que quase vingou, mas tombou em vão. Como a eterna criança que por ter brincado demais levou a sério seu tabuleiro imaginário e a brincadeira perdeu a graça. Mas que bom saber que a única coisa em vão é mesmo a saudade com que lembramos da gente no passado, sempre achando que éramos melhores. Não somos.
Até aquele dia, hoje sei, me faltava saber olhar para as coisas simples e para as responsabilidades que podem, sim, trazer coisas grandes. Por não querer crescer, nunca pude aprender o que a vida adulta e madura poderia me dar. E recusei ser livre. Troquei minha liberdade pela má-fé nas filas. Eu cheio da companhia de outros vazios ao meu lado. É muito bom ser criança e brincar, mas é muito melhor ser grande e poder olhar mais longe e ir mais longe, além daquele pequeno parquinho de areia onde nos distraímos com nossa suposta ingenuidade.
Até aquele dia, achava que entrar nos campos de concentração não era uma questão de escolha. E não é mesmo. Mas a gente pode entrar de mãos dadas. A vida num campo de concentração já é por demais dura e difícil mesmo com nossa imaginação. Mas seria impossível sem um amor para nos salvar.
Você me salvou e nunca soube disso, porque nem eu sabia ao certo o que era aquela sensação que eu sentia ao estar de pé ao seu lado. Eu, pleno, eufórico, tímido com meu próprio bem-estar, envergonhado como se a felicidade fosse uma doença perigosa. Eu, um vira-latas que encontrou seu banquete, sua desforra, seu tempo de uivar de novo para a Lua que já habitava em mim. Eu, desconcertantemente cheio de luz, iluminado pelo seu sorriso. E triste por saber que todos nós podemos vibrar assim, mas poucos alcançam isso. E contente de saber que um alcançou. E sem palavras quando pude perceber que este homem era eu. Pelo menos uma vez na vida. Pelo menos por um instante fui eu. E naquela hora, sorri como em nenhum outro dia. E chorei como em nenhuma outra vez.
Que bom não termos nos perdido no meio da multidão. Quando me lembro dos sonhos do fim do mundo, agradeço por eles terem sido apenas o prenúncio ao contrário das coisas maravilhosas que iríamos viver. E se acabasse agora, saiba. Foram apenas alguns meses. Mas foram meus melhores meses. E porque a vida é por demais um campo de concentração onde empilhamos desastres e dessabores, onde nos empenhos em achar sentido para nossa existência, pude achar em você meu motivo para resistir. Enfim, já podia aceitar que cresci.
E agora, mais uma vez, me recordo daquela frase que foi o passaporte para ver o infortúnio que pode ser tudo isso ao nosso redor: “A vida é como um pêndulo, oscilando da direta para a esquerda, da falta ao tédio, sem nunca cessar”. Quem disse isso foi Schopenhauer. Ele não estava errado. Mas hoje, só hoje, como num milagre, contrariando toda a lógica, prefiro relembrar aquele filme que um dia vimos juntos e que termina assim: “essa parte da minha vida, essa pequena parte se chama felicidade.” Então, vamos aproveitar, minha querida, antes que o pêndulo volte a oscilar.
Ps. Me tornei homem aos 31 anos. Como demorou. E depois que esse dia chegou, pude ver o mais importante: saber olhar para trás e para tudo antes de hoje com a maior das gratidões. Porque tudo me levou àquele dia, àquela fila e se eu não tivesse entrado nela, não teria te encontrado. Que bom que você me tirou da fila. Que bom que você aceitou meu ingresso.
Pelas noites azuis de verão, irei em atalhos sob a lua, Picotado pelos trigos, pisar a grama pequena: Sonhador, sentirei nos pés o frescor que acena. Deixarei o vento banhar minha cabeça nua.
Não falarei, não pensarei em nada sequer: Mas me subirá na alma o amor soberano, E irei longe, bem longe, feito um cigano, Pela Natureza — feliz como se estivesse com uma mulher.
Quem sente náuseas ao ouvir a musiquinha do Fantástico às vésperas de uma segunda-feira?
Achei que dava para suportar sem minha caderneta de frases inoportunas, sem os tapas e pontapés, que me deixavam feio, mas me defendiam. Pensei que se não abrisse a janela do departamento, estaria livre das ruas que não visitei, das mulheres que não provei. Daí, aceitei a ideia de que a velha ideia de ir de Lhasa a Kathmandu pedalando poderia esperar. Esperar talvez até que o câncer viesse primeiro, ou o primeiro infarto. Porque para toda inação ou falso desconsolo é preciso uma alavanca e um martelo para nos tirar do lugar.
E foi quando assinaram minha carteira. Tirei uma foto sorrindo, ganhei um canto na cela. Segui o horário, atento para atrasos menores que 15 minutos e no lanche comi pão com manteiga. Achei gostoso. De mentira. Falei mal de alguns perto do bebedouro. De verdade. Respondi a todo bom-dia com um sorriso carregado. Dei abraços demorados nos que faziam aniversário. Achei que, compartilhando as pequenas coisas que enchem um dia de migalhas, estaria com eles e o tempo passaria mais rápido. E passou mesmo.
Depois das dezoito, o aperto no peito cedia. Mas era leveza de vazio, de quem havia jogado sua arca de ouro no mar e ficado mais pobre que antes. No domingo, o aperto apertava de novo. O dia de folga para chorar a falta do que fazer estava acabando. E me lembrava dos poucos feriados do ano, a oferta de esmola para as almas miseráveis. E pensava nas férias, aquela ponte aérea que achamos que nos levará à felicidade. A passagem dividida em 12x no cartão.
E começava de novo, porque todo dia é uma segunda-feira para quem bate pedras ou bate o cartão. Alguns por ali ainda resistindo em círculos, como um bicho na gaiola. Outros com o mesmo olhar de “tanto faz” que já pesava meus cílios. Eu sem ser bom o bastante, ali também; mais um a colaborar com a atuação dos amolecidos, a sentir o cabresto como os equinos. Minha má-fé voluntária virou dor nas juntas e passou a arder na hora de ir para casa. Era a artrite provocada pelo auto-vodu.
Nada ajudava. Nem o self-service da esquina com sua sobremesa grátis, nem os chocolates dos dias de comemoração. Aí, nessas horas, pulava do barco e tentava mergulhar fundo, voltar para aquele lugar que um dia teve nome e não precisava esperar a folha de pagamento do dia 10 para sorrir porque paguei as contas sem juros. Mas não tinha o mesmo fôlego. E a verdade é que a poltrona já tinha as minhas curvas e o teclado a poeira dos meus dedos. No reflexo das águas, ou do monitor, a silhueta de um homem sem rosto, náufrago afogado de olhos acorrentados. Minha vontade resumida a levar o dedo ao controle do ar condicionado e gelar o ambiente seco como nossos olhos.
Então entendi que coragem e aventura são coisas para quem só morre uma vez. Nós, o povo bunda, morremos demais; a cada dia um tanto assim. Mas sem dor, tediosamente devagar. Não bastasse o peso do crachá, passei a arrastar uma vitrola de lamentações, que anunciava um cadáver cada dia menos adiado. Eu como o alterego dos armários de aço.
Daí, quando as pessoas se concentravam na sua atuação, na sua enganação, e tudo era silêncio, me lembrava que conheci homens autênticos, os que nunca morrem. Para eles, quando o fim chega, já não podem experimentar a morte. Porque quando ela está, eles já partiram. Para eles, morrer é sempre a morte dos outros. Para os amarelões, a morte vem em forma de um tapa nas costas, ou de um pequeno elogio no fim do expediente; é o pouco de grama necessária para os ruminantes mascarem seu autoengano e babarem seu desespero sem reclamar do engarrafamento até a praia.
Um dia a jaboticabeira lá do fundo do quintal vingou e me peguei sorrindo até a metade, em meio ao trabalho, no meio do dia, com o café morno nas mãos. Aquela bolota preta me lembrou que eu tinha passado a pintar os cabelos. Aquela bolota preta me lembrou que agora eu usava 44 e já não tinha mais 20.
Às vezes falava alto na sala. Eles achavam que era carência, exibicionismo, falta de prudência. Mas era eu gritando para meu outro, aquele que me esperava no portão de saída e não entrava comigo. Era meu teatro de pânico, meu deboche que sempre me deu a muleta para tirar a cara da lama. Eu, que sempre fui egoísta, esqueci que isso era o que me salvava da mesmice, era minha cerca contra as ovelhas que às vezes são mais perigosas que os lobos.
Nas comemorações de resultados, via cada um sugando do delírio do outro um motivo para acordar de novo. Estavam embriagados como nunca fui. Hipnotizados como nunca fiquei. Pareciam imersos numa ignorância libertadora. Mas a verdade é que todos tinham no olhar a cumplicidade de saber de sua mentira. Isso nos unia. Vivíamos como todo mundo vive, porque a mediocridade não torna mesmo ninguém melhor que ninguém.
E assim era o dia de todos por ali. Faltava aquele remédio para suportar o tédio: apatia ou uma escopeta. Assim, amanhã, às oito, nosso tempo estará contado; nosso corpo se revirando no mesmo lugar e o olhar perdido, o meu apontando para o Himalaia. E, que ironia, às vezes me sobra dinheiro no fim do mês. Comprarei um sapatênis. Irei com ele no próximo happy hour.
O cara é uma lenda. A voz inconfundível faz dele uma marca indelével no r'n'r. Fora isso, se fosse pouco, ainda é uma figura. Neste link, seu mais recente trabalho.
Quero um beijo sem fim, Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo! Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo, Beija-me assim! O ouvido fecha ao rumor Do mundo, e beija-me, querida! Vive só para mim, só para a minha vida, Só para o meu amor! Fora, repouse em paz Dormindo em calmo sono a calma natureza, Ou se debata, das tormentas presa, Beija inda mais! E, enquanto o brando calor Sinto em meu peito de teu seio, Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio, Com o mesmo ardente amor!… Diz tua boca: "Vem!" Inda mais! diz a minha, a soluçar… Exclama Todo o meu corpo que o teu corpo chama: "Morde também!" Ai! morde! que doce é a dor Que me entra as carnes, e as tortura! Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura, Morto por teu amor!
Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto, tão perto, tão real que o meu corpo se transfigura e toca o seu próprio elemento num corpo que já não é seu num rio que desapareceu onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco.
Use a noite pra mergulhar Num mar de estrelas e sonhos Vá ao fundo da imaginação Use a noite pra se soltar Deixar fluir o que você quiser E chegar onde for chegar O que vier ao coração
Preciso não dormir Até se consumar O tempo Da gente Preciso conduzir Um tempo de te amar Te amando devagar E urgentemente Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez Que recolhe todo o sentimento E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer Até o amor cair Doente Doente Prefiro então partir A tempo de poder A gente se desvencilhar da gente Depois de te perder Te encontro, com certeza Talvez num tempo da delicadeza Onde não diremos nada Nada aconteceu Apenas seguirei, como encantado Ao lado teu
Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito. O vento da vida pôs-te ali. A princípio não te vi: não soube que ias comigo, até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, se uniram aos fios do meu sangue, falaram pela minha boca, floresceram comigo.
Tem gente que quer uma casa no campo. Outros uma à beira da praia. Tem uns que querem uma "machinna" italiana. Outros uma alemã. Tem gente que quer ir a Dubbai. Outros a Miami. Tem gente que quer um anel de brilhantes. Outros, um de noivado.
Meu sonho de consumo é estar num show com estes caras. E se possível, na acompanhia de uns Deganis, como Ugo e Júnior.
As muito feias que me perdoem Mas beleza é fundamental. É preciso Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa). Não há meio-termo possível. É preciso Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora. É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços Alguma coisa além da carne: que se os toque Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência. É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas No enlaçar de uma cintura semovente. Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras É como um rio sem pontes. Indispensável Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida A mulher se alteie em cálice, e que seus seios Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas. Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem No entanto, sensível à carícia em sentido contrário. É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!) Preferíveis sem dúvida os pescoços longos De forma que a cabeça dê por vezes a impressão De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos Ao abri-los ela não mais estará presente Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber O fel da dúvida. Oh, sobretudo Que ele não perca nunca, não importa em que mundo Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre O impossível perfume; e destile sempre O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Deus me deu um amor no tempo de madureza, quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro, e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos e outros acrescento aos que amor já criou. Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia e cansado de mim julgava que era o mundo um vácuo atormentado, um sistema de erros. Amanhecem de novo as antigas manhãs que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra imensa e contraída como letra no muro e só hoje presente. Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim, o sumo se espremeu para fazer vinho ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo. E o tempo que levou uma rosa indecisa a tirar sua cor dessas chamas extintas era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis. Hoje tenho um amor e me faço espaçoso para arrecadar as alfaias de muitos amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes, e ao vê-los amorosos e transidos em torno, o sagrado terror converto em jubilação.
Seu grão de angústia amor já me oferece na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura e o mistério que além faz os seres preciosos à visão extasiada.
Mas, porque me tocou um amor crepuscular, há que amar diferente. De uma grave paciência ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia tenha dilacerado a melhor doação. Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
O assunto desse texto do Cabral já foi utilizado aqui nesse blog. E em todos os lugares onde alguém possa escrever. Sobre o tema, músicas melosas foram feitas. Outras nem tanto ficaram guardadas com a gente. A Ciência já se debruçou também sobre essa conversa de amigos. Concluiu que os amigos influenciam sim, como diziam nossos pais. Até pra engordar.
Tenho um amigo que batia na janela do meu quarto às três da manhã pra me chamar pra tomar cerveja. E eu ia. Há mistérios, mágica, mil coisas doidas que nos ligam a essas pessoas. Sabe-se lá o que são.
Para que serve um amigo, você me perguntará. Não dá para responder com tese. Talvez com história.
Dos amigos, interessante, me lembro mais dos que já não o são do que daqueles que perduraram e ainda estão por aqui. Os que ficaram não mais notaram minha barriga, os brancos da cuca, o gosto excessivo pelo passado ou os sucessos medianos que coleciono. É que enxergar o tempo em nós apenas é possível por esses detalhes que só os já distantes têm os olhos para ver. A proximidade só permite tocar o essencial. Mas nem sempre é o essencial que conta sobre o que vale a pena.
Eu tenho três amigos. Só três sobraram. Que bom que a história, as circunstâncias e minha chatice fizeram o favor de filtrar os grãos finos daqueles que sobreviveram ao tempo. São estes que levamos na capanga como os falsos cristais que colecionávamos como diamantes quando éramos crianças. A fantasia não é uma mentira, é a poção mágica que damos ao mundo para que as pedras nos cantem e os muros nos deixem passar.
O primeiro amigo jamais permitiria que eu o chamasse assim. Se ele ler isso, se indignará e na primeira oportunidade me fará outro de seus favores: me mostrará que estou errado, mais uma vez. Uma vida interessante talvez possa ser contada pelas aventuras a que nos dedicamos, aquelas pequenas bobagens que conseguimos contrapor à seriedade do mundo. A maior parte das minhas foram feitas ao lado dele. Andamos de bicicleta pela América do Sul, escrevemos nossas primeiras linhas no Calabouço, fomos a uma final do Atlético no Mineirão. Ele sempre a me chamar de gordo, mesmo quando minha adiposidade era só de 4% e eu tentava uma vaga para o IronMan do Havaí. Ele sempre a me alertar sobre o desperdício, insistindo que a média não era o melhor local para gente como eu. E enquanto eu tentava sair do lugar, ele já se banhava na cachoeira mais próxima. Gostava de dizer que melhor que sair à rua como quem foge de casa, era fugir de casa como quem vai à rua. Nunca gostou de revoluções e de barulho. Talvez por isso seu silêncio e sua discrição contem melhor como ele transformou suas pequenas bobagens em diamantes. Gostava de me lembrar que a morte é o melhor alívio para os desperdiçados. Mas que, geralmente, nem a morte eles conquistam, porque falta vida para morrer. É um dos que vivem seu tormento com a sabedoria dos que aprenderam que é preciso parar de brigar com a própria loucura, muito menos colocá-la no ringue com a dos outros. Nas palavras dele: “quando morrermos, morrerá também uma forma de ver o mundo”. Vivo e com os olhos abertos como poucos.
O segundo amigo é uma mulher. Nas vésperas de seu primeiro casamento não fui convidado. É que ela ainda não sabia da amizade que teríamos. Mas nunca a perdoei de qualquer forma. Porque foi uma festa grande. Hoje, no segundo casamento, ela prepara outra festa.Vai ter um filho, que insisto em chamar de Malu, porque gostaria que fosse mulher. Ela sempre teve que conviver com meu egoísmo. E aquela esquina que nos conhecemos e plantamos o melhor de nós eu ainda levo aqui dentro por onde vou. Poucas pessoas me deixaram falar tanto. Para poucos falei tanto. O que é uma pena. Porque ler seus textos, ouvir sua música, suas histórias e a agonia e a grandeza da sua alma era muito mais interessantes que saber das minhas misérias. Quando eu for velho a pedalar solitário para Martinésia ou quando voltar do Himalaia, é bem provável que seja na companhia dela que estarei para ouvir que estou velho, gordo e chato como nunca. Sorrirei mais uma vez, como sempre.
Meu terceiro amigo não é uma pessoa. Mas uma mesa imaginária: a Santa Sexta, um grupo de fanfarrões geniais que se reúnem há mais de dez anos, todas as sextas, para celebrar o que o espírito humano tem de maior: a fome. Cada um a sua maneira contribuiu para que eu parasse de dividir minha existência entre o medíocre e o herói. Deles, aprendi que a vida pode nos tirar tudo, mas que aquilo que resta tenha pelo menos tempero. Somos esse grupo multidisciplinar de autodidatas onívoros, apenas tentando responder às grandes questões que nos iguala e talvez um dia nos leve além: será a vida possível quando não mais tivermos ereções ou após uma broxada? No fundo, o encontro é só (e não é pouco) um grande exercício cuja pretensão máxima é no mínimo dominar o mundo e colocar tudo num blog para que as próxima gerações possam saber do que uma mente desocupada e bem alimentada é capaz. Nossa metafísica acontece num restaurante qualquer (ainda queremos esquecer aquele longo inverno no shopping) com a desculpa de debater (e se possível comer) os grandes temas: bundas, tetas, internet, música, Deus, inimigos e videogame. Mas a melhor pauta mesmo é perceber como estamos todos piores com o tempo, independente do dinheiro e das mulheres de cada um. Menos o Roberval, claro.
Que não seque nossa memória, para que as histórias não fiquem ralas. Porque nosso testemunho por aqui é frágil em todas suas linhas e na sua extensão. Mas épico e humano também por isso. Para que serve, então, um amigo você pergunta? Para nada mais do que poder caminhar. Nascemos sozinhos, morreremos sozinhos, mas, como dizem, a vida é uma travessia. E o que é belo em nós é mesmo esse estar a caminho. No fim, você vai notar, o que importa não são as histórias, mas a força que elas dão para nos desprendermos, que nos permitem dar prova (ao mundo e nós mesmos) de nossa tentativa de desafiarmos a morte. E por isso meus amigos são essa ponte e esse corrimão, sem o qual não teria testemunha para meus afetos, para o desgosto das quedas nem para celebrar o gosto por esse mistério que é estar por estas bandas.
Dizem desde há muito tempo que estamos todos dentro dessa caverna, distraídos a nos enganar com as sombras de sua parede. Que o mundo lá fora é outro, muito mais legal. Não sei. Mas que bom é ter a companhia de outros enganados, ou desenganados, para tentarmos esse desprendimento e apenas bebermos juntos enquanto a revelação não vem. E acho mesmo que não virá. Também não importa. Porque juntos, o tempo que passa não é o tempo que corre, mas o tempo que permanece. Juntos até o fim dos tempos meus amigos.
Quando a luz estender as roupas nos telhados E for todo o horizonte um frêmito de palmas E junto ao leito fundo de nossas duas almas, Chamarem nossos corpos nus,entrelaçados,
Seremos, na manhã, duas máscaras calmas e felizes, De grandes olhos claros e rasgados… Depois,volvendo ao sol as nossas quatro palmas, Encheremos o céu de vôos encantados!… E as rosas da cidade inda serão mais rosas.
Serão todas felizes sem saber porque. Até os cegos,os entrevadinhos… E Vestidos contra o azul de tons vibrantes e violentos, Nós improvisaremos danças espantosas, Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!
Pensar no fim é uma coisa que a gente sempre evita. É da gente. Do humano. De repente, pensar nele pode fazer com que tudo que possa acontecer antes dele tenha mais valor. Pensar nele pode trazer de volta as lembranças do início. E o fim pode ser o início. Porque o início é o começo do fim e o fim, apenas o final do início. Onde tudo começa e onde tudo acaba é o mistério. Por isso é fascinante.
O texto abaixo do Renato Cabral que retirei dO Ruminante mostra bem essa coisa de fim. Ou de começo. Um texto imperdível.
Minha nota de suicídio
Nenhum testemunho final dará conta do que foi uma vida. Assim como nenhum relato do fim poderá explicar uma existência que acaba. Quando vocês estiverem lendo isso, eu já não estarei…
Das coisas da minha infância eu me lembro dos cantos. Era onde eu me sentia seguro e confabulava contra o mundo, mastigando minhas dimensões ocultas e ruminando as pontes para o outro lado. Toda a quântica deve muito às crianças. Talvez sejam isso os universos paralelos que os físicos tanto apontam o dedo: a brincadeira solitária de um moleque entretido com sua distração.
Sempre me perguntei se era possível contar nossa história por meio daquilo que deixamos nos outros, dos poucos amores ou amigos. Daqueles com quem atravessamos desertos salgados, comemos juntos na mesma mesa durante anos, ou simplesmente compartilhamos nossa angústia numa esquina. E me esbarrando nesse amontoado de gente, conhecendo suas cores, seus sonhos que ficaram pelas margens, o cheiro do seu hálito em mim e o desespero dos seus sorrisos é que descobri: só podemos contar quem somos por aquilo que nos tornamos graças à presença dos outros.
E me lembro dos meus irmãos. Meu irmão sempre me viu como um herói. Nunca disse a ele, mas ele deve saber: como voei alto com sua capa. Os melhores amigos são aqueles que podem passar uma eternidade em silêncio. E assim fomos nós. Minha irmã é a paixão que não terei por uma mulher. Por ser mais nova, me ensinou o pouco que sei sobre cuidar, sobre o medo de perder. Ela também não sabe: mas me deu o melhor presente de todos. Não devo ter filhos. Ainda bem que ela teve.
Para não morrer como um estufado de nada, um inchado de vazio, traço esta promessa de lembrar. Talvez esteja aí nossa única chance. Porque a existência não é esta prosa construída no presente, mas a poesia com que refazemos o nosso passado. Se a vida vale ou não ser vivida eu não sei. Diante da lata de lixo e do estômago vazio, qualquer enlevo que vá além do beco é perda de tempo. Mas a gente sempre dá um jeito de dobrar a fome. Tudo pra poder se perguntar entre uma esquina e outra sobre quem somos e por que estamos aqui.
Quem eu sou começou com meu pai. Só depois de sua morte fui entender o que era realmente ser um homem. E nunca é tarde para fazer as pazes com a covardia e mandá-la de volta. Poucas vezes me senti uma pessoa grande. As únicas vezes quando isso aconteceu era ao lado dele que eu estava. Aprendi com ele a maior das lições: nunca esqueça que construir um lar é menos ter uma morada e mais ter a chance de poder fugir pra casa depois que você for visitar o mundo. Como ele era rico. Morreu sem nada para poder nos dar tudo.
Mas não é possível se tornar homem de verdade até que você conheça seu primeiro amor. O meu veio tarde, porque até minha ingenuidade demorou a chegar. Seu primeiro presente pra mim foi um cérebro de uma apis melífera. Depois fui saber que isso era uma abelha. Quando os anos que você viveu com alguém são maiores que a quantidade de brigas, você deve pegar tudo e guardar no mesmo vidrinho com os miolos da abelha, porque realmente vale para o resto dos dias. Foi minha primeira história. Foi a mais longa. Seria fácil dizer que ela sempre será a mulher da minha vida. Mas ela não é. Mas só por ela eu me tornei o homem da minha vida. Quando sua mãe morreu, eu chorei duas vezes. Uma porque perdi a amiga de tantos anos. Outra porque sua mãe era meu último laço com ela.
Aí veio aquela baixinha de cabelos lisos, tão pretos. Tão perfeita, tão irretocável que essa dádiva se tornou minha cruz. Nunca consegui entrar naquele palácio e aproveitar o banquete. Como um vira-lata, os lustres me assustavam e eu dava um jeito de procurar a companhia da Lua e do frio. De tanto amor misturado com descuido, adoeci. E o castelo feito de cristal se quebrou sobre mim. Após o fim, pensei pela primeira vez em me matar. Ainda bem que os apaixonados são tolos. Mas, acredite, meu blefe foi um dos mais sinceros “eu te amo” que já disse. Poucas vezes fui tão inteiro num instante só. E foi naquela noite em que a chamei para namorar. Talvez eu morra sem sentir isso de novo. Ela nunca soube disso. Já estava na hora.
Então, descobri que no escuro também é possível ser feliz. Lá, conheci um novo jardim. Ela era tão linda que nunca consegui soletrar seu nome; preferia chamá-la de Flor. Com ela tive a chance, enfim, de enlouquecer. Nunca fui tão livre. Nunca foi tão sofrido. Nunca fui tão desgraçado na sorte de ser eu. Ela foi mais que meu amor, que minha amante, que meu anjo da guarda. Foi minha parteira. E todas as noites uma de minhas preces vai pra ela. Tudo porque um dia ela pegou na minha mão e me fez aceitar o que talvez seja o desafio de uma vida: olhar para nós sem máscaras. Um homem deve dizer “que pena” apenas uma vez. E eu digo: Flor, que pena não ter dado certo. Mas se há um conforto, é que ela dizia que temos ainda várias vidas pela frente. Como eu gosto de acreditar nisso…
E veio o tempo de ficar sozinho. Mas como é solitário estar só. E numa noite das mais qualquer, eu conheci a mulher que qualquer um gostaria de conhecer. Pela primeira vez não fui arrebatado de cara. Mas porque a vida já tinha me tirado a inocência, eu já tinha olhos para vê-la. E pela primeira vez minhas odes, poemas e serenatas me continham. Eram pra ela e não mais pra mim. Pela primeira vez consegui começar a desaprender sobre aquilo que achava que era. Estava começando de novo de um jeito inédito. Nosso amor, como um soldado, teve que avançar de trincheira a trincheira; atravessar tudo o que a existência faz o favor de pôr no caminho pra nos dizer sobre aquilo que vale a pena. Fomos vencendo as bombas, os arames farpados e, um dia, sem acreditar, sem achar que era possível, nos amamos com tanta simplicidade e força que os poetas e os romances teriam vergonha. Pela primeira vez eu sentia algo maior que ciúmes. Sentia inveja toda vez que ela contava dos outros de sua vida. Era tão fácil ser feliz com ela que já não fazia sentido esperar por outras vidas. Pra quê a eternidade quando já se está nela? Nunca tive a desculpa de dizer que ela era a paixão certa na hora errada. Por isso, já não tento entender o porquê desse barulho absurdo que fazemos quando estamos juntos e que só nós podemos ouvir de tão bonito que é. Morro com esta.
Hoje é o dia de minha morte. E pensar nisso é de uma tristeza tão sem nome, porque viver é uma diversão que a dor só faz aumentar. O que me faz lembrar das duas mulheres que não precisariam estar nestas lembranças: minha mãe, Ana; e a filha de minha irmã, Ana. A gente escolhe apenas uma mulher na vida para morrer junto. Mas escolher duas mulheres pelas quais você morreria é um milagre.
E se não existe os imortais, existe a imortalidade. E a imortalidade é essa graça do outro que conversa dentro de nós, que sorri com a nossa boca e se conserva por nossos dentes. E o eterno é poder ainda, e apesar de tudo, se alegrar por meio desses exageros. Toda existência é o momento definitivo de si mesmo, que apenas se alonga, se irradia ou se adia. É um sopro, que será esquecido um dia, uma centelha que nunca produzirá a faísca igual de uma nova chance. E por isso há tanta beleza em cada acerto ou deslize. Porque em tudo isso há a morte como a melhor testemunha de quem somos, desse único tiro que temos. Se saber morrer é a única forma de aprender a viver, só vamos nos salvar no apocalipse de todos os dias. Por isso, hoje morro. Porque já é hora de começar a viver de verdade.
Que vocês saibam: encontrei a mão de cada um aqui dentro. E por isso não vou sozinho. Esta é minha carta de despedida. A hora de partir chega a cada instante. E, quando eu morrer, fiquem com esta breve nota, porque mesmo para uma morte involuntária, toda chance de despedida vale a pena. Quem sabe não nos vemos por aí de novo. Quem sabe…
Um filme daqueles especiais, com um ator especial como o Al Pacino e um diretor especial, que está acabando de ir embora. Sidney Lumet nunca ganhou um Oscar, mas isso não importa.
Seja paciente com tudo que não há solucionado em seu coração E procure amar as próprias perguntas. Não procure as respostas que não lhe podem ser dadas Porque não poderia vivê-las E o que importa é viver tudo Viva as perguntas agora Talvez gradativamente e sem perceber Chegue a viver algum dia distante as respostas.
Consulto a luz dos meus astros, cada qual de cada vez. Primeiro olho o do meu peito: um sol turvo é o meu defeito. A minha amada adormece desgostosa do que sou: a estrela da minha fronte de descuidos se apagou.
Ela sonha mal do rumo que minha galáxia tomou. Não sabe que uma esmeralda se esconde na dor que dou.
A cara consigo ver, sem tremor e sem temor, da treva engolindo a flor. Percorre a mata um espanto.
A constelação que outrora ardente cruzava o campo da vida, hoje mal demora no fulgor de um pirilampo.
Mas vale ver que perdura serena em seu resplendor, mesmo de luz esgarçada, a nebulosa do amor.
Rosto nu na luz directa. Rosto suspenso, despido e permeável, Osmose lenta. Boca entreaberta como se bebesse, Cabeça atenta. Rosto desfeito, Rosto sem recusa onde nada se defende, Rosto que se dá na duvida do pedido, Rosto que as vozes atravessam. Rosto derivando lentamente, Pressentindo que os laranjais segredam, Rosto abandonado e transparente Que as negras noites de amor em si recebem.
Recebi este texto por e-mail e não sei quem é o autor. Mas concordo com seu teor. Muita coisa tem ido para um rumo esquisito. Quando eu era criança e até minha adolescência, comia doce de leite que vinha embrulhado em palha. Ele tinha a parte de fora seca e crocante com o interior macio, úmido e deliciosamente doce. Hoje eles não existem mais. Quer dizer. Por fora, existem. Mas inventaram de colocar um saquinho plástico entre o doce e a palha que a faz perder o sentido. assim, o doce não tem mais a parte externa seca e crocante. Perdeu o sentido para o sem sentido policiamento do politicamente correto da saúde absoluta.
Esse texto aí fala disso. Dessa estupidez que esses politicamente corretos tem trazido para esses nossos tempos. Nos anos 50, nos EUA era o macartismo que policiava quem não era "correto". Agora é essa mentalidade ridícula que diz que um queijo é um assassino.
(Aconteceu em Uberaba)
Na Terça, 22 de Fevereiro de 2011, em Uberaba houve uma “operação de guerra” na qual policiais militares devidamente armados, PROCON estadual e vigilância sanitária derrotaram um bando de queijos. Os facínoras estavam expostos em bancas do comércio, principalmente no Mercado Municipal, ameaçando os clientes pois estavam despidos de uma embalagem à vácuo e pior, sequer portavam sua tabela de informações nutricionais.
A comunidade pode ficar tranquila, os heróis que defendem nossas vidas dos ataques desses queijos de péssima índole venceram, quase uma tonelada foi apreendida e destruída pois era “imprópria para o consumo”.
Que bom que em meio a tantos estupros, arrombamentos, roubos de cargas, tráfico de drogas, sequestros e latrocínios ainda exista gente para nos proteger dos laticínios.
Ora autoridades, tenham um mínimo de bom senso, a fabricação e consumo de queijos é um costume milenar no mundo e multi secular em Minas. O nome diz, queijo mineiro, feito de leite de vaca, usando coalho que por si só já é um agente biológico que o azeda. Essa tradição, mais que centenária, nunca matou ninguém, meu trisavô já vendia queijos “marginais” em Dores do Indaiá e nunca foi tratado como bandido, ou será que devemos nos arrepender por todas as fatias que já engolimos, às vezes com goiabada caseira (também despida).
O queijo mineiro, principalmente da Serra da Canastra é apreciado como uma iguaria, porém se for levado à geladeira altera seu sabor original, como querem esses “soldados” que doam suas vidas, se preciso for, para nos livrar desse “venenoso alimento”. Parece que o PROCON não sabe, mas costumamos, “até mediante torturas físicas”, deixar os queijos expostos ao ambiente para que eles fiquem curados. O IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária), casa de burocratas, impõe que ele seja embalado à vácuo e que traga na embalagem informações nutricionais. A continuar nesse pique o pão francês será o próximo, imagine um pãozinho embalado individualmente, com uma tabelinha de nutrientes e data de validade para sabermos se ele está quente do forno ou não. Tratam-nos como se fossemos ignorantes e sequer soubéssemos escolher uma fruta, um doce ou um pé de alface, deixem disso, temos mais o que fazer.
Estão extinguindo as chances de sobrevivência do pequeno produtor rural, aquele mesmo que por falta de opção vai ser um João Ninguém na cidade onde seus filhos poderão exercer atividades menos regulamentadas como o tráfico.
O excesso de normas inviabiliza os pequenos negócios em detrimento de grandes laticínios e hipermercados, portanto gera desemprego e tensão social. Fica, para as autoridades, um questionamento do povo:
Se prendem os queijos, porque não prendem os ratos?
Oh, Cruz do Sul, oh trevo de fósforo fragrante, Com quatro beijos, hoje penetrou tua formosura E atravessou a sombra e meu chapéu: A lua ia redonda pelo frio.
Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes De escarcha azul, serenidade do céu, Espelho, apareceste e completou-se a noite Com tuas quatro adegas tremulas de vinho.
Oh palpitante prata de peixe polido e puro, Cruz verde, perrexil da sombra radiante, Vaga-lume á unidade do céu condenado,
Descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus. Por um minuto dorme com a noite do homem. Acende em mim teus quatro números constelados.