Palavras que saiam daqui
Não farão o que de certo seria
Imagens que apareçam ali
Não dirão o que eu queria
Enfoques diversos
Dispersos olhares
Milhares de toques
Interessantíssimos
Mas e assim
De um talvez
Ou de um sim
O que vi ou que não
A certeza ou o senão
De uma vez ou não
Devagar ou de sopetão
Virão a mim
Devagar
Ao vagar das nuvens
Ao apagar do Sol
Ao raiar do dia
NO MUNDO DOS BLOGS. Todo mundo está se ligando, se conectando, se blogando. Os sinais de fumaça, os tambores, os pombos-correio, as cartas de papel, os telefonemas. Os blogs. Para começar, para ver como é que fica, vamos falar de tudo...
sábado, fevereiro 11, 2012
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
terça-feira, fevereiro 07, 2012
Dilema
O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.
No fundo
sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imenso num universo
que não é feito de mim.
Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.
Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.
Antonio Cícero
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.
No fundo
sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imenso num universo
que não é feito de mim.
Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.
Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.
Antonio Cícero
domingo, fevereiro 05, 2012
Remember That Night
Música de verdade. Aprendam aí, moçada sem juízo musical...
Tags: Pink Floyd; David Guilmour; Rick Wright; Música boa; Crosby Still Nash Young
Tags: Pink Floyd; David Guilmour; Rick Wright; Música boa; Crosby Still Nash Young
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
O amor, esse sufoco
O amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro.
Ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos.
Paulo Leminski
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro.
Ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos.
Paulo Leminski
Meus céus
Quando o céu fica azul
É a sua imagem que vejo
É seu rosto que elejo
Pra ficar em minhas retinas
Quando o céu se escurece
Meus olhos e suas meninas
Cumprem os dois suas sinas
De fitar o negro firmamento
Quando o céu se torna chumbo
E os cabelos se gelam ao vento
O que traz o arrebatamento
São seus olhos, guardados nos meus
É a sua imagem que vejo
É seu rosto que elejo
Pra ficar em minhas retinas
Quando o céu se escurece
Meus olhos e suas meninas
Cumprem os dois suas sinas
De fitar o negro firmamento
Quando o céu se torna chumbo
E os cabelos se gelam ao vento
O que traz o arrebatamento
São seus olhos, guardados nos meus
A falta que ama
Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.
Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.
A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.
Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.
Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?
O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.
No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?
Carlos Drummond de Andrade
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.
Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.
A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.
Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.
Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?
O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.
No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?
Carlos Drummond de Andrade
Sunrise - Simply Red
...e ainda tem a casa do Niemeyer, maravilhosa... E ainda tem mais maravilhas brasileiras...
Tags: Oscar Niemeyer; arquitetura; Simply Red; Brasil
Tags: Oscar Niemeyer; arquitetura; Simply Red; Brasil
segunda-feira, janeiro 30, 2012
Star Guitar
Videoclips são armas importantíssimas de marketing, mas sempre há alguns que nada contribuem. Esses caras aí fizeram um (já velho, diga-se...) que é um show de demonstração de como um vídeo se encaixa perfeitamente à música. Quando o vi pela primeira vez não percebi a sacada, mas ao captar as imagens ligadas ao som se percebe a qualidade da arte.
Tags: Chemical Brothers
Tags: Chemical Brothers
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Remember That Night - Bonus Tracks feat Richard Wright plus West Coast Documentary
Tags: Pink Floyd; David Gilmour; Rick Wright
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Se da Amada estás ausente
Se da Amada estás ausente
Como o Oriente do Ocidente,
O coração transpõe todo o deserto;
Só, por toda a parte acha o seu caminho certo.
Para quem ama Bagdá é aqui perto.
J.W.Goethe
Como o Oriente do Ocidente,
O coração transpõe todo o deserto;
Só, por toda a parte acha o seu caminho certo.
Para quem ama Bagdá é aqui perto.
J.W.Goethe
sexta-feira, janeiro 06, 2012
segunda-feira, janeiro 02, 2012
Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— Ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
Mário Quintana
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— Ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
Mário Quintana
sexta-feira, dezembro 30, 2011
Fim de 2011
Antes de começar a ler, ligue o vídeo e espere carregar. Só então, leia — se não ficar hipnotizado pelo som.
Mas, nem sei se era pra você estar aqui lendo isso. Talvez você devesse estar rindo em outro lugar e não com seus olhos nessa tela. Comemorando ou tentando esquecer coisas dos trezentos e sessenta e quatro dias passados. O ano vai se acabando e, nessas horas, sempre fica um misto de nostalgia, esperança e a sensação de que a gente podia ter feito mais. Dá sempre uma sensação de que aproveitamos pouco, curtimos menos, esfregamos minimamente nossos lábios. Dá a sensação de que aqueles momentos que dormimos de manhã, não descansamos: apenas perdemos o Sol dourado nas brisas frias dos inícios dos dias. Vem aquela impressão de que dissemos poucos “Eu te amo”, escassos “Obrigado”, míseros “Perdoa-me”. Vem aquela sensação de que deveríamos ter levantado na madrugada pra ver a Lua no céu ou apenas sentir o frio das quatro horas batendo no peito. Talvez, ter sentido mais frio, sentido mais calor, tentado ouvir o coração bater.
Quando um ano vai embora, tendo sido ele bom ou mais ou menos, parece que estamos perdendo um amigo, um companheiro que esteve ali com você. Porque é sempre despedida. É sempre arrivederci. Assim, italiano mesmo, com as emoções brotando, com os olhos declaradamente expostos.
E quando um ano vai embora é porque outro ano vem por aí. E aquele misto de nostalgia, esperança e a sensação de que a gente podia ter feito mais, vai se transformando numa vontade de ter a oportunidade de viver cada pequeno minuto de uma maneira diferente de que a gente sempre viveu.
Todo ano é assim. Dizemos as mesmas coisas. Queremos as mesmas coisas. Fazemos as mesmas coisas que nossa Essência diz pra fazer. Somos as mesmas pessoas que Alguém fez um dia. Só crescemos um pouco. A cada ano. A cada dia. A cada hora. A cada minuto que se aproxima do ano que se inicia.
Mas, nem sei se era pra você estar aqui lendo isso. Talvez você devesse estar rindo em outro lugar e não com seus olhos nessa tela. Comemorando ou tentando esquecer coisas dos trezentos e sessenta e quatro dias passados. O ano vai se acabando e, nessas horas, sempre fica um misto de nostalgia, esperança e a sensação de que a gente podia ter feito mais. Dá sempre uma sensação de que aproveitamos pouco, curtimos menos, esfregamos minimamente nossos lábios. Dá a sensação de que aqueles momentos que dormimos de manhã, não descansamos: apenas perdemos o Sol dourado nas brisas frias dos inícios dos dias. Vem aquela impressão de que dissemos poucos “Eu te amo”, escassos “Obrigado”, míseros “Perdoa-me”. Vem aquela sensação de que deveríamos ter levantado na madrugada pra ver a Lua no céu ou apenas sentir o frio das quatro horas batendo no peito. Talvez, ter sentido mais frio, sentido mais calor, tentado ouvir o coração bater.
Quando um ano vai embora, tendo sido ele bom ou mais ou menos, parece que estamos perdendo um amigo, um companheiro que esteve ali com você. Porque é sempre despedida. É sempre arrivederci. Assim, italiano mesmo, com as emoções brotando, com os olhos declaradamente expostos.
E quando um ano vai embora é porque outro ano vem por aí. E aquele misto de nostalgia, esperança e a sensação de que a gente podia ter feito mais, vai se transformando numa vontade de ter a oportunidade de viver cada pequeno minuto de uma maneira diferente de que a gente sempre viveu.
Todo ano é assim. Dizemos as mesmas coisas. Queremos as mesmas coisas. Fazemos as mesmas coisas que nossa Essência diz pra fazer. Somos as mesmas pessoas que Alguém fez um dia. Só crescemos um pouco. A cada ano. A cada dia. A cada hora. A cada minuto que se aproxima do ano que se inicia.
quarta-feira, dezembro 28, 2011
Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
cobre as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio…
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
cobre as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio…
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles
sábado, dezembro 24, 2011
Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos - Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente.
Vinícius de Moraes
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos - Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente.
Vinícius de Moraes
segunda-feira, dezembro 19, 2011
domingo, dezembro 18, 2011
Perdição
A luz que me dás, esquiva e dura,
serve-me de abrigo onde desfeito
é já o meu cansaço. Halo escuro
a luz dói – perdição incerta
de um pobre e calcinado coração
que sabe de amor
o que batalhas são.
Casimiro de Brito
serve-me de abrigo onde desfeito
é já o meu cansaço. Halo escuro
a luz dói – perdição incerta
de um pobre e calcinado coração
que sabe de amor
o que batalhas são.
Casimiro de Brito
sábado, dezembro 17, 2011
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Acalanto
Dorme, que eu penso.
Cada qual assim navega
pelo seu mar imenso.
Estarás vendo. Eu estou cega.
Nem te vejo nem a mim.
No teu mar, talvez se chega.
Este, não tem fim.
Dorme, que eu penso.
Que eu penso neste navio
clarividente em que vais.
Mensagens tristes lhe envio.
Pensamentos – nada mais.
Cecília Meireles
Cada qual assim navega
pelo seu mar imenso.
Estarás vendo. Eu estou cega.
Nem te vejo nem a mim.
No teu mar, talvez se chega.
Este, não tem fim.
Dorme, que eu penso.
Que eu penso neste navio
clarividente em que vais.
Mensagens tristes lhe envio.
Pensamentos – nada mais.
Cecília Meireles
domingo, dezembro 11, 2011
Júbilo
Tomaste
arrancaste-me o coração
e simplesmente foste com ele jogar
como uma menina com a sua bola.
E eu de júbilo
esqueci o jogo.
Louco de alegria
saltava
como em casamento de índio
tão leve
tão bem me sentia.
Vladimir Maiakóvski
arrancaste-me o coração
e simplesmente foste com ele jogar
como uma menina com a sua bola.
E eu de júbilo
esqueci o jogo.
Louco de alegria
saltava
como em casamento de índio
tão leve
tão bem me sentia.
Vladimir Maiakóvski
quinta-feira, dezembro 08, 2011
sábado, dezembro 03, 2011
Sonetilho do falso Fernando Pessoa
Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
Carlos Drummond de Andrade
Tags: Fernando Pessoa; Carlos Drummond de Andrade; Poesia de alto nível
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
Carlos Drummond de Andrade
Tags: Fernando Pessoa; Carlos Drummond de Andrade; Poesia de alto nível
sexta-feira, dezembro 02, 2011
Reflexivo
O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.
Affonso Romano de Sant’Anna
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.
Affonso Romano de Sant’Anna
quarta-feira, novembro 30, 2011
Não canto
Não canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabara em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo.
Pudesse eu suspender, inda que em sonho,
O Apolíneo curso, e conhecer-me,
Inda que louco, gêmeo
De uma hora imperecível!
Fernando Pessoa
O sol que canto acabara em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo.
Pudesse eu suspender, inda que em sonho,
O Apolíneo curso, e conhecer-me,
Inda que louco, gêmeo
De uma hora imperecível!
Fernando Pessoa
domingo, novembro 27, 2011
A despedida
Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos de tempo e de nossa
Permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais.
Bertolt Brecht
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos de tempo e de nossa
Permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais.
Bertolt Brecht
sexta-feira, novembro 25, 2011
quinta-feira, novembro 24, 2011
Retrato de Maria Lúcia
"Você é tão acostumada
A sempre ter razão
Você é tão articulada
Quando fala não pede atenção
O poder de dominar é tentador
(...)"
Trecho de "Fogo", do Capital Inicial
Tu vens de longe; a pedra
Suavizou seu tempo
Para entalhar-te o rosto
Ensimesmado e lento
Teu rosto como um templo
Voltado para o oriente
Remoto como o nunca
Eterno como o sempre
E que subitamente
Se aclara e movimenta
Como se a chuva e o vento
Cedessem seu momento
À pura claridade
Do sol do amor intenso!
Vinicius de Moraes
Tags: Capital Inicial; Vinícius de Moraes; poder; razão; intenso; paixão; eterno; tentação; longe; atenção
A sempre ter razão
Você é tão articulada
Quando fala não pede atenção
O poder de dominar é tentador
(...)"
Trecho de "Fogo", do Capital Inicial
Retrato de Maria Lúcia
Tu vens de longe; a pedra
Suavizou seu tempo
Para entalhar-te o rosto
Ensimesmado e lento
Teu rosto como um templo
Voltado para o oriente
Remoto como o nunca
Eterno como o sempre
E que subitamente
Se aclara e movimenta
Como se a chuva e o vento
Cedessem seu momento
À pura claridade
Do sol do amor intenso!
Vinicius de Moraes
Tags: Capital Inicial; Vinícius de Moraes; poder; razão; intenso; paixão; eterno; tentação; longe; atenção
quarta-feira, novembro 23, 2011
Publicidade e arte
Sou daqueles que sempre preferiram os intervalos comerciais aos programas ruins da TV. Um dia já me passou pela cabeça trabalhar com publicidade. Acho que o que me atraía mesmo era a porção arte que ela carrega, mas que a porção comercial.
Não é o caso agora de fazer publicidade ao automóvel em apresentação (mais uma vez, o Júnior Degani indica belezas), mas de ressaltar a arte aí carregada, com tanta suavidade. As imagens ligadas à música maravilhosa contam a arte que os humanos tanto prezam. Aqui, não interessa mais se as vendas aumentarão. Se já estou publicando no meu blog, este vídeo já está cumprindo seu objetivo: ligar coisas belas e que fazem bem ao produto.
Não é o caso agora de fazer publicidade ao automóvel em apresentação (mais uma vez, o Júnior Degani indica belezas), mas de ressaltar a arte aí carregada, com tanta suavidade. As imagens ligadas à música maravilhosa contam a arte que os humanos tanto prezam. Aqui, não interessa mais se as vendas aumentarão. Se já estou publicando no meu blog, este vídeo já está cumprindo seu objetivo: ligar coisas belas e que fazem bem ao produto.
Tags: Peugeot; 308; Salone di Ginevra; Publicidade; Arte
terça-feira, novembro 22, 2011
segunda-feira, novembro 21, 2011
Gifs psicodélicos criados por David Ope
Esse cara faz umas coisas interessantíssimas. Arte em movimento e não é cinema. Bom de olhar, como toda boa arte. [Fui achar isso na Superinteressante, que diga-se de passagem, continua superinteressantíssima]
Veja mais aqui.
Veja mais aqui.
domingo, novembro 20, 2011
Bianca
Esse soneto foi feito pra filha da Marcela Degani, neta do meu irmão Antônio Carlos. Bianca é esperada para Janeiro.
Bianca
Assim que o Sol passar por Janeiro
Carmim e laranja, da cor da paixão
Uma nuvem branca, da cor do algodão
Vai chegar pra abraçar o céu inteiro
Clarinha, clarinha, como miolo de pão
Vai chegar de mansinho, bem devagar
Vai fazer tanta gente rir e chorar
De tanta, mas de tanta emoção
Branca, branquinha, que nem a Lua crescente
Vem ser alegria em sua mais pura descrição
Vem ser forte e linda, vem ser branda e valente
Vem trazer toda a transformação
Que uma menina esperada tão intensamente
Realiza em todos os cantos do coração
sexta-feira, novembro 18, 2011
Earth
Dica do Ugo Degani. Veja em HD.
Earth | Time Lapse View from Space, Fly Over | NASA, ISS from Michael König on Vimeo.
Earth | Time Lapse View from Space, Fly Over | NASA, ISS from Michael König on Vimeo.
Um cara romântico
O Marcelo Spini sempre foi um cara durão. Rústico, como ele sempre dizia. Quer dizer... Era o que ele sempre dizia. Se viajávamos de carro, o dele tinha de ir à frente. Sua moto sempre era a melhor (ainda diz que a sua é mais bonita que a do Júnior Degani). Dava tiros. Virava garrafões. Destruía instalações hidráulicas. Homem-bomba.
Mas outro dia, conversando comigo e com os amigos Junior e Ugo, ele disse que gostava de um filme que eu simplesmente adoro. Completei dizendo que sou doido pela cena final. Ele disse o mesmo e ainda completou que o sorriso da Julia Roberts é algo fora dos parâmetros normais. Concordei na hora.
Na verdade o Marcelo Spini sempre foi um romântico e só agora vai deixando isso ficar claro. Somos românticos e adoramos filmes românticos com a Julia Roberts sorrindo ao som maravilhoso do Elvis Costello.
Mas outro dia, conversando comigo e com os amigos Junior e Ugo, ele disse que gostava de um filme que eu simplesmente adoro. Completei dizendo que sou doido pela cena final. Ele disse o mesmo e ainda completou que o sorriso da Julia Roberts é algo fora dos parâmetros normais. Concordei na hora.
Na verdade o Marcelo Spini sempre foi um romântico e só agora vai deixando isso ficar claro. Somos românticos e adoramos filmes românticos com a Julia Roberts sorrindo ao som maravilhoso do Elvis Costello.
Clique aqui e curta a cena.
Atraso pontual
Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relogio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vêm sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?
Paulo Leminski
adianta consultar o relogio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vêm sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?
Paulo Leminski
quinta-feira, novembro 10, 2011
Conheço a residência da dor
Conheço a residência da dor.
É um lugar afastado,
Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,
Com umas imensas vigílias diante do céu.
A dor não tem nome,
Não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
Nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.
O rosto da dor está voltado sobre um espelho,
Mas não é rosto de corpo,
Nem o seu espelho é do mundo.
Conheço pessoalmente a dor.
A sua residência, longe,
Em caminhos inesperados.
Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores.
E ouço dizer:
"Quem visse, como vês, a dor, já não sofria".
E olho para ela, imensamente.
Conheço há muito tempo a dor.
Conheço-a de perto.
Pessoalmente.
Cecília Meireles
É um lugar afastado,
Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,
Com umas imensas vigílias diante do céu.
A dor não tem nome,
Não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
Nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.
O rosto da dor está voltado sobre um espelho,
Mas não é rosto de corpo,
Nem o seu espelho é do mundo.
Conheço pessoalmente a dor.
A sua residência, longe,
Em caminhos inesperados.
Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores.
E ouço dizer:
"Quem visse, como vês, a dor, já não sofria".
E olho para ela, imensamente.
Conheço há muito tempo a dor.
Conheço-a de perto.
Pessoalmente.
Cecília Meireles
domingo, novembro 06, 2011
O amor
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
Eugénio de Andrade
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
Eugénio de Andrade
Minha mulher
Minha mulher, a solidão,
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é ao coração
Ter este bem que não existe!
Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminhos.
Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só – veste de seda -,
E fala só – leque animado.
FernandoPessoa
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é ao coração
Ter este bem que não existe!
Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminhos.
Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só – veste de seda -,
E fala só – leque animado.
FernandoPessoa
sexta-feira, novembro 04, 2011
Poema em linha reta
Este aqui é para aqueles com alguns "conhecidos que têm sido campeões em tudo"...
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa
terça-feira, novembro 01, 2011
sábado, outubro 29, 2011
sexta-feira, outubro 28, 2011
Na estrada
Essa fui buscar no blog do Júnior Degani. Tem que ouvir olhando pra estrada. Numa viagem.
Tags: Beatles
Tags: Beatles
quinta-feira, outubro 27, 2011
terça-feira, outubro 25, 2011
Ai daqueles
Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram que a mágoa nova
virasse chaga antiga
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é feito pão em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.
Paulo Leminski
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram que a mágoa nova
virasse chaga antiga
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é feito pão em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.
Paulo Leminski
segunda-feira, outubro 24, 2011
Sem amor eu nada seria
No último dia de 2008 publiquei esse post sobre uma música do Legião Urbana. Era último dia de ano e eu estava carregado emocionalmente. Como sempre fico. No post, falo também da Epístola de São Paulo aos Corintios, que é uma peça primorosa que a Bíblia oferece a quem queira ler uma boa literatura e não apenas se fechar em copas.
Nesta sexta-feira, dia 21, ouvi essa prece mais uma vez. A Thais e o Bruno se casavam e o padre a recitou, de uma maneira especial. Fiquei carregado emocionalmente. Como sempre fico. O texto maravilhoso de Paulo, um homem antes de tudo, prático. E talvez, exatamente por essa praticidade, o texto traduz exatamente o que é o amor.
Se você que me lê aqui e agora, se der à paciência de abrir novamente o link do post de 2008, leia a carta de Paulo ouvindo a música de Renato. Talvez você também se carregue emocionalmente. Como sempre fico.
Tags: Bíblia; Legião Urbana; Renato Russo; Camões; Monte Castelo; Amor
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Canção do Amor-Perfeito
Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.
Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.
Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.
Cecília Meireles
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.
Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.
Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.
Cecília Meireles
domingo, outubro 23, 2011
A Cor da Tua Alma
Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.
Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.
A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!
Juan Ramón Jiménez
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.
Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.
A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!
Juan Ramón Jiménez
quarta-feira, outubro 19, 2011
At Last
Aproveitando a dica do Renato Cabral, um vídeo simplesmente emocionante. Se é que você me entende...
Tags: Etta James, Beyonce; R&B; Jazz; Blues; R'n'R
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terça-feira, outubro 18, 2011
A Curva dos Teus Olhos
A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.
Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.
Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluard
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.
Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.
Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluard
segunda-feira, outubro 17, 2011
George Martin, Sean Connery, Jim Carrey
Com essa dica do Ugo Degani, complemento com outra maravilha do produtor George Martin.
Tags: Beatles; Jim Carrey; Sean Connery, George Martin
Tags: Beatles; Jim Carrey; Sean Connery, George Martin
domingo, outubro 16, 2011
Poemeto - IX
nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima
Paulo Leminski
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima
Paulo Leminski
sábado, outubro 15, 2011
Poemeto - VIII
nunca quis ser freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
abaixo os ponteiros
Paulo Leminsky
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
abaixo os ponteiros
Paulo Leminsky
sexta-feira, outubro 14, 2011
Poemeto - VII
Pariso
Novayorquizo
Moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar
Paulo Leminsky
Novayorquizo
Moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar
Paulo Leminsky
O mais-que-perfeito
Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora…)
Ah, quem me dera ir-me!
Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes…
Ah, quem me dera amar-te!
Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado…
Ah, quem me dera ver-te!
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te…
Vinicius de Moraes
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora…)
Ah, quem me dera ir-me!
Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes…
Ah, quem me dera amar-te!
Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado…
Ah, quem me dera ver-te!
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te…
Vinicius de Moraes
Poemeto - VI
uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar ente os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais
Paulo Leminisky
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar ente os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais
Paulo Leminisky
quinta-feira, outubro 06, 2011
Poemeto - V
apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
Paulo Leminsky
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
Paulo Leminsky
Poemeto - III
O paulo leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique
Paulo Leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique
Paulo Leminski
terça-feira, outubro 04, 2011
Poemeto - II
Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.
Paulo Leminsky
O Rio
Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para alguns bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que sente o mesmo
e exigente chamar.
Eu já nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraibeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, também como gente,
não consigo me lembrar
dessas primeiras léguas
de meu caminhar).
Desde tudo que me lembro,
lembro-me bem de que baixava
entre terras de sede
que das margens me vigiavam.
Rio menino, eu temia
aquela grande sede de palha,
grande sede sem fundo
que águas meninas cobiçava.
Por isso é que ao descer
caminho de pedras eu buscava,
que não leito de areia
com suas bocas multiplicadas.
Leito de pedra abaixo
rio menino eu saltava.
Saltei até encontrar
as terras fêmeas da Mata.
caminho do mar.
Para alguns bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que sente o mesmo
e exigente chamar.
Eu já nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraibeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, também como gente,
não consigo me lembrar
dessas primeiras léguas
de meu caminhar).
Desde tudo que me lembro,
lembro-me bem de que baixava
entre terras de sede
que das margens me vigiavam.
Rio menino, eu temia
aquela grande sede de palha,
grande sede sem fundo
que águas meninas cobiçava.
Por isso é que ao descer
caminho de pedras eu buscava,
que não leito de areia
com suas bocas multiplicadas.
Leito de pedra abaixo
rio menino eu saltava.
Saltei até encontrar
as terras fêmeas da Mata.
João Cabral de Melo Neto
sexta-feira, setembro 30, 2011
quarta-feira, setembro 28, 2011
O rock, a Cláudia Leite e meu testículo esquerdo. Por Renato Cabral
Normalmente, quando dou um copy/paste no texto do Cabral pra cá, insiro minhas conjecturas a respeito, mudo a fonte do texto, insiro um vídeo, etc.
Mas desta vez não vai dar. Ele chamou o Fernando Mosca, botou uma ilustração legal, inseriu o vídeo que é trilha sonora e visual do post dele.
Então, faço assim: clique no palavrão abaixo e veja o post original do Renato Cabral. Olha ela aqui: MeusDoisTestículosJuntosDizemQueLedZeppelinÉMelhorQueCláudiaLeite
Tags: Rock in Rio; Led Zeppelin; Cabral; Einstein; Freud
segunda-feira, setembro 26, 2011
Quem Sonha Mais?
Quem sonha mais, vais-me dizer
Aquele que vê o mundo acertado
Ou o que em sonhos se foi perder?
O que é verdadeiro? O que mais será
A mentira que há na realidade
Ou a mentira que em sonhos está?
Quem está da verdade mais distanciado
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?
A pessoa que é um bom conviva, ou esta?
A que se sente um estranho na festa?
Alexander Search
Aquele que vê o mundo acertado
Ou o que em sonhos se foi perder?
O que é verdadeiro? O que mais será
A mentira que há na realidade
Ou a mentira que em sonhos está?
Quem está da verdade mais distanciado
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?
A pessoa que é um bom conviva, ou esta?
A que se sente um estranho na festa?
Alexander Search
domingo, setembro 25, 2011
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
sábado, setembro 24, 2011
Roger Waters + David Gilmour: Comfortably Numb, Live, O2 Arena 2011
No exato momento que David Gilmour aparece, a emoção que emana do público reflete o que nós sentimos. Nós que gostamos disso que está no vídeo. Nós que vivemos isso. Nós que não vivemos isso, mas ainda assim, adoramos isso. Quem está lendo isso aqui e sabe do que eu falo, sabe bem desse emoção. Quem sabe bem dessa emoção, sabe bem de mim.
Clique aqui e saiba do que falo.
Pink Floyd - Comfortably Numb - Pulse
Quando os filhos começam a gostar mais que você daquilo que você sempre gostou, é porque a vida está ficando ainda mais gostosa. Ugo me ensinando coisas que achei que ia ensinar a ele.
quarta-feira, setembro 21, 2011
quinta-feira, setembro 15, 2011
Do que quero
Do que quero renego, se o querê-lo
Me pesa na vontade. Nada que haja
Vale que lhe concedamos
Uma atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho,
Recebo o que me é dado,
E o que falta não quero.
O que me é dado quero
Depois de dado, grato.
Nem quero mais que o dado
Ou que o tido desejo.
Fernando Pessoa
Me pesa na vontade. Nada que haja
Vale que lhe concedamos
Uma atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho,
Recebo o que me é dado,
E o que falta não quero.
O que me é dado quero
Depois de dado, grato.
Nem quero mais que o dado
Ou que o tido desejo.
Fernando Pessoa
quarta-feira, setembro 14, 2011
Atrás não torna
Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.
Fernando Pessoa
Tags: Fernando Pessoa; tempo; passado; presente; futuro
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.
Fernando Pessoa
Tags: Fernando Pessoa; tempo; passado; presente; futuro
terça-feira, setembro 13, 2011
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Tudo quanto penso
Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
Fernando Pessoa
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
Fernando Pessoa
sábado, setembro 10, 2011
sexta-feira, setembro 09, 2011
quarta-feira, setembro 07, 2011
George Harrison and Pattie Boyd
Ela tava aí com o George, mas o Eric Clapton já tava de olho. E captou.
Tags: beatles; harrison; clapton; boyd
Tags: beatles; harrison; clapton; boyd
Queen - Live At Wembley Stadium - Freddie Mercury Day
Esse vídeo é pra aproveitar. Pode ser que os caras tirem daí. Indicação do Ugo Degani.
Tags: queen; mercury; rock; england; coisafina
Tags: queen; mercury; rock; england; coisafina
sábado, setembro 03, 2011
Meus adoráveis desassossegos, por Renato Cabral
Comecei antes dos 21. Comecei na poesia, pois falar nunca foi um dom para mim. Foi coisa que aprendi a sangue e suor. Comecei a escrever pra tentar comunicar o que eu sentia. Fui indo. Me empolguei e quis estudar a coisa. Li os caras. E deu-me o desânimo. Nunca chegaria aos pés de qualquer um deles.
Mas a gente é viciado. Ainda escrevo quando deveria falar. Não falo no momento certo. Me arrependo. E aí, escrevo. E quem sabe, me entendam. Quem escreve sabe.
E aí, leio o texto do Cabral mais uma vez. E deu-me o desânimo. Sei que vou continuar a escrever. A gente é viciado. Mas o texto do cara diz. O Cabral diz. Diz o que nós, que escrevemos, queremos dizer. Eu queria ter dito, mas não fui eu quem disse.
Juntei esse vídeo com a música do Ryuichi Sakamoto, que tem fotografias que eu queria ter feito. Música que eu quis ter feito. Pra servir de fundo prum texto que eu quis ter feito.
Aos 21 comecei a escrever. Tardio e adiado como todo homem sem talento. Estava sempre apressado a arranhar a folha. Era para me ver livre de mim. Fazia de cada risco, um autoflagelo; de cada ponto, meu auto vodu. Na verdade, era o contrário. Os rasgos já habitavam a pele e escrever era costurar a folha. Eu, costureiro de letras, artesão de frases. Meu formão, o dedo; minha agulha, a ponta da língua.
Não revisava o que era expelido porque não dá para voltar atrás num espirro. Minhas letras eram isso: excreções e desatinos. Meu método: abaixar as calças da cuca e fazer força. Quando dava tempo, quando não escorria perna abaixo.
Achava que ruminava, mas era mais mastigado que mascava. Punha o fermento das vísceras para fora achando que me limpava e, dentro da cabeça, mais o mau cheiro brotava entre as orelha. Eu a cada dia mais nojento, porque toda perversão é uma impotência, um jeito de dar conta do avesso. E a pastinha de arquivos ia inchando.
Ainda assim, tinha algo de essencial em escrever. Mesmo sem a inteligência farta, mesmo sem o esforço que transpirava, escrevia como se disso dependesse a vida, mesmo que não dependesse disso para viver. Porque nunca fui bom o bastante. E todo tapa nas costas era um tapa na cara e uma vergonha.
Tentei parar. Tentei ler. Fui aos clássicos e aos subúrbios. Abria as páginas pelo meio. Ignorava índices, preâmbulos. Mas dos livros, só encontrava desassossegos, tudo aquilo que sempre me fez companhia. Não os desesperos que precedem tragédias ou as dores. Mas o pior deles: o desespero de se ver pairando frente as brechas sem poder atravessá-las. O desespero de ter a consciência e não poder lançar o dardo, ferir qualquer inimigo. O desespero que desperta e não derruba da cama. O desespero de sucumbir asfixiado pela tosse alheia. O desespero que fixa o membro adormecido ao sofá e amputa qualquer movimento. O desespero de ver a dose de urgência pingando homeopaticamente, sem nunca chegar à paralisia terminal. O desespero do quando muito, muito pouco.
Daí, um dia, mexendo na absurda simplicidade dos títulos de meus textos, de tantas coisas sem viço, de tantas bobagens que se mascaravam de viscerais, disse chega. Queria a cura. Queria não depender das muletas dos parágrafos, do soro da semântica, nem das pontes atadas entre hiatos. Mas o grito do ruminante não ecoou. Porque, por ter passado a vida como um acanhado, meu gemido trincava mais os dentes que as janelas. Era sempre um grito para dentro, dentro da jaula.
Na carne crua da mente, o cheiro de algo podre, e os carniceiros a retirar as últimas sobras da sanidade. No escuro, os bons-dias fumegantes das baias a me tomar qualquer chance de fuga, como almas penadas a me avisar que eu também era portador da mediocridade dos dias. Em cada arroto evitado, uma condenação. Na esperança teimosa, tão cristã, que me deram junto ao mingau quando criança e pela vida toda, uma corrente de mil elos. E a vida mínima, aquela tolerável, a das liquidações, a da pechincha, a um passo além, sempre a escapar.
E de lamento em lamento, de rancor em rancor, eu me derretia em cada folha. Elas cheias. Eu faltando fora. Meu abrigo com um guarda-chuva a apontar para o raio. Correram-se as páginas, os anos e os malditos reflexos das folhas quase brancas. A cabeça já curvada não pela força das opressões, mas pelo amontoado de ideias a serem enterradas, pelas ousadias apagadas, pela hipocrisia assumida em tantos “um dia irei fazer, irei fugir, irei dizer não, irei dizer sim”.
Cada chicotada a me arrancar o afeto sem me retirar a direção do pasto. Meu semblante desfeito por pancadas, mas os pulsos firmes, a segurar a pedra na mesma posição; o castigo de empurrar a roda sem fim, sem tropeço. Às vezes até via minha gaiola aberta. Mas o animal peçonhento que deveria ter me tornado se domesticou com a comida fácil. Fiquei gordo e satisfeito de preguiça de partir e urrar. Nos olhos resignados a cada gole, uma mentira e um bocejo. Minha rapina como um adorno sem graça até para os caçadores.
Percorri as escrituras de quem realmente era bom. Busquei inspiração em tudo para tornar minha mente ereta, para ver se, assim, minha espinha também se erguia e, assim, eu tirava a cara da lama, desse abismo a fitar o céu. Mas como pesa ter visto coisas demais tão cedo, ter tido na pele tantos rabiscos. Mas todos temos, eu sei. E por isso todos andam tão tortos.
Queria a pá para tampar esse buraco que não se enche e não tem fundo; de onde não se pode cair nem saltar. E a cada monte de terra, enchia a cara de pó. Eu a me enterrar vivo. Ali, na margem onde é costurado e desfeito o abismo, só o desespero de estar do mesmo jeito: na iminência da queda desastrosa e do passo salvador; à espera do empurrão ou do susto que nunca chegam. Eu, nem ponte nem travessia. Eu, como um ruminante cego em frente a uma porteira que não existe… sem pastar, sem atravessar.
Procurei então em cada página do meu passado o grito de raiva que poderia, enfim, realizar minha missão humana: enlouquecer, virar um bicho, fugir, voar, quebrar os muros, me suicidar ou qualquer coisa que trouxesse dias mais livres ou mais leves. Mas tudo já faltava. Até a vontade de morrer. Menos a vontade de escrever morria.
Mas nem eu entendia o que escrevia. Eu achando que era epifania quando na verdade era disenteria de uma alma colérica. E o que sobrou, o que ficou, não foram os feitos ou a memória malcheirosa das coisas deixadas pela metade. Restou a certeza de que mesmo diante de todos os esforços para quebrar os muros e abrir os livros, ainda sim o que podemos ver do outro lado são apenas míseros platôs, a permanência inexorável da falta de sentido grudada ao cheiro desta náusea de todos os dias. Porque a única coisa que pode salvar uma alma neste mundo não é a fé, a diversão ou o esquecimento, mas a sorte ou um amor. Mas os amores se vão e a sorte nunca vem. Porque viver é um azar, mas ter sorte é um milagre. Que o tempo que me roeu a folha não me coma os versos. E que minha lágrima que não dorme mate minha sede que não chora, tudo enquanto me pergunto de onde vem todas essas linhas que saem de meus olhos. Que minha tinta não seque antes do ponto final.
Renato Cabral
quinta-feira, setembro 01, 2011
Índios
(...)
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do inicio ao fim
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
(...)
Tags: Legião Urbana; Índios; saudade; vício; vocêdevoltapramim; sangrei
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do inicio ao fim
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
(...)
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Dizem...
Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.
Fazem?
Fatal.
Não Fazem?
Igual.
Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.
Fernando Pessoa
Tags: Pessoa; Poesia; Portuguesa; Sonhar.
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.
Fazem?
Fatal.
Não Fazem?
Igual.
Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.
Fernando Pessoa
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