sábado, março 29, 2008

O advogado, por Marcelo Spini

Temos um amigo advogado. Tem voz de advogado. Tem jeito de advogado. Conheço-o desde os tempos de colegial e meu pai conhecia o pai dele. Eu mesmo tenho algumas histórias que, de certa forma, têm o pai dele dentro delas. Um dia elas podem aparecer por aqui.

Mas o Marcelão resolveu escrever algo sobre um fato ocorrido com este advogado amigo nosso. Era algo pra enviar ao Fantástico, mas acabou ficando guardado em algum HD por aí. O próprio advogado leu o texto, disse que foi assim mesmo que aconteceu e recentemente autorizou-me a publicar o texto neste blog. Quem escreveu ainda não tem seu blog, então, segue o texto escrito por Marcelo Spini.


O ADVOGADO !!!!

Neste breve relato, descreverei um fato ocorrido com um grande advogado da cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, distante 550 quilômetros da capital, Belo Horizonte. Por se tratar de um grande advogado que representa várias grandes instituições, não mencionarei os seu nome.

Após ser informado que teria que fazer uma defesa oral de uma grande causa em Belo Horizonte, passou dias lendo o processo para conhecer todos os seus detalhes. No dia da viagem, enquanto aguardava o vôo na sala de embarque, continuava devorando todas as páginas daquele imenso processo, pois tinha total convicção, que sairia vitorioso.

O vôo estava marcado para sete da manhã. Mineiro que é, chegou faltando dez para as seis, tentando não ter nenhum problema no check in. Acomodou-se e mergulhou na leitura. Pensando ter passado alguns minutos, olhou as horas, foi um espanto. 7h20min! Juntou todos os documentos, levantou-se desesperado e foi perguntar sobre o vôo. Recebeu a triste notícia: mesmo estando o Brasil passando por uma crise aérea, aquele bendito (ou maldito) vôo saiu no horário.

Desesperado, disparou um plano “B”. Tinha que conseguir chegar em Belo Horizonte antes do almoço, pois a “coisa” estava marcada para três da tarde. Foi de guichê em guichê para tentar outro vôo e nada. Até que alguém lhe falou sobre um táxi aéreo que também tinha como destino a Belo Horizonte. Ao se aproximar da área de embarque, com a sorte que sempre deve acompanhar um grande advogado, tinha um amigo que também estava indo para lá e poderia lhe ajudar a conseguir uma vaga no vôo. Após ver a possibilidade de embarcar e negociar o preço estava que era só alegria, pois este grande advogado tem um pezinho na Turquia. Embarcou.

A aeronave era pequena e agora com este novo passageiro, estava lotada. Piloto e mais sete passageiros. Como sempre nesses ambientes, apenas uma mulher. O vôo partiu sem problemas aparentes, mas um fato iria fazer com esta viagem fosse marcada de maneira ímpar.

Após alguns minutos de viagem, o Dr. começou a sentir algumas cólicas, que o fez suar frio lembrando da feijoada que havia comido no dia anterior. Num espaço tão pequeno não era possível soltar um punzinho distraído, pois todos iam notar e não teria como culpar ninguém. E aquele advogado continuou ali firme. Cada minuto que passava a situação piorava, cólicas, gases, barulhos estranhos. Enquanto todos riam, ele ficava cada vez mais sério.

Passado mais alguns minutos o piloto informou que estavam chegando ao destino, mas o Dr. já não suportava mais. Após uma rápida explicação da situação perguntou onde era o banheiro. Após algumas risadas foi informado que estava sentando no banheiro. Não havia outra saída. Como retornaria da viagem no mesmo dia, não havia levado outro terno, tinha que resolver a situação ali e agora. Após algumas desculpas desenxabidas, levantou a tampa de seu acento, desabotoou o cinto, abaixou parcialmente as calças, pois no recinto havia uma mulher. Enfim, pôs fim ao seu sofrimento. Neste momento se ouvia apenas o som do motor do avião. A cena era desoladora. No entanto, mesmo ali ele tentava manter a pose. O aroma nada agradável dentro da aeronave fez com que todos os passageiros e piloto ficassem sem respirar por vários minutos. Ele queria parar de suar, mas após resolver uma parte desta situação, lembrou que não havia visto uma ducha higiênica ou papel. Então resolveu ficar ali até o pouso da aeronave, que deve ter demorado varias décadas. Após o pouso, ele se manteve ali impávido. Se despediu de um por um, até que todos desembarcaram e ele pôde falar com o piloto, fazer a higiene e descer do avião para uma missão que agora parecia tomar pirulito de criança.

E tudo acabou bem, ganhando a causa. E agora, esquecer estas poucas horas que pareceram uma eternidade é algo que seria muito bom.

E esqueceria, se o Marcelão não escrevesse esse texto e eu não o publicasse aqui nesse blog.

sábado, março 22, 2008

Hallelujah

Jeff Buckley morreu em 1997 com uma carreira ainda por fazer. Foi nadar num afluente do Mississipi e enquanto um amigo o escutava cantarolando “Whole Lotta Love”, algo aconteceu e seu corpo só foi encontrado uma semana depois, bem longe do local. Quem escutar sua voz estará irremediavelmente ligada a ela. Não dá pra esquecer. Buckley interpretou uma música de Leonard Cohen que acabou virando uma lenda. Um hino. Já a escutei por pessoas que nem imaginava que gostavam dela. É música de se ouvir de olhos fechados. Como num dia de hoje.




Hallelujah, com Jeff Buckley

(Leonard Cohen)

I've heard there was a secret chord

that David played and it pleased the lord

but you don't really care for music do you?

Well it goes like this the fourth, the fifth

the minor fall and the major lift

the baffled king composing hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Well your faith was strong but you needed proof

you saw her bathing on the roof

her beauty and the moonlight overthrew you

she tied you to her kitchen chair

she broke your throne and she cut your hair

and from your lips she drew the hallelujah.

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Baby I've been here before

I've seen this room and I've walked this floor

You know, I used to live alone before I knew you

And I've seen your flag on the marble arch

and love is not a victory march

it's a cold and it's a broken hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Well there was a time when you let me know

what's really going on below

but now you never show that to me do you?

but remember when I moved in you

and the holy dove was moving too

and every breath we drew was hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Well maybe there's a God above

but all I've ever learned from love

was how to shoot somebody who outdrew you

And it's not a cry that you hear at night

it's not somebody who've seen the light

it's a cold and it's a broken hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Hallelujah

Prosas curtas sobre separações – 5

Como o óbvio título diz, essa série trata de separações. Mas separações não são só físicas. Elas podem ser feitas mediante a colocação de um Oceano Atlântico entre duas pessoas, como no texto do mês passado. Ou não. Ou podem ocorrer numa simultaneidade de presenças absolutamente brutal.

Afinal de contas, o que são separações?
Mais que uma mulher

Era uma tarde clara, daquelas quando a época do ano faz com que o Sol cruze a abóbada celeste bem ao Norte, como a entrar pelos olhos horizontalmente. Era um tempo que o sustento era difícil para os profissionais de sua área de atuação. A recessão que o país passava sufocava os negócios imobiliários e qualquer trabalho, por menor que fosse, ajudava no orçamento, permitindo que os credores fossem enfrentados com mais coragem.

Seu possível cliente — um investidor com dinheiro para fazer uma grande compra, algo raro naqueles tempos — passou para pegá-lo com a intenção de lhe mostrar um imóvel que estava interessado e queria um trabalho de avaliação. Ele não sabia que imóvel seria objeto do trabalho, pois o cliente queria confidencialidade no negócio. Havia conseguido as chaves com um dos proprietários e iria visitar o imóvel, fechado há anos, com um profissional que pudesse lhe abastecer de informações para sua tomada de decisão. O trânsito insuportável do lado de fora daquele carro alemão parecia reservado apenas aos mortais, que não dispunham do silêncio e do ar refrigerado que envolviam aquele ambiente refinado, com bancos de couro, vidros escuros e blindados, amplo espaço nos bancos traseiros e ainda a despreocupação com o ato de dirigir, reservado a um rapaz de uns vinte e cinco anos, com óculos e terno escuros a esconder músculos arduamente trabalhados.

O caminho percorrido diminuiu-lhe a surpresa de parar bem em frente àquele velho clube noturno, há muito tempo fechado e abandonado. Sua atual fachada se reduzira a um muro construído porcamente no alinhamento do imóvel, com um portão de chapa metálica de pequena espessura pregado sobre um quadro de madeiras toscas, a servir de entrada para o imóvel. Quem não conhecia o interior nem imaginava o que ali existia. Ou existira. O muro, encimado por uma verdadeira parede de outdoors, era como enormes barbas grisalhas e mal cuidadas e profundas rugas a esconder um rosto que antes já fora altivo e alegre, característico dos jovens. Tentava enxergar por entre as placas publicitárias, buscando a velha e linda fachada afastada e majestosa do clube, concebida nos anos 50, quando as pessoas tinham na alma o otimismo pós-guerra, que o Mal havia sido vencido, que tudo iria ser maravilhoso. Foi quando o investidor lhe convidou a entrar. O motorista já havia aberto o portão e voltara para cuidar do automóvel; entrou e pôde ver como o tempo pode ser cruel com as coisas bonitas. Sua memória fazia emergir imagens do passado para se colar àquela realidade, talvez na tentativa de maquiar aquela feiúra, aquela fachada descuidada. Tentava encaixar pastilhas sobre pilares pelados, vidros bisotados sobre esquadrias apodrecidas pela ferrugem, carpetes vermelhos sobre uma rampa esburacada. Tentava florescer arbustos sobre chão coberto de lixo, tentava vislumbrar dois pequenos leões de pedra que guardavam a entrada e agora não mais presentes. Tentava sentir o delicioso aroma de pipoca feita na hora num carrinho na calçada e não o cheiro ardido de urina, indicando a presença mais que humana naquele ambiente. A memória insistia em querer se sobrepor à realidade, as tintas de tempos maravilhosos passados naquele prédio.

Os dois entraram no imóvel com o investidor fazendo perguntas a respeito das características da construção, da localização. Seria razoável aproveitar a estrutura do prédio? Ou apenas utilizar o terreno, demolindo tijolo por tijolo? As perguntas lhe vazavam os ouvidos, pois sua atenção se fixara na tentativa de sua memória em colar sobre as imagens que ia vendo, aquelas que há muito havia visto. Colar arte final sobre rascunho. Sim, uma espécie de rascunho invertido, pois este já não trazia a expectativa de evolução para algo finalizado, construído. Era a própria imagem da destruição, não só do aspecto físico do prédio, mas também do que ele representou um dia, quando jovens lotavam o lugar em busca dos amigos, dos amores, das emoções próprias da idade. Era agora um prédio escuro, mas isso era lógico. Nunca havia entrado ali com as luzes apagadas. Toda aquela entrada era sempre bem iluminada nos tempos de luz. Holofotes direcionados para quadros na parede jogavam luz indireta sobre as pessoas. A iluminação daquele ambiente era de um bom gosto incrível. As pessoas não se sentiam agredidas pela claridade, ao contrário, os pontos luminosos eram em sua maioria imperceptíveis. Apenas os objetos iluminados recebiam destaque e não a fonte luminosa. As tapeçarias nas paredes, os quadros, as esculturas, uma fonte simpática a jorrar água sobre si mesma, as pessoas. Estes eram os atores principais daquela peça que acontecia naquele tempo. Naquele momento, observando o ambiente, a memória lhe trazia os rostos das pessoas que freqüentavam aquele lugar e elas eram bem diferentes da realidade de então. Os rapazes e as moças — como era difícil se lembrar com estas palavras: rapazes e moças, vocabulário mais arcaico para estes dias difíceis... — tinham aspectos dos mais estranhos, visto a evolução da moda e dos costumes. Os caras — sim, já eram assim chamados — que gostavam de se mostrar mais atuais cortavam seu cabelo como John Travolta nos filmes em que à época faziam sucesso. Outros ainda mantinham o que sobrou do final dos anos sessenta e início dos setenta. Cabelos compridos como os das bandas de rock que apareceram naquela época, preenchendo o vazio deixado pelos Beatles e ocupando os corações e mentes daqueles jovens que não tiveram a oportunidade de ver John, nem Paul, nem George, nem Ringo. Mas algo era comum a todos e os tornava uma tribo: as calças de boca larga, a rodear toda a circunferência dos sapatos plataforma. Algumas ainda com cintura baixa a deixar a já aposentada Brigit Bardot com saudades de seu tempo. Inimagináveis barrigas masculinas ficavam à mostra, deixando em vantagem os adolescentes que praticavam algum esporte. Talvez isso explicasse como o esporte naquela década era tão valorizado pelos jovens daqueles anos. As meninas eram quase uma tribo única. Cabelos, em sua maioria compridos — lisos conviviam com enrolados sem nenhum preconceito, pois não havia ainda a ditadura da pranchinha, a nivelar belezas das meninas adolescentes —, saias rodadas, meias de lurex — para quem nunca viu, uma malha com pontos brilhantes — dentro de sandálias glamurosas. Pontos brilhantes. Talvez esse fosse o ponto. Ou os pontos que faziam a diferença para ele. As pessoas eram pontos brilhantes e era assim que ele as via. Sentia-se com um deles, naquela época. Havia decidido assim permanecer e por isso, se juntara a outro ponto luminoso. A idéia era ampliar a luz, expandi-la para outras fronteiras.

Nesta hora, quebrando a ligação com os tempos passados, o investidor lhe chama a atenção para a amplitude do lugar. Estavam no salão principal da construção e mesmo para um capitalista convicto, aquilo era maravilhoso e ele falava dos tacos da madeira nobre em composição geométrica que não mais existia naqueles dias atuais, dos forros de gesso em formato de ameba, típicos dos anos 50, das colunas com desenhos e grafismos em que a cultura dos anos de globalização banalizaram. Ele sorriu e sentiu que mesmo alguém que apenas se preocupava com o retorno sobre o investimento também reconhecia aquilo que ele um dia havia reverenciado. Olhava para o teto quando o investidor — tomado de um entusiasmo incomum aos que se preocupam apenas com o saldo bancário —, puxou as grossas, velhas e empoeiradas cortinas, deixando que os raios de sol penetrassem no ambiente por enormes esquadrias guardando ainda vidros embaçados e sujos. Pelo horário, o Sol já se preparava para deixar aquelas paisagens. Ia inclinado, quase a tocar o horizonte, mas com força suficiente para jorrar seus fótons por sobre um até então não notado globo de espelhos preso ao teto do salão. O ato de abertura das cortinas, não apenas por si só, mas pelo jorro no globo, iluminaram o ambiente caquético. Pedacinhos de luz se espalharam pelas paredes, pelo teto, pelo chão. Espalharam-se pela sua mente, pela sua memória. Imediatamente lhe veio nos ouvidos — ouvidos distantes, de memória apenas — uma música daqueles anos. Era uma música que tocara à exaustão naquela época. Os irmãos que a cantavam faziam rios de dinheiro com músicas lentas — como os caras daquela época gostavam de músicas lentas... — e outras, podemos dizer, de balanço. Mas a que ele se lembrou no momento, vendo aqueles pedacinhos de luz espalhados pelo ambiente, foi uma que dizia algo sobre uma mulher que fazia parte de tudo que ele fazia, cujos braços o fazia se sentir como se tivesse encontrado o paraíso. Braços que deixara descansar sua cabeça, sua alma. Braços que havia segurado, conduzido pelas notas daquela música que dizia algo sobre uma mulher que era muito mais que uma simples mulher. Para ele, muito mais que uma mulher. Naquela época, ele achava que passados mil anos, ele voltaria a se apaixonar por aquela mulher. Imaginava que se a perdesse, morreria. O globo estava parado — o movimento daqueles tempos o embriagava — mas refletia pontos por todos os lados. Olhou para seu lado e nem o investidor viu. Poeira, tempo putrefato, dias passados era o que via. Sua memória cansada foi buscar nos recônditos do cérebro as lembranças daqueles dias. Os cabelos, a saia rodada, os olhos. O conjunto maravilhoso flutuando no ar, na memória, no ar agora empoeirado. Onde estariam agora todos aqueles elementos? Onde havia se escondido aquele olhar? E aqueles cabelos, aquela pele de seda? Aquele espírito livre, disposto a mudar o mundo, a beijá-lo com lábios não aflitos de vida, mas ansiosos, elevando a alma, as almas, a um pedestal elevado, a um altar humano, demasiadamente humano. Onde estaria aquele coração pulsante, a ritmar o colo branco, vibrando os seios ansiosos de vida? Onde estaria a sede, a fome, a vontade?

A razão começou a lhe trazer para os dias atuais. Enquanto os pontos luminosos lhe levavam ao passado, flashs invertidos — como negativos de fotografias — lhe faziam se sentir nos dias atuais. Naqueles que seriam os dias futuros daqueles maravilhosos dias. Pensava como seria no final do dia ao voltar para sua casa. A história não havia sido como imaginara, como a música dos Bees Gees descrevia. Na sua casa havia outra mulher, diferente daquela que recebera aqueles pontos de luz refletidos pelo globo de espelhos. Diferente em alma. Diferente em olhos. Diferente em seios, em lábios, em flancos nem tanto agora ansiosos.

A razão — ou as palavras objetivas do investidor — lhe traziam à realidade. Valia ou não a pena o investimento? Jogar ao chão ou restaurar aquele imóvel? Sugeriu o fechamento da cortina, pois o Sol já se ia; propôs a saída do salão, já que a poeira invadia os canais nasais. Incentivou a observação externa do prédio — a alma já caía em prantos.
Do lado de fora, um rapaz de uns vinte e cinco anos, com óculos e terno escuros a esconder músculos arduamente trabalhados, guardava um carro alemão, escuro, como a noite que se avizinhava. A última visão do edifício, o último elogio ao elemento imobiliário, ao ente cosmopolita, indivíduo urbano daquela comunidade de olhos cegos, de ouvidos moucos, de boca rota.

O compromisso feito de uma avaliação absolutamente profissional, indicando as melhores opções de retorno, buscando alavancar os investimentos com melhores taxas de retorno e menor pay back estariam disponibilizadas na semana posterior. O cadeado dourado fechava os toscos portões enquanto fechavam sobre si mesmos as portas blindadas com couro de cor bege, elegantes e suaves. O ar refrigerado já estava ligado para maior conforto dos ocupantes do automóvel que se mostrava superior aos demais veículos daquela via transversal. A movimentação da máquina, a compenetração do trabalho do motorista, a ansiedade por retorno sobre o capital do investidor, confrontavam com a sua vontade de voltar para sua casa. Iria olhar para os olhos da mulher que lá estava. Iria tentar sentir o coração a pulsar sob os seios. Seria ela mais que uma mulher?

Música: More Than a Woman
Intérpretes: Bee Gees



sexta-feira, março 21, 2008

Sem título

Se de repente

Pinta um sim,

Pinta um Chaplin

A nanquim

No caderno de latim,

Que não existe mais.


quinta-feira, março 20, 2008

Nua e crua

Pura pureza

Bela beleza

Feia feiúra.


Paúra

De olhar para a vida

E ver

A nua e pura

Feiúra

Da beleza.


Crueza

Do corpo estendido no plano

Na mesa

E os pêlos

Pretos

Proeminentes

Distantes

Vibrantes

Absolutamente

Cativantes

Pelos perfumes dos órgãos

Que brotam dos grãos

Apaixonados pelas mãos

Donas dos nãos

Donas dos sins

Dos dedos trêmulos

Dedos afins

Êmbolo

De acesso ao fim.


sábado, março 15, 2008

Arte

Já há muito tempo que o cara se dedica à arte e toda vez que nos encontramos para uma cerveja é ele quem cuida da carne. Já evoluiu de tal forma que consegue tomar conta de tudo sem fazer aquela bagunça que a gente sempre faz num churrasco. E o Marcelão já ultrapassou a barreira que separa aqueles que apenas gostam de fazer daqueles que fazem porque gostam. Aí então, uma carne “assim nem tanto” fica maravilhosa sob sua condução. O que dizer então de uma picanha maturada no limiar do estado de mal passada? A seguir, uma obra de arte com a assinatura de Marcelo Spini.

domingo, março 09, 2008

Alguns amigos

Encontrar com amigos é uma delícia! De certa forma, nos renovamos um pouquinho quando encontramos aqueles que nos viram ainda jovens. Buscamos memórias, contamos “causos”. A cerveja que embala esse encontros parece conter também um certo elixir da juventude. Como se recuperássemos algum tempo, se não alguns meses, pelo menos alguns momentos trazemos de volta.

Na casa do Merola, em homenagem à Cláudia, muitos daqueles de antigamente estavam lá. E sempre sai uma ou outra história. O Tribuna me autorizou a publicar uma determinada história aqui no blog, mas farei isso numa outra oportunidade. Mas publico uma outra dele, acontecida nos tempos em que tudo era muito simples. De uma simplicidade que nos faziam felizes.


A Pipoca, o Tribuna e o picolezeiro

Sempre se diz que quando se conta um conto se aumenta um ponto. Neste caso, acho que acrescento o milésimo primeiro, tantas vezes ele foi contado. Várias versões correm por aí e esta é apenas mais uma; e claro, não é a verdadeira, principalmente porque eu não estava lá. E mais, se estivesse, teria colocado meu ponto também. Mas vá lá. O que importa não é como aconteceu. A importância está em lembrar, escrever, lembrar, reviver, lembrar.

Ele transformou-se num respeitado advogado, eficiente em suas causas e referência para seus colegas. Mas para os amigos de antigamente era e continua sendo o Tribuna – certa vez no cursinho pré-vestibular, já sem paciência de tanto escutá-lo conversando na sala de aula, o professor disparou: “Pô! Você não pára de falar! Tá achando que está numa tribuna?”. Foi o suficiente.

Mas naquela época ele apenas pensava em se tornar um advogado. Ou não. Tinha acabado de fazer o NPOR e as doutrinas do Exército Brasileiro ainda pairavam sobre sua cabeça. Naquela tarde, ia para um compromisso, um estágio ou algo que necessitasse o uso de mangas compridas num calor de cerrado. Mas o Kenner e o Júnior não tinham um compromisso tão sério. O único objetivo naquele dia era fazer aquele automóvel que eles tinham em sociedade funcionar. Era um exemplar hoje raro de uma camionete Ford V8, nas cores branca e verde claro, do início dos anos 60, daquelas que se trabalha dentro do capô. Lataria dura como a vida. Comprada com suas economias, (toca fitas Mecca, conhecido como comedor de fita) sempre recebia todas as atenções da dupla. Eles nunca haviam fumado. Não haviam se encontrado com Bob Dylan, gostavam mesmo era de mecânica e cerveja. A camionete até nome tinha: Pipoca era como uma namorada dividida por dois primos. As câmaras de ar saiam dos pneus, como que pedissem liberdade. Óleo pingava por onde ela parasse. Desnecessário dizer que foi comprada por preço baixo porque quase nada nela funcionava. Mas quando funcionava, o seu ruído era um espetáculo à parte. Todos na rua olhavam para seus ocupantes: Kenner e Júnior, mais algum exultante convidado. Naquele dia, a Pipoca até que estava funcionando, com apenas um detalhe: quando em movimento, não podia ser parada porque seu motor apagaria e nova jornada capô a dentro deveria ser implementada. Foi quando Tribuna chegou ali na Princesa Isabel e perguntou se não podia ganhar uma carona. Estava indo para seu estágio num escritório de advocacia e chegar lá sem nenhuma mancha de suor na camisa de mangas compridas não seria nada mal. Kenner estava mergulhado dentro do motor da "poderosa" tentando destravar as marchas. Os dois "mecânicos" disseram que tudo bem. Podia. Mas não ia dar para parar porque senão a máquina apagaria e o trabalho deveria ser feito novamente.

— O que que é isso? Vocês estão pensando o que? bradou um exaltado Tribuna.

— O cara ficou bravo com a gente... pensou um dos dois.

— Vocês esqueceram que eu sou Tenente da reserva? No Exército fiz várias operações que a gente saltava de um caminhão em movimento. É simples. Na hora de descer, eu abro a porta e salto. Vai ser mole!

Os dois olharam um para a cara do outro, nenhum tinha feito serviço militar, não sabiam o que era saltar de um caminhão verde oliva em movimento, com arma e mochila, mas se ele estava dizendo que era mole, era mole. Vamos lá. Feita a trabalheira de ligar e manter em funcionamento a geringonça estavam lá o Kenner na direção, o Júnior no meio e o Tribuna na janela. Para fora dela o cotovelo embrulhado numa camisa de mangas compridas, calças pretas compondo um figurino de um cara sério, Tenente da reserva e futuro advogado, num corpo esguio e alto, ainda com os músculos formados pela mãe Pátria. A Pipoca deu uma rateada, cuspiu um pouco de fumaça, mas aquele maravilhoso ruído mais uma vez chamou a atenção de quem estava por ali. Os três saíram orgulhosos, subindo a Princesa Isabel rumo à praça Raul Soares. Alguns malabarismos do então futuro piloto de rally e secretário municipal para não atropelar Dona Páscoa, nem bater na primeira esquina foram necessários, mas a máquina ia muito bem. A conversa corria solta, falavam da maravilha que era aquela máquina, de como implementariam melhorias naquela conquista. O mundo era bem mais bonito e pequeno do alto daquela cabine. Enquanto isso o Sol castigava o asfalto da Cipriano Del Fávero.

Logo após passar pela praça Sérgio Pacheco — sob o viaduto que ligava o centro da cidade à avenida Fernando Vilela — Tribuna fala que vai descer. Pedir para diminuir a marcha nem pensar. O cara já tinha saltado de um caminhão com um fuzil FAL carregado! Apertou a mão do Kenner, a do Júnior, agradeceu a carona e ouviu um tímido pedido de cuidado. Combinaram que à noite poderiam ir tomar uma cerveja no Willian. O Kenner prometeu ao Júnior que, se fossem, não usaria nenhum sapato dele (do Júnior!) nem o perfume novo que ele havia ganhado. O Tribuna abriu a pesada porta, pisou naquele largo estribo que só as antigas camionetes tinham, fechou a porta. Mais uma saudação e pulou. Como Kenner não sabia pular de um veículo em movimento, perguntou ao Júnior: “E aí?” Momentos de suspense... “O Tribuna caiu!” disse Júnior. Kenner pensou, o que era pior: se o encavalamento das marchas ou o tombo do dito cujo. Rapidamente olhou pelo retrovisor interno para certificar-se do acontecido. O que viu foi algo rolando pelo asfalto, como se fosse um pacote com camisa de mangas compridas e calças pretas. Claro que tiveram de parar e o motor da Pipoca mais uma vez apagou. Júnior olhou para trás e o Tribuna já havia se levantado e um picolezeiro — que passava pelo local tentando implementar seu negócio — tentava ajudar e pelo gestual do Tribuna parecia que ele falava:

— Não se preocupe! Está tudo bem! Sem problemas! limpando os ombros, as coxas e o orgulho próprio ferido.

Quando os dois chegaram perto viram que uma camisa de mangas compridas a menos existia no mundo e um “causo” a mais surgia para o Kenner e o Júnior, mestres na arte de contar “causos”, espalharem para todos os amigos.

Até hoje, quando um dos dois contam este fato junto a algumas garrafas de cerveja, todos, inclusive o ator principal, choram de rir. Talvez pelo fato de nunca terminarem o caso — impossibilitados pelo riso —, nunca se soube se a Pipoca logo funcionou, se o Tribuna voltou para casa, se compraram um picolé ou se foram à noite tomar algumas cervejas.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Nada será como antes

Às vezes não nos damos conta de que nada será como antes. Em todos os sentidos. O jeito como levamos a vida muda todo dia e nem percebemos. Ou percebemos, mas pelo susto da constatação ou pela ilusão de que é algo momentâneo, fugimos da realidade. Em todos os sentidos.

Às vezes não nos damos conta, mas se você está lendo isso, você está conectado à internet. Tem feito tanto isso que nem percebe mais. Usa programas, baixa músicas, lê notícias. Visita amigos, joga CS, faz trabalhos da faculdade. Expõe seu CV, lê e-mails, reencontra pessoas. Os hábitos vão mudando e você nem percebe. E é assim mesmo. No final do século IXX o empresário americano Thomas Edison viabilizou algo que mudou radicalmente os hábitos da sociedade da época. A eletricidade entrou nas casas e nas empresas e revolucionou o modo de vida. Mudou a cultura. Há alguns anos a internet vem fazendo isso também agora. Tem gente que ainda não percebeu. Ou percebeu, mas pelo susto da constatação ou pela ilusão de que é algo momentâneo, foge da realidade. Nada será como antes.

E tem pessoas que prevêem muito mais mudanças aí. Um especialista em tecnologia e ex-editor da revista Harvard Business Review chamado Nicholas Carr lançou um livro nos Estados Unidos (The Big Switch: Rewiring the World, from Edison to Google) em que dá sua visão do novo mundo da tecnologia. Ele defende a idéia de que cada vez mais a internet vai se parecer com a eletricidade no final do século IXX. Assim como a eletricidade, vamos nos conectar a uma rede de informações e pagaremos de acordo com o consumo. A idéia dele é que se precisarmos de um programa ou qualquer recurso de tecnologia, usaremos e pronto. Para que estocar? O uso racional dos recursos, tão avançado nos processos produtivos das empresas de ponta e rentáveis chegará aos apetrechos de tecnologia. Tudo o que acontece no nosso computador, desde o processamento ao armazenamento poderia ser feito na internet. O PC passaria a ser apenas o meio de acesso.

Nas empresas o impacto seria monstruoso. Muda toda a forma de agir, de gerir. Já existe um site que fornece serviços de CRM (Customer Relationship Management ou Gestão de Relacionamento com Clientes), com programa totalmente embutido na internet. “Jogando no lixo” os servidores dos clientes, a Salesforce.com faturou 500 milhões de dólares em 2007, com 38 000 clientes.

Às vezes não nos damos conta, mas nada será como antes.

Leia mais. E mais.




sábado, fevereiro 23, 2008

Prosas curtas sobre separações - 4

Muitos de nós passamos por questionamentos brutais, por perguntas que não querem calar. Duvidamos de coisas até então ditas como verdades, olhamos para os lados com olhos diferentes. Miramos o horizonte com olhos que parecem não ser os próprios. E às vezes é necessário entender que viver nada mais é que estar num eterno estado de mudanças. Penetrar nesse mundo é penetrar na vida. Assim se parece.

No mês passado postei aqui um texto onde alguém com mais experiência se questiona, busca por coisas e pessoas que há muito se pareciam perdidas no tempo e no espaço. Agora, de certa maneira, isso se repete aqui, mas com enfoque diferente. Um olhar na necessidade de mudar até os ossos e continuar a ser a mesma pessoa. Talvez nós podemos mudar tudo e continuar a ser a mesma pessoa.

Viagem com Goethe

Ela estava naquele aeroporto, mas seu pensamento não. Estava na assustadora massa de água salgada que teria que transpor para realizar sua aventura. Pensava o pior. O avião no oceano, pedaços de tudo espalhado por onde a vista alcançasse. E aquela massa brutal de água por baixo do seu corpo. Balançou a cabeça e sentiu aqueles pensamentos escaparem como água por cabelos molhados. Começou a se lembrar de Goethe. Rapidamente enfiou a mão na bolsa de tecido impermeável e sentiu que não havia esquecido o livro. Imaginava-se caminhando entre ciprestes, em cidades medievais, conversando com velhos que lembrassem seu avô. Tirou o livro da bolsa, puxou a capa e leu na orelha: “Sigo sendo a mesma pessoa, mas creio ter mudado até os ossos”. Queria se sentir na viagem assim, do mesmo jeito que Goethe se sentiu naquele tempo, há mais de duzentos anos, bem mais que seus quase vinte. Mas percebeu que já se sentia desta maneira. Os acontecimentos das últimas semanas tinham feito até seus ossos mudarem. Se fosse há um ano atrás, a decisão de vender seus poucos bens para empreender esta viagem seria impensável. Se lembrava de como era metódica e nem um pouco dada a arroubos ou aventuras. Era apenas mais uma dedicada universitária que se formaria com notas altas, paparicada por professores orgulhosos de sua cria. Professores. Seu pensamento tinha saído da morte eminente em águas internacionais para cair onde ela não queria, de onde queria fugir. Não teve jeito. Foi preciso lembrar-se dele, como numa necessidade de vomitar o que lhe revolvia o estômago, o coração. Lembrou da primeira vez que o viu, na sala de aula, no terceiro dia de faculdade. Sentara-se na primeira fila de carteiras, como havia feito por toda sua vida escolar; ele chegou à beira do tablado de madeira, que servia de uma espécie de palco. Ela sentada, ele de pé. O campo de visão que ela tinha era amplo, mas só tinha olhos para a apertada calça jeans do professor. Olhou tanto, tentou tanto imaginar seu interior, que ele não pôde deixar de perceber a avidez daqueles olhos azuis. Não foi necessário mais que um mês para se envolverem numa ardente relação, meio estranha, meio implacável. Um já meio grisalho professor de quarenta anos e uma branquela miúda de dezoito. O ar nas aulas parecia eletrificado e esta eletricidade afetava os demais alunos, que rapidamente perceberam o que acontecia. E quanto mais pessoas começavam a perceber a relação dos dois, mais ela procurava ser como sempre foi. Fechada em si mesma, dedicada aos estudos, devorando livros, tirando as melhores notas da turma. Sentando-se na primeira fila.

Por um momento, uma enorme algazarra lhe roubou a atenção. Uns trinta metros à frente de onde estava sentada, um grupo de pessoas recebia alguém que chegara de longe. O viajante dizia em voz alta – praticamente gritava – como era bom voltar ao seu país, como o cheiro de sua terra era bom. Imediatamente ela se lembrou de uma frase do livro que segurava contra o peito: “Signor, perdonate! Questa è la mia patria!”. Abriu um sorriso, se lembrou do trecho do livro, em que uma medonha cantoria havia assustado Goethe, e de certa forma, desculpou aquele senhor por assustá-la também. Começou a pensar se se comportaria assim também quando retornasse. Iria mudar até os ossos e seguir sendo a mesma pessoa? Iria gritar num saguão de aeroporto para tantas pessoas sua saudade de seu país? Abraçaria e beijaria as pessoas como aquele senhor estava fazendo? Percebeu que poderia sim, pois ter entrado de cabeça num caso de amor sem futuro, com um homem casado, absolutamente apaixonado por sua mulher de anos de convivência já foi uma mudança até os ossos. Ter deixado para trás este estranho caso de amor foi outra óssea transformação. Ter trancado a matrícula na faculdade. Ter vendido carro, terreno. Ter posto as mãos em todas suas economias. Ter decidido imitar, ao menos em parte, o que Goethe fez. Ter tomado a decisão de partir como Goethe fez, no anonimato, sem que ninguém soubesse. Apenas cartas postadas horas antes de sua partida contariam para pessoas escolhidas seu destino, mas não sua volta. Pela primeira vez estava analisando como havia feito várias mudanças num período tão pequeno de sua vida, ainda tão inicial. Imaginava-se, até então, como uma personalidade pronta, perfeita, sem necessidade de alterações. Imaginava-se intelectualmente encaminhada e ponto final. O que mais poderia importar se não o alcance de seu sonho? Não havia percebido quanto que mirar num sonho impede de sequer olhar de relance para outros. Era excessivamente focada em suas atividades, buscando sua meta com a firmeza dos grandes executivos de grandes corporações. Passaria por onde e por quem fosse necessário para atingir seu objetivo. Mas naquele momento, sentada num banco de aeroporto, à espera do anúncio de embarque, percebeu que já havia mudado até os ossos. Parecia uma pessoa totalmente diferente. Era louca antes ou tornou-se agora? Não conseguiria responder, mas se sentia segura e tranqüila quanto ao desejo de chegar ao seu destino. E para vislumbrá-lo melhor, abriu o livro e procurou as aquarelas, os nanquins, os rascunhos realizados há séculos, retratando as paisagens que ela ansiosamente aguardava encontrar.

Fechou o livro, olhou para seu relógio quase que simultaneamente ao aviso de embarque ecoando por todo o aeroporto. Teve a sensação que o aviso era unicamente para ela e como se assim fosse, se levantou e foi atender à solicitação. Jogou a bolsa-mochila às costas, arrumou o prendedor nos cabelos e, no rápido movimento da cabeça, percebeu com o canto dos olhos uma figura de aspecto familiar parada no mezanino do saguão, com as mãos apoiadas no guarda-corpos. Sentiu um frio na espinha, mas se conteve e não voltou seu olhar para ela. Começou a caminhar para o portão de embarque imaginando se o vulto que havia visto poderia ser ele. Se fosse, não teria descido? Estaria ali só para se certificar de sua partida? Ou seria outra pessoa com o mesmo biótipo e vivendo sua própria vida? Ela não quis resposta e entrou no corredor, mostrando bilhete e documentos aos funcionários da companhia aérea. Enquanto caminhava no túnel que levava à aeronave, se virou para trás, mas só via pessoas que lhe acompanhariam na viagem.

Sentou-se em sua poltrona junto à janela, olhou para fora e as luzes do aeroporto eram embaralhadas pela garoa que formava gotículas na superfície transparente. Uma senhora de uns cinqüenta e poucos anos, com certeza em sua primeira viagem de avião, senta-se na poltrona oposta, na mesma fileira e está pálida, como a luz branca da aeronave. Sua respiração é difícil e o suor desmancha sua pesada maquiagem. Pouco depois senta-se ao seu lado uma mulher de uns vinte e cinco anos, mostrando ter muito, muito mais experiência de vida que a mãe apavorada, com um copo de água, procurando acalmar-lhe. Desvia o olhar, que já censurava o estilo de vida da filha da assustada mãe, ajusta o cinto, estica as pernas e volta novamente o olhar para o aeroporto. Os comissários de bordo fazem o procedimento padrão e a aeronave começa a se movimentar.

A chuva parece aumentar ou talvez a simples movimentação tenha transmitido esta impressão. A grande massa metálica já corre contra o vento, deixando as luzes do aeroporto obliquamente inclinadas e empanadas pela velocidade. Ela continua a olhar pela janela e o que vê é uma imensa camada de nuvens que por muito tempo permaneceriam ali, dando a impressão que o avião estava parado. Decidiu que sua atitude de não olhar para a tal figura foi a mais acertada, acalmando assim, sua inquieta alma. Algum tempo depois de observar as características das personalidades de alguns de seus acompanhantes, ela olhou para fora e já podia ver algumas estrelas. Estava sobre uma enorme massa de vapor de água que estava sobre uma enorme massa de água salgada e sob uma enorme massa de estrelas. Mais uma vez veio à sua mente o eterno estado de mudanças em que havia penetrado. Haveria de mudar novamente até os ossos e continuar seguindo a ser a mesma pessoa? Fechou os olhos, dormiu e sonhou que estava caminhando entre ciprestes, em cidades medievais, conversando com velhos que lembravam seu avô.

Livro: Viagem à Itália: 1786 – 1788
Título original: Italienische Reise
Autor: Johann Wolfgang von Goethe
Tradução: Sérgio Tellaroli
Ed. Companhia das Letras – São Paulo - 1999

domingo, fevereiro 17, 2008

Doce de leite

Doce de leite é uma delícia. Meu primo Júnior me disse agora há pouco que, se colocar ele para congelar, fica mais gostoso ainda. Nunca tinha tido essa idéia. Mas então, segue aí uma receita. De doce de leite. Porque além do gosto, a cor é linda. Tem cor de certas peles.

Doce de leite cremoso

Ingredientes:

2 litros de leite; 4 xícaras de açúcar (750g).

Modo de Preparo:

Coloque o leite e o açúcar numa panela grande de fundo largo. Leve ao fogo médio, mexendo sempre com uma colher de pau, até ferver (cerca de 15 minutos). Diminua o fogo e continue mexendo até obter um doce marrom claro de consistência cremosa (cerca de 45 minutos). Passe o doce para um refratário, deixe esfriar bem e sirva às colheradas em pratos de sobremesa com fatias de queijo branco. DICA: Para obter um doce com textura bem delicada e cremosa, é preciso mexer o leite sem parar. Primeiro para dissolver por completo o açúcar e depois para que ele caramelize por igual e não forme grumos (bolas) no fundo da panela.

sábado, fevereiro 09, 2008

Mineiro

Dizer “mineiro desconfiado” é pleonasmo. Ser mineiro não é fácil. Pode-se nascer mineiro, em Minas Gerais, mas é como uma arte. Vai se aperfeiçoando com o tempo. A observação, o aprender com os erros dos outros e com os próprios. O mineiro não se entrega de primeira. Vai devagar, “suntando”, pra só depois dizer a que veio. Eu sei como é.

Mas quem sabia mesmo era Fernando Sabino. Esse grande mineiro que tão bem escreveu sobre nós. E escrevia de uma maneira que tornava impossível deixar o livro antes do final de uma história. Quem se aventura a escrever alguma coisa, assim como eu, tem que procurar aprender com o cara.

Eu não conhecia o texto aí embaixo. Foi meu amigo Júlio Morsoletto quem enviou. O Júlio é paulista, lá do centro do estado. Mas acho que já é escolado na arte de ser mineiro.


Como é que o mineiro escolhe advogado

— Imagine o doutor que eu comprei uma fazendinha, coisa de nada. Pois não é que o meu vizinho, que tem um fazendão, não veio criar pendenga comigo por causa de um pedacinho de terra à toa? Comprei de papel passado, que diz que meu terreno vai até o riacho além da cerca dele. Ele diz que aquele pedaço é dele, por usucapião, e está ocupado há mais de trinta anos, pode provar. Plantou uma árvore lá quando chegou.

— Você tem escritura registrada, tudo direitinho, tudo em ordem?

— Tudo direitinho doutor, tudo em ordem.

— Então deixa comigo. A causa está ganha.

— E a árvore?

— Que árvore que nada. Uma árvore não prova coisa alguma.

Ele agradece a vai saindo de fininho. Parte para outro advogado, e a conversa se repete. Assim, de advogado em advogado, acaba encontrando um que se recusa a aceitar a causa:

— Usucapião é coisa séria. A posse do outro é que conta. Ele pode provar, é fácil arranjar testemunha. E tem a tal árvore que ele plantou há mais de trinta anos. O senhor vai perder na certa.

— Então é o senhor mesmo que eu quero, decide o mineiro: eu sou o outro. O da árvore.

Fernando Sabino

terça-feira, fevereiro 05, 2008

O Mio Babbino Caro

Em Setembro de 2007 escrevi algo aqui sobre ópera. Era sobre o Pavarotti, mas era muito mais que isso. Era sobre aprender coisas com meu pai, que apenas muitos anos depois pude dar valor. É sempre assim. Coisas maravilhosas que escutamos deles e só muito tempo depois absorvemos. Como a ópera. E essa coisa maravilhosa me tocou um dia.

E em várias ocasiões, em filmes principalmente, ouvia uma ária maravilhosa, mas sempre perdia a oportunidade de identificar qual era, quem cantava, quem era o autor. Mas através do meu filho, que assistia a um filme, consegui identificar. De certa forma, algo já me dizia que era Maria Callas. Imaginei que meus ouvidos já estivessem treinados para captar os mínimos detalhes. Mas tenho certeza que não. Foi apenas o óbvio. No link abaixo, um vídeo antigo dessa americana de ascendência grega, considerada a melhor soprano que o mundo já ouviu, pode mostrar a beleza de sua voz e da ária O Mio Babbino Caro, que é um trecho de Gianni Schicchi, de Giacomo Puccini. A ária é belíssima e ouvindo-a nas vozes de outras sopranos dá pra perceber as nuances que cada uma delas dá à obra. Talvez na primeira audição, nem tanto. Mas ao ouvir novamente, abrindo bem os ouvidos e a alma, dá para perceber. A romena Angela Gheorghiu e a russa Anna Netrebko não são tão famosas quanto a neozelandesa Kiri te Kanawa, mas têm além de suas vozes lindas uma presença em palco que destoa completamente daquele estereotipo de “tia velha italiana”, que de certa maneira acabei formando nos meus tempos de adolescência, quando meu pai me mostrava algumas delas cantando.

Muita coisa na vida, depois que a descobrimos, vem a sensação de que perdemos muito tempo ficando longe dela. A gente pensa: Onde eu estava por este tempo todo? Com essa ária, foi a mesma coisa. Escutei e escutei até que vieram reclamar por aqui. Mas a cada audição, a cada emoção eu me perguntava: Onde eu estava por este tempo todo?

sábado, fevereiro 02, 2008

Horizontal Rain

Desmancha-se o céu

Deslancha-se o destino seu

Intestino sentimento meu

Nem mel tampouco fel

Procrastino o alimento meu

Atraso o himeneu

Não penso na Lua de Mel


Nuvens de algodão

Encharcadas

Das lágrimas embaçadas

De ocasião

Despencam em mim

Por sobre o chão

Estraçalhadas

Pelo carmim

Dos lábios teus

Que não rezam, são ateus

E que por fim

Gozam

Com o sim e com o não




terça-feira, janeiro 29, 2008

Do bardo

“Ser ou não ser eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;

Só isso. E com o sono – dizem – extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais”


William Shakespeare, em Hamlet


sábado, janeiro 26, 2008

Prosas curtas sobre separações - 3

Em Dezembro publiquei um texto que faz parte desse grupo de prosas curtas sobre separações, do qual esse agora faz parte. Depois do post vieram me perguntar se é ficção ou se aquilo aconteceu. Disseram que há detalhes demais para não ter acontecido de verdade. Mas é ficção. Mas há coisas ali retiradas de coisas acontecidas. Não necessariamente comigo. Podem ter acontecido comigo. Ou com você que me lê, caro leitor... O bom da ficção é isso. Talvez não aconteceu... Mas pode ter acontecido. Com você, comigo, com o cara que mora em frente, com o personagem de um filme antigo que passa na TV de madrugada. Ou com seu pai.

Neste post, acontece o mesmo. Muita coisa aí pode ter acontecido. Outras poderiam. O limiar do acontecer é tênue demais. Um mínimo desvio e aquilo que poderia ter acontecido fica apenas na imaginação. Na ficção. Ou não.

Não posso tirar meus olhos de você

Enquanto assinava a fatura do cartão de crédito para pagamento de quarenta litros de gasolina e de uma garrafa de água mineral, percebeu que todas as pessoas que estavam próximas ao pátio do posto olhavam curiosas para aquela obra de arte montada sobre quatro pneus. Claro que não era a primeira vez que isso acontecia. Houve casos de crianças que pediam para dar uma voltinha, sob o olhar de adultos morrendo de inveja e se arrependendo de terem crescido e perdido a inocência das crianças. Nestas horas, esta inocência fazia toda a diferença. Guardou o cartão na carteira, pegou as chaves do bolso, tirou uma folha de uma sete copas que havia se jogado sobre a capota preta, entrou na obra de arte e todos lhe olhando. Quando pôs a chave na ignição e a girou, o motor V8 de 365hp roncou grave, maravilhando agora os ouvidos dos donos dos olhos já maravilhados na platéia. Reparou que um adolescente falou algo com muita convicção para alguém que deveria ser seu pai, que concordou com a cabeça, sorrindo. Engatou a ré e começou a se afastar lentamente, quase que para não atrapalhar o deleite das pessoas. Foi quando se aproximou da dupla e pode escutar quando o filho disse ao pai que o carro era tão bonito que não podia tirar os olhos dele. Sentiu que havia poesia naquelas palavras, sentiu-se parte dela e sorriu interiormente, pois também sentia a mesma coisa. Acelerou pelo piso de paralelepípedos e quando já saía do posto, tomando a rodovia, olhou pelo retrovisor externo e todas aquelas pessoas olhavam em sua direção, com rostos quase que extasiados.

Manteve na memória o rosto do tal adolescente e se lembrou que foi naquela idade, com uns quatorze ou quinze anos, que vira pela primeira vez um Chevelle. Era uma época que não existiam carros importados no país e apenas por ser um, já era muita novidade. Mas as formas do carro, o barulho do motor, tudo isso maravilhou aquele adolescente dos anos 70. Naquela época, aquele exemplar já tinha uns três ou quatro anos, mas seu proprietário cuidava dele como uma obra de arte que realmente era, por isso sua aparência de zero quilômetro que aquele adolescente imaginou ser. Só muito tempo depois é que ficou sabendo que aquele era um Chevrolet Chevelle SS 454, ano 1971.

Depois de quase trinta anos, estava ele dirigindo um destes exemplares raros de máquinas que não se fabricam mais. Observou o interior do carro e se lembrou como estava quando o comprou, quase pronto para o ferro velho. O interior fora inteiramente refeito: forrações, bancos, painel. A maioria com equipamentos originais e reformados. Olhou para frente e viu apontando para a faixa preta de asfalto sendo engolida, o capô vermelho com as duas faixas pretas, que se repetiam na traseira. Começou a se concentrar na viagem, pois algum apressadinho num carro de último tipo acabara de lhe ultrapassar de forma perigosa. Mas não conseguia deixar de pensar como o sonho adolescente de possuir um Chevelle o acompanhou e talvez tenha interferido em outros, positiva ou negativamente. Esta viagem era um destes exemplos. Estava sendo realizada exatamente para resgatar um outro sonho quase perdido. Mas pensava no garoto no posto com o pai, em suas palavras, quando se lembrou de uma fita cassete que deveria estar no porta-luvas do carro. Segurou a direção, se inclinou para a direita e, mantendo a vista para a rodovia, vasculhou entre vários objetos em busca da fita. Lá estava ela, solta, sem a caixa que havia se quebrado há muitos anos. Olhou para a etiqueta grudada onde leu: “Janeiro de 1983”. Quem a gravou não havia se importado com os títulos das músicas, muito menos com seus intérpretes, por isso, ele procurava uma música, que por ter marcado tanto sua vida, sabia seu nome. A música havia sido gravada por vários artistas, mas curiosamente, nunca ficara sabendo a intérprete daquela gravação. Colocou-a no toca-fitas e começou a procurar a música. Achou-a facilmente, tantas e tantas vezes que havia feito esta operação vinte anos atrás.

— Oh! Pretty baby!... I need you baby!, cantava a plenos pulmões. Pelo jeito que cantava, acabou se lembrando de um filme que o marcou, mas que não se lembrava do nome. Era algo como The deer hunter, com Robert de Niro em mais uma de suas magistrais interpretações, além da cena que tanto o marcou, com a personagem de Christopher Walken metendo uma bala na própria cabeça. O filme tratava de pessoas que tinham uma vida tranqüila, caçadores de finais de semana, que de uma hora para outra se viram metidos numa guerra que não lhes pertenciam e viam suas vidas se perderem nas selvas e pântanos do Vietnã. Neste filme, numa cena ótima, soldados em folga tomavam cerveja e jogavam bilhar e cantavam aos berros — como ele cantava agora — a mesma música sobre uma gravação de Frank Valli. Aquela vez no cinema, não era a primeira que a havia escutado. Era uma canção que fez sucesso nos anos 60, mas ele era apenas um menino então. Como uma música de sua época de infância pôde marcá-lo tanto assim? Tornara-se a música que embalou o caso de amor de sua vida, agora realmente havia se certificado disso. Estava naquela estrada por isso. Não admitia perder um sonho assim, sem lutar. Já tinha concluído que havia dirigido sua vida de uma maneira que agora se arrependia. Conseguiu o Chevelle e toda a epopéia de sua restauração apenas porque utilizou esta tal “maneira” de dirigir sua vida. Havia conseguido muito para um menino encantado por um automóvel, mas absolutamente sem dinheiro para consegui-lo. Mas só pensava agora em retomar um sonho que em nada dependia desta sua “maneira”. A atriz principal do seu filme — cuja trilha sonora urrava dentro do carro —, que há vintes anos lhe acompanhava, já não agüentava mais esta “maneira” de vida e voltara para sua cidade natal, no alto das montanhas.

Desligou o toca-fitas, pensou como iria chegar a ficar de frente para ela, depois de tudo o que havia acontecido, o que iria falar, se tocaria a música para ela se lembrar do tempo em que ela havia gravado a tal fita cassete, escrito aquela etiqueta com aquela data... O que realmente falaria a ela? Como isso era difícil para ele. Talvez dissesse algo como “não posso tirar meus olhos de você”. Não seria nada original, mas era verdade. Mesmo assim, já não tinha tanta certeza da decisão que tomara de viajar. Mas estava quase chegando. As curvas da estrada, serpenteando pelas montanhas mostravam isso. O dia ia se indo, o Sol já se apresentava apenas por seu poder laranja-vermelho a tingir o céu e uma fina fatia que ele observou intermitentemente pelo retrovisor, até desaparecer por completo.

O Chevelle ano 71 rolava imponente pelo asfalto juntando seu vermelho ao laranja do céu unindo-se no horizonte. A noite começava a cair e o que se viam eram apenas as luzes vermelhas das quatro lanternas redondas da traseira do Chevelle.

Música: Can't Take My Eyes Off Of You
Autores: Bob Crewe – Bob Gaudio
Intérprete: Gloria Gaynor (mas há outros: Frank Valli, Lauryn Hill e mais um mundo inteiro de pessoas que adoram essa música)
Filme: The deer hunter
(Ganhador do Oscar de melhor filme de 1978)
Direção: Michael Cimino
História: Michael Cimino, Deric Washburn, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker e Deric Washburn
Atores: Robert De Niro, Christopher Walken, Merryl Streep, John Savage, John Cazale.
Veja ficha técnica no link



terça-feira, janeiro 22, 2008

Rescaldo

Ou é o cisco no olho
Ou o estrepe no dedo
É sempre o aperto no peito
É sempre o sufoco do medo

Ou é o corte no pé
Ou um lábio trincado
É sempre o cerco ao jeito
De se olhar o passado

Ou é o amargo na boca
Ou um espinho na mão
O que sem dolo foi feito

Mas ficou no coração

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Laura

Mãe e Alma

Aura e Filha

A voz que acalma

O chão que se trilha.


No tempo de ver,

Foi a folha e o fruto,

A palavra e o pão.

No tempo de crer,

É a lembrança e o perfume

Que sempre fica na mão.


Mãe é alma

Laura é filha

Da terra que cria

O que chamamos coração.

sábado, janeiro 12, 2008

Depois demora muito para chegar?

Sempre se deixa algo pra depois. Os motivos são vários. Justificáveis ou não. Mas sempre alguma coisa fica pra depois. É a preguiça, é a inércia, é a letargia. É a falta de coragem. Coisas simples, como fazer a barba ou mais complicadas, como mudar o rumo de sua vida. Depois.

Mas... Depois, demora muito pra chegar? Quais são os eventos que farão que “depois” se transforme em “antes”? Depois existirá mais coragem que agora? Depois o Sol estará mais bonito? Depois serei um homem melhor? Por que depois? Há demora mesmo ou é apenas a percepção minúscula que temos do tempo do nosso ponto de vista comparado ao do Universo? Talvez não há como comparar o tempo que demora pra que um novo eclipse aconteça com o tempo de vida de um urso em um zôo. Qual é o tempo a partir do qual um abraço se tornou demorado? Como comparar esse tempo ao tempo de demora para que este abraço aconteça? Depois, ele vai acontecer? O urso no zôo vai viver pra ver um novo eclipse?

Mas sempre se deixam as coisas pra depois. A esperança é que elas se façam por si próprias. É talvez a inércia ou a falta de coragem. Ou outro motivo muito mais nobre. No entanto, a gente sempre se pergunta: O depois demora muito pra chegar?

terça-feira, janeiro 08, 2008