NO MUNDO DOS BLOGS.
Todo mundo está se ligando, se conectando, se blogando. Os sinais de fumaça, os tambores, os pombos-correio, as cartas de papel, os telefonemas. Os blogs.
Para começar, para ver como é que fica, vamos falar de tudo...
Quando conheci a poesia de Quintana eu já não era tão jovem em poesia. Muitos anos já tinham passado desde que arrisquei as primeiras composições em versos, em rimas, em textos soltos. Talvez por isso mesmo eu sempre o vi como um poeta maduro, que fazia poesia madura. Diferente da poesia apaixonada, ardente e arrebatadora de Neruda, a de Quintana fala de um coração profundo, não menos apaixonado, mas com um certo ar observador, no seu canto, até mineiro demais para um poeta gaúcho. Esse poema que apresento aí embaixo é de uma beleza assim, como disse aí em cima. Talvez algumas pessoas ainda jovens em poesia ou ainda jovens não sintam as palavras do poema com o mesmo sentido que as não tão jovens. Talvez umas pessoas mais jovens que outras possam por estes versos lindos entenderem um pouco o que um poema pode dizer. O que um coração profundo quer gritar.
“Eu sou um homem fechado. O mundo me tornou egoísta e mau. E a minha poesia é um vício triste, desesperado e solitário Que eu faço tudo por abafar. Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada, Com o teu passo leve, Com esses teus cabelos… E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita… A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil Aonde viessem pousar os passarinhos.”
Tenho até hoje aqueles santinhos que se entregavam ao final da cerimônia de primeira comunhão. Da minha primeira comunhão. Minha mãe me dizia que nas missas de domingo, quando elas pareciam que nunca mais iam acabar, eu com uns cinco ou seis anos de idade perguntava se quem estava lá na frente era o bispo. Não sei a razão que me fazia imaginar que o bispo estenderia a cerimônia. Fui criado na Igreja Católica, mas já na adolescência comecei a não gostar de certas coisas. No entanto, quando entrei na universidade tive acesso a uma vasta biblioteca que encantou meu espírito louco por leituras. Lá pude ler vários trechos da Bíblia que me fizeram o tal espírito um pouco melhor. Foi naquela época que li O Cântico dos Cânticos e percebi como um poema erótico se encaixa em qualquer lugar — mesmo na Bíblia — se for bem escrito e tiver uma inspiração que valha a pena. Mas, por esses dias recebi esse trecho aí de uma maneira que fez novamente o tal espírito se tornar mais uma vez, melhor. Senti um dos versos sendo dito pra mim, como um presente recebido de alguém especial. Você que me lê, se identificará num entre todos. Tenho certeza disso.
"E Jesus vendo a multidão subiu num monte, e sentando-se, aproximaram-se dele os discípulos. E abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de Justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão a Misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a face e Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, perseguirem e mentirem, dizendo todo mal contra vós por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque é grande vosso galardão nos céus, porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós."
Outro dia numa aula onde o assunto era Qualidade falei sobre Expectativa e Percepção. Dependendo da expectativa, a percepção pode nos satisfazer ou não. Mas cada um tem uma expectativa e também uma percepção das coisas, dos assuntos, das pessoas. Cada um de nós vê as coisas pelo seu particular ponto de vista. Por mais que tentemos explicar, nunca entenderão. Só quem vê ou só quem sente, sabe. Eu sei que as pessoas que convivem comigo têm cada uma delas a sua visão de quem sou eu. Aquelas que não convivem no dia a dia também têm. Estas têm que contar com outros artifícios para tentarem um entendimento. Mas outro dia alguém olhou pra mim e viu algo diferente. A imagem a seguir apenas exemplifica como cada um vê as pessoas. Cada um as vê de um jeito diferente.
Pode acontecer o que possa acontecer. Podem chover pedras e facas afiadas. Pode ventar ventos precipitados e desalentadores. Pode um momento não ser o momento que tanto se esperava. Mas haja o que houver, o coração sempre estará esperando.
Isabel Allende é uma escritora chilena, sobrinha de Salvador, presidente socialista do Chile quando em 1973 foi deposto e assassinado num golpe militar. Muitos e muitos chilenos tiveram destino assim. Mas isso é outra história. Hoje, aqui, destaco um trecho dos textos de Isabel, escritora que começou na lida em tempos maduros, mas nem por isso, sem deixar de manter o frescor dos tempos não tão maduros. Trecho, aliás, muito revelador. Quem sabe, sabe.
“…o único afrodisíaco verdadeiramente infalível é o amor. Nada consegue deter a paixão acesa de duas pessoas apaixonadas. Neste caso não importam os achaques da existência, o furor dos anos, o envelhecimento físico ou a mesquinhez das oportunidades; os amantes dão um jeito de se amarem porque, por definição, esse é o seu destino.”
Isabel Allende em Afrodite: Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos
Numa determinada época da cultura brasileira, muito se criticou Olavo Bilac e todo seu parnasianismo. Mas o lirismo de sua poesia continua a emocionar corações grandes e lindos.
Há um ano eu postei um vídeo maravilhoso aqui. De uma música maravilhosa do Pearl Jam que me faz lembrar de coisas e pessoas que me são caras. O vídeo foi feito pelo Lobístico, um cara lá da Terrinha que tem a poesia guardada em si. No blog dele, acabei de “roubar” mais este vídeo. Maravilhoso. Com uma música também maravilhosa. Foi o Lobístico quem fotografou, filmou e editou, mas para saber que música é esta só clicando neste aqui.
Não sei de onde surgiu a idéia de fazer deste dia o dia do rock’n’roll. É só mais uma desculpa pra gente ouvir aqueles sons que amamos. E isso é muito bom! Vim aqui escrever este post na idéia de colocar junto um link com algo que representasse bem o dia. Mas me deparei com um dever impossível. Aí então, fui me lembrar de alguns momentos da minha adolescência, que é quando quase todos nós acabamos conhecendo o tal. E assim como um espírito vindo dos anos 60 e 70, um assovio me soprou nos ouvidos e resolvi colocar esse aí. Tenho certeza que aqueles que adoram o rock’n’roll, vão adorar minha escolha. Quem nunca experimentou não sabe o que sempre perdeu. It’s only rock’n’roll but I like.
A separação corrói o interior. Destrói os pontos que conduzem a energia que liga o cérebro ao coração. Ou vice-e-versa. Tem horas que a separação induz ao sono. Ele parece ser a melhor opção, a condição, a única possibilidade. Se fosse possível. E nessas horas, nem o sono vem servir de bálsamo.
O que é dormir? O que seria o desligar-se da realidade e entrar no mundo onírico das noites calmas e suaves? Dormir pode vir a ser o que, realmente? É uma tomada de decisão? É agir de forma abrupta, utilizar-se de ferramentas mecânicas para alterar o próprio destino? É pecado mudar o próprio destino?
Aurora
Passava das três horas da manhã quando ela desistiu de tentar dormir. Jogou seu braço direito para o lado da cama e só encontrou um outro travesseiro sem dono. Macio, mas sem dono. Percebeu que ele estava frio, diferente do seu — quente por receber suas lembranças, sua cabeça quente, seus cabelos soltos, dispersos, sem caminho. Puxou-o para si, como se seu amante fosse. Inspirou o ar guardado nos flocos de espuma e a memória olfativa começou a trabalhar. Era como se pudesse penetrar por aquele travesseiro, olhar para cada um daqueles flocos como se fossem blocos macios de lembranças. Quase podia vê-los, identificá-los pelo aroma, reviver cada gota de suor por eles absorvida. Sua composição, seus hidrocarbonetos, podia reconhecê-los, lembrar de suas faces, se existissem. Suas formas, aproximando-se de aspectos cúbicos, de aparências de paralelepípedos macios. Hexaedros assim, não muito regulares. Aqueles flocos eram seus companheiros de noites, de manhãs, de tardes de amor, acompanhando suspiros, respirações um pouco mais ofegantes, ocasiões com falta de oxigênio. Mas mesmo assim, eles não podiam lhe dar respostas. Apesar de toda a empatia, nada mais que exalar aromas eles podiam fazer. Exalar aromas.
Eram quase quatro horas de um sábado, razoavelmente diferente de outras madrugadas de sábado do passado. Silêncio de almas dormindo, de luz da Lua a penetrar pelas frestas das venezianas de madeira, velhas e alquebradas pelo abrir e fechar às notícias do tempo, das nuvens, do Sol, dos vapores de mercúrio. Das serenatas inusitadas. O calor que já se pronunciava em Outubro lhe colavam de suor as coxas — dos joelhos ao púbis —, voltadas para o lugar vazio da cama. Seu braço estendido, agora sob o travesseiro, seu nariz a buscar emoções aromáticas, seus seios a roçar o lençol, seus pés espalmados, um com a planta por sobre o outro como Cristo na cruz e os olhos a mirar a luz lunar penetrando incólume no quarto... O desconforto de não dormir começou a lhe informar que assim permanecendo — em estado de insônia — lhe imporia penas rigorosas com seu rosto, com sua disposição quando o Sol surgisse na manhã de sábado. Isso já se denunciava em seu corpo, aquecido não pelo fino lençol de algodão a lhe cobrir a nudez, mas pela temperatura da estação, pelo simples fato de permanecer acordada — havia lido há algum tempo sobre o sono, sobre como o corpo humano reduz sua temperatura enquanto dorme —, por deixar seu sangue se agitar pelo movimento que ocorria em seu cérebro. Começou a pensar na razão que lhe fazia permanecer acordada enquanto muitos dormiam. A falta de sono apenas lhe tiraria a capacidade de melhor absorver as lições do dia que se avizinhava. Mas acordada estava. Mais uma vez, acordada estava e pensando — ou se deixando corroer por pensamentos. Fazia calor. Já não eram apenas suas coxas que se colavam molhadas pelo suor. Todas as partes de seu corpo que se tocavam entre si, aquecidas, se demonstravam desta forma. Pequenas gotas exaladas pelos poros, por entre pêlos, em curvas macias, se apresentavam ao ar. Molhavam.
Girou seu corpo, afastou o lençol, apoiou suas costas na cama, afastando ao máximo os braços e as pernas do resto do corpo. Seu corpo agora respirava, espalhado no colchão como o esboço gráfico do Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci. Áureas Proporções se mostrariam naquele pequeno corpo nu de pele branca e macia, não fosse o escuro da madrugada, cortado apenas por fachos de reflexos esparsos. No teto, percebeu a sombra refletida dos arbustos do lado de fora. Algo no jardim refletia a luz da Lua — ou das lâmpadas da rua — por entre as paletas de madeira da janela e criava sombras, figuras estranhas na laje, como um cineminha de crianças. Assim como ao se olhar muito para as nuvens acaba-se encontrando imagens com significados, aquele embaralhado de sombras e luzes começaram a significar algo. Um coelho raivoso se transforma em uma palmeira de caule mais espesso que o comum. Um pirata com bandana na cabeça se movimenta até virar uma girafa alada. Aquela outra figura seria o perfil de um rosto masculino? Algo que lembrasse alguém? Mas tudo lembrava. Dos flocos de espuma no travesseiro às sombras no teto. Essa era a razão de sua insônia e ela bem sabia disso. Essa ausência acompanhada da ansiedade eterna, da sensação que ele acabará nos próximos momentos. Mas o tempo passa e não se acaba. E as noites vêm e o sono não. Mesmo com doses quase industriais de pílulas para dormir o sono que às vezes chega é um sono cansado — talvez mesmo por causa delas —, com pesadelos e sobressaltos.
Desiste das sombras cheias de figuras no teto, acende o abajur, cerra as pálpebras, protegendo as retinas da luz que reflete na parede pintada de um quase vermelho-abóbora. Se fumasse, fumaria. Em vez disso, procura um livro e o primeiro que lhe cai à mão é uma edição de 1979 de Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade. Sempre Drummond. Perdem-se os amigos, perdem-se os amores, mas os poetas sempre ficam. Principalmente Drummond. As folhas do livro, se um dia foram brancas, estão agora num tom quase acobreado. Repara neste detalhe, de como as folhas estão envelhecidas pelo tempo, ou pelas substâncias que trataram a celulose até virar papel. Se põe em dúvida se as folhas estão mesmo neste tom ou se apenas absorve a cor ambiente. Segura o livro com a mão direita e puxa com o polegar esquerdo da contra-capa até a capa, fazendo uma pequena brisa com as folhas. De repente, do interior, cai um pequeno papel. Agacha-se e já identifica a ocasião de sua origem. Numa perfumaria do centro da cidade, aquele papel servira para uma amostra de um perfume masculino. Ali no assoalho, agachada com o pequeno papel de amostra de perfume colado às suas narinas, com o perfume ainda presente no papel se misturando ao seu aroma de mulher, lhe fez recordar cenas de amor, de suor, de calor. Ainda mais lembranças a lhe tirar o sono. O sono.
Sente calor, sente necessidade de dormir. Procura entre livros, discos, pequenas caixas, canetas, batons, pequenos blocos de anotações, o frasco com as pílulas para dormir. Entre tantos objetos, chacoalha como uma cascavel. Deixa-o vazio com ajuda de uma garrafa de água, sem nenhum frescor. Abre as folhas da janela e um brisa fria invade o quarto, proeminente no sobrado. O céu ainda está escuro e o dia parece não chegar nunca. Antes de desligar o abajur, toma o livro, abre numa página qualquer e lê: Mas o homem perdeu o sono. Não podia acreditar. O sono. Novamente. Seria coincidência? E esta noite que não acabava... O dia que não chegava ou o sono que não vinha... Não sabia ao certo o que queria. Se queria dormir ou amanhecer. No escuro, já não sentia calor. Uma sensação de frio lhe arrepiava. Por fora e por dentro. As imagens no teto agora eram diferentes. O preto-e-branco havia ganhado cores. Estranhas. Assim oblongas. Psicodélicas. E o quarto parecia agora silencioso, como se antes não estivesse.
O frio continuava a entrar pela janela, empurrado pela mudança de cores que começava a acontecer na abóbada celeste. Ao pé da cama, o livro de Drummond aberto quase ao meio. Se ela pudesse, leria:
Por entre objetos confusos,
Mal redimidos da noite,
Duas cores se procuram,
Suavemente se enlaçam,
Formando um terceiro tom
A que chamamos aurora.
Livro: Antologia Poética - Carlos Drummond de Andrade
O segundo nome do meu pai era Antônio. Ele dizia que era porque quando ele nasceu, os sinos da igreja de Santo Antônio badalaram. Ele dizia que era em homenagem. Ao Antônio. Assim, sempre me lembro dessa história quando é dia de Santo Antônio, mesmo sendo longe do aniversário dele. Outro dia foi dia de São João. E daqui a pouco, dia de São Pedro e São Paulo. Nunca me senti homenageado no dia 29 de Junho. Mas claro que já me senti em tantos outros dias. Nuns mais, noutros menos. Quem sabe, sabe.
Então agora, coloco aqui um poeminha para a época. Pra relembrar festas juninas gostosas. Pra relembrar aquelas na Dona Jorgina, tia do Júnior. Fogueira imensa (na verdade, a gente é que era pequeno), mesas fartas, bombinhas ensurdecedoras, santos no pau.
Brilho
Pepita Faísca Sputinik Balão
Estrela Espelho Fósforo Lampião
Lamparina Pisca-pisca Bola de gude Luz de avião
Olho de gato Vagalume Espanta-brotinho Traque de São João
Em posts futuros eu falo mais sobre Florbela Espanca. Talvez uma pequena biografia, algumas coisas sobre a vida tão doída dela. De como ela viveu de uma maneira tão profunda. Pra começar com ela, um poema que muitos de vocês conhecem na forma de música.
Maria Teresa Horta é uma poeta da Terrinha portuguesa, assim como Florbela Espanca. Esta sempre sangüínea, intensa, se percebe o quanto mergulhava em suas paixões. Mergulhava tão profundamente que resolveu um dia não mais subir à tona. Maria Teresa é mais suave, mas não menos intensa.
Vou publicar alguns poemas das duas portuguesas para quem quiser utilizar deles como espelho. Se isso acontecer, terá valido a pena a publicação.
Eu ainda nem sabia ler e ia na casa do “Seu” Rosa ver gibi. Na época, Mickey Mouse, Pateta, Pato Donald e Tio Patinhas eram o centro das atenções da molecada. O tempo passou e aprendi a ler e continuei indo lá. Já entrava, falava “oi” para a Dona Nica, me sentava num sofá e fazia as minhas leituras. Quando terminava, deixava os gibis no lugar e ia embora. A Sílvia sempre estava lá com aquele sorriso imenso. Quem a conheceu vai se lembrar dele. Ela tinha a idade da minha irmã, mas conversávamos sem as fronteiras típicas de idade. O tempo passou, a Sílvia deve ter feito algum curso de cabeleireira e passou a cortar os meus cabelos numa determinada época. Não me lembro se eu a pagava, pois já tinha o meu dinheiro, ganho nas minhas ralações precoces. O tempo passou de novo. Eu não morava mais na Princesa Isabel e fui me afastando daqueles ares que povoavam as esquinas das ruas Goiás, Santos Dumont e Olegário Maciel. Acabei vendo a Sílvia apenas eventualmente. Mas nunca esqueci o seu sorriso. Um sorriso que só os anjos têm. Hoje a Sílvia foi embora. Não verei mais aquele sorriso. Talvez, como um anjo, ela venha a iluminar nosso caminho com a alegria de sua voz e a amplidão de seu sorriso. Nunca me esquecerei do sorriso da Sílvia.
Nesse blog tenho colocado alguma coisa de música. Vez ou outra adiciono um post com coisas diferentes. Também tem as coisas não muito diferentes, mas que são deliciosas. Mas quando me deparei com a música desses caras do Kansas vi (e ouvi) os dois adjetivos. Uma música talvez não muito diferente para alguns ouvidos e nem tão deliciosa para outros. Tem algo de folk, algo contemporâneo e ao mesmo tempo exala lembranças não vividas dos anos sessenta. Experimente aí.
As pessoas agem de maneira totalmente amorfa ante uma separação. Me repeti agora. Mas é mais um fato que agora se repete nessa prosa. O agir de forma completamente estranha ao comportamento dito esperado das pessoas.
Há um filme interessante em que o personagem principal sobrevive a um acidente aéreo e acaba se transformando. Vai ao encontro do que lhe ameaçava. Não tem mais medo. Se joga contra a parede que lhe escondia a verdade. No filme se apresenta um rompimento. Na prosa aqui, por um lado ele se apresenta também, mas por outro é apenas um esboço. Ou uma tentativa. Ou nem uma coisa nem outra. Tudo se torna confuso na mente das pessoas ante uma separação. E amorfas se tornam suas ações.
Lâmpadas Brancas, Lâmpadas Róseas
Só se lembrava da caminhonete subindo — subindo era realmente a palavra correta para descrever o que o veículo vindo pela esquerda fez — sobre o pequeno e frágil carro que ele dirigia. Mais que isso em suas retinas, só a luz vinda daquela típica luminária de hospital, com seis lâmpadas cegantes, direcionadas para o foco que lhes interessavam, era o que a lembrança reportava. Não era só isso. Se lembrava também da lataria se dobrando, do barulho dos vidros se quebrando, dos ossos se quebrando. Era como se tudo se passasse em slow motion. Acabara de se lembrar de um filme, com Jeff Bridges, onde um avião caía e o desastre, o horror, se esmiuçava na grande tela. O aço da carcaça do avião comendo a terra, revolvendo a plantação — de milho? — com pessoas, com bagagens, com poltronas se misturando como num liqüidificador. Percebeu que sua experiência tinha sido bem mais tranqüila. Não havia pessoas, bagagens, poltronas, pés de milho. Apenas aquela caminhonete lhe tomando o espaço. Apenas seu braço esquerdo, sua clavícula sendo esmagados por aquele ser metálico, movido a diesel, fumegante.
Continuavam ali as seis lâmpadas, a observar o que sempre observavam. Corpos despedaçados, seres nascendo, outros morrendo. Cânceres, infartos, buracos por tiros, ossos estilhaçados. Sangue brotando. Vidas se esvaindo. Brancas, sépticas, eficientes. Assim continuavam as lâmpadas em sentinela. Continuavam as lembranças, continuava o cérebro a restituir os flashs da memória, a própria memória.
Do lado de fora daquele ambiente limpo, cartesiano e eficaz, outra pessoa conversava sobre o ocorrido. Dizia não entender como podia aquilo ter acontecido. Ele era — ou ainda é — o exemplo de perfeição em conduzir uma máquina no trânsito. Nunca atravessara um sinal vermelho. Nunca entrara numa contramão. Nunca dirigira do lado esquerdo de uma via. Como poderia ter se envolvido num acidente de trânsito? Se distraiu ou fez algo de errado que não podia ser identificado. O cara da caminhonete em nenhum momento foi citado como possível responsável. Ela já começava a criar a possibilidade de ele ter criado o fato. Ter criado o acidente para chamar sua atenção. O fato de há alguns dias haver terminado com a relação entre eles lhe parecia ser a razão mais apropriada para explicar aquele insólito acontecimento. Um acidente de trânsito ocorrido com uma pessoa que absolutamente não era a pessoa que se poderia envolver num acidente de trânsito. Pessoa cuja capacidade de tratar com as habilidades necessárias para se safar naquela selva do dia a dia da cidade era ele. Mas onde ele estava naquela hora?
Ela explicava para seu interlocutor que aquilo parecia coisa arrumada, não era possível que o acidente pudesse ter acontecido com uma pessoa tão cuidadosa. Um simples acidente de trânsito parecia ter sua ocorrência relacionada a interromper aquilo que ela havia iniciado há algum tempo. Há algum tempo ela havia determinado que sua vida seria alterada. Há alguns meses havia decidido que a retidão, o caráter reto e sempre previsível dele lhe interrompia seu caminho para o que entendia ser seu objetivo de vida. Aquela vida estava absolutamente retilínea, reta demais. Entendia que não havia nascido para retas e ângulos retos. Gostava das curvas, das forças centrífugas, das forças de atrito se relacionando com seu corpo. Com ele, tudo era muito normal. Só normal. Normal no sentido da norma. Previsível. Como um homem tão previsível podia se envolver num prosaico acidente de trânsito? Ela olhou para seu interlocutor, pegou sua mão, sentiu seu calor, percebeu que era o mesmo de sempre, mesmo naquela situação, dentro de uma sala de espera de um hospital. Mãos curvas, pensamentos oblíquos, caráter em forma de camaleão, se adaptando às situações. Curvas, forças centrífugas, forças de atrito. Forças de atrito a criar calor, o mesmo calor antes percebido naquelas oportunidades sentidas. Acontecidas e gozadas em seu esplendor e objetivadas em suas repetições. Uma sensação de segurança lhe passou pelo corpo roliço e quente. Mesmo uma sensação sabida por ela que não lhe trazia segurança. Sensação efêmera é verdade, mas que lhe parecia eterna. A efemeridade e a eternidade se confundiam na sensação e na mistura das letras. Não mais lembrava porque estava naquele hospital. Apenas o que lhe aportava à alma era aquela sensação.
Saíram da sala de espera, cruzaram o saguão onde pessoas tensas, com almas em suspensão aguardavam algo. O ar da rua, mais leve, em movimento por uma suave brisa, criava uma oportunidade mais amena, mais aconchegante para as possibilidades. Entraram no carro estacionado próximo à entrada do hospital. O motor potente, a reluzência da tinta metálica e dos faróis de xenônio e dos vidros blindados eram mais fortes que as seis lâmpadas daquela luminária do centro cirúrgico. O motor rugiu forte, o movimento se fez, o ar se deslocou e as lanternas traseiras e vermelhas foram diminuindo de tamanho conforme se afastavam. As lâmpadas de vapor de sódio avermelhavam a cor prata do carro, apenas quando por baixo delas ele passava, tornando-o salmão. Era como uma lâmpada rósea a piscar intermitentemente. Da cor de mertiolate, timerosal, como na sala do centro cirúrgico.
As seis lâmpadas continuavam brancas, sépticas, eficientes, objetivas no direcionamento ao seu escopo de existência. Retas, como para o qual foram desenvolvidas e fabricadas. A iluminar o reto, mesmo agora fragmentado.
Filme: Fearless (Sem medo de viver)
Diretor: Peter Weir
Com: Jeff Bridges, Rosie Perez, Isabella Rossellini, Tom Hulce.
Um dia fui menino e li “O Pequeno Príncipe”. Confesso que mais de uma vez. Vi o filme também, em que o ator que fazia a serpente dava um show de expressão corporal. É um livro que ficou marcado por ser o preferido de candidatas a miss. Talvez não por isso, mas algumas pessoas sempre torceram o nariz quando se falava de Antoine de Saint-Exupéry. Não li muita coisa dele, realmente. Mas esse texto aí me caiu por acaso e quando terminei de ler, resolvi postar aqui. Dizem que nada é por acaso.
Cada um que passa em nossa vida, Passa sozinho… Porque cada pessoa é única pra nós, E nenhuma substitui a outra… Cada um que passa em nossa vida, Passa sozinho, Mas não vai só… Cada um que passa em nossa vida, Leva um pouco de nós mesmos, E nos deixa um pouco de si mesmo… Há os que levam muito, Mas não há os que não levam nada… Há os que deixam muito, Mas não há os que não deixam nada… Esta é a mais bela realidade da vida. A prova tremenda da importância de cada um, É que ninguém se aproxima do outro por acaso...