NO MUNDO DOS BLOGS. Todo mundo está se ligando, se conectando, se blogando. Os sinais de fumaça, os tambores, os pombos-correio, as cartas de papel, os telefonemas. Os blogs. Para começar, para ver como é que fica, vamos falar de tudo...
sábado, outubro 29, 2011
sexta-feira, outubro 28, 2011
Na estrada
Essa fui buscar no blog do Júnior Degani. Tem que ouvir olhando pra estrada. Numa viagem.
Tags: Beatles
Tags: Beatles
quinta-feira, outubro 27, 2011
terça-feira, outubro 25, 2011
Ai daqueles
Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram que a mágoa nova
virasse chaga antiga
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é feito pão em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.
Paulo Leminski
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram que a mágoa nova
virasse chaga antiga
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é feito pão em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.
Paulo Leminski
segunda-feira, outubro 24, 2011
Sem amor eu nada seria
No último dia de 2008 publiquei esse post sobre uma música do Legião Urbana. Era último dia de ano e eu estava carregado emocionalmente. Como sempre fico. No post, falo também da Epístola de São Paulo aos Corintios, que é uma peça primorosa que a Bíblia oferece a quem queira ler uma boa literatura e não apenas se fechar em copas.
Nesta sexta-feira, dia 21, ouvi essa prece mais uma vez. A Thais e o Bruno se casavam e o padre a recitou, de uma maneira especial. Fiquei carregado emocionalmente. Como sempre fico. O texto maravilhoso de Paulo, um homem antes de tudo, prático. E talvez, exatamente por essa praticidade, o texto traduz exatamente o que é o amor.
Se você que me lê aqui e agora, se der à paciência de abrir novamente o link do post de 2008, leia a carta de Paulo ouvindo a música de Renato. Talvez você também se carregue emocionalmente. Como sempre fico.
Tags: Bíblia; Legião Urbana; Renato Russo; Camões; Monte Castelo; Amor
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Poemas de lavra própria
Canção do Amor-Perfeito
Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.
Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.
Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.
Cecília Meireles
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.
Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.
Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.
Cecília Meireles
domingo, outubro 23, 2011
A Cor da Tua Alma
Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.
Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.
A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!
Juan Ramón Jiménez
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.
Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.
A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!
Juan Ramón Jiménez
quarta-feira, outubro 19, 2011
At Last
Aproveitando a dica do Renato Cabral, um vídeo simplesmente emocionante. Se é que você me entende...
Tags: Etta James, Beyonce; R&B; Jazz; Blues; R'n'R
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terça-feira, outubro 18, 2011
A Curva dos Teus Olhos
A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.
Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.
Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluard
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.
Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.
Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluard
segunda-feira, outubro 17, 2011
George Martin, Sean Connery, Jim Carrey
Com essa dica do Ugo Degani, complemento com outra maravilha do produtor George Martin.
Tags: Beatles; Jim Carrey; Sean Connery, George Martin
Tags: Beatles; Jim Carrey; Sean Connery, George Martin
domingo, outubro 16, 2011
Poemeto - IX
nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima
Paulo Leminski
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima
Paulo Leminski
sábado, outubro 15, 2011
Poemeto - VIII
nunca quis ser freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
abaixo os ponteiros
Paulo Leminsky
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
abaixo os ponteiros
Paulo Leminsky
sexta-feira, outubro 14, 2011
Poemeto - VII
Pariso
Novayorquizo
Moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar
Paulo Leminsky
Novayorquizo
Moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar
Paulo Leminsky
O mais-que-perfeito
Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora…)
Ah, quem me dera ir-me!
Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes…
Ah, quem me dera amar-te!
Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado…
Ah, quem me dera ver-te!
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te…
Vinicius de Moraes
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora…)
Ah, quem me dera ir-me!
Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes…
Ah, quem me dera amar-te!
Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado…
Ah, quem me dera ver-te!
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te…
Vinicius de Moraes
Poemeto - VI
uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar ente os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais
Paulo Leminisky
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar ente os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais
Paulo Leminisky
quinta-feira, outubro 06, 2011
Poemeto - V
apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
Paulo Leminsky
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
Paulo Leminsky
Poemeto - III
O paulo leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique
Paulo Leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique
Paulo Leminski
terça-feira, outubro 04, 2011
Poemeto - II
Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.
Paulo Leminsky
O Rio
Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para alguns bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que sente o mesmo
e exigente chamar.
Eu já nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraibeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, também como gente,
não consigo me lembrar
dessas primeiras léguas
de meu caminhar).
Desde tudo que me lembro,
lembro-me bem de que baixava
entre terras de sede
que das margens me vigiavam.
Rio menino, eu temia
aquela grande sede de palha,
grande sede sem fundo
que águas meninas cobiçava.
Por isso é que ao descer
caminho de pedras eu buscava,
que não leito de areia
com suas bocas multiplicadas.
Leito de pedra abaixo
rio menino eu saltava.
Saltei até encontrar
as terras fêmeas da Mata.
caminho do mar.
Para alguns bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que sente o mesmo
e exigente chamar.
Eu já nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraibeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, também como gente,
não consigo me lembrar
dessas primeiras léguas
de meu caminhar).
Desde tudo que me lembro,
lembro-me bem de que baixava
entre terras de sede
que das margens me vigiavam.
Rio menino, eu temia
aquela grande sede de palha,
grande sede sem fundo
que águas meninas cobiçava.
Por isso é que ao descer
caminho de pedras eu buscava,
que não leito de areia
com suas bocas multiplicadas.
Leito de pedra abaixo
rio menino eu saltava.
Saltei até encontrar
as terras fêmeas da Mata.
João Cabral de Melo Neto
sexta-feira, setembro 30, 2011
quarta-feira, setembro 28, 2011
O rock, a Cláudia Leite e meu testículo esquerdo. Por Renato Cabral
Normalmente, quando dou um copy/paste no texto do Cabral pra cá, insiro minhas conjecturas a respeito, mudo a fonte do texto, insiro um vídeo, etc.
Mas desta vez não vai dar. Ele chamou o Fernando Mosca, botou uma ilustração legal, inseriu o vídeo que é trilha sonora e visual do post dele.
Então, faço assim: clique no palavrão abaixo e veja o post original do Renato Cabral. Olha ela aqui: MeusDoisTestículosJuntosDizemQueLedZeppelinÉMelhorQueCláudiaLeite
Tags: Rock in Rio; Led Zeppelin; Cabral; Einstein; Freud
segunda-feira, setembro 26, 2011
Quem Sonha Mais?
Quem sonha mais, vais-me dizer
Aquele que vê o mundo acertado
Ou o que em sonhos se foi perder?
O que é verdadeiro? O que mais será
A mentira que há na realidade
Ou a mentira que em sonhos está?
Quem está da verdade mais distanciado
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?
A pessoa que é um bom conviva, ou esta?
A que se sente um estranho na festa?
Alexander Search
Aquele que vê o mundo acertado
Ou o que em sonhos se foi perder?
O que é verdadeiro? O que mais será
A mentira que há na realidade
Ou a mentira que em sonhos está?
Quem está da verdade mais distanciado
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?
A pessoa que é um bom conviva, ou esta?
A que se sente um estranho na festa?
Alexander Search
domingo, setembro 25, 2011
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
sábado, setembro 24, 2011
Roger Waters + David Gilmour: Comfortably Numb, Live, O2 Arena 2011
No exato momento que David Gilmour aparece, a emoção que emana do público reflete o que nós sentimos. Nós que gostamos disso que está no vídeo. Nós que vivemos isso. Nós que não vivemos isso, mas ainda assim, adoramos isso. Quem está lendo isso aqui e sabe do que eu falo, sabe bem desse emoção. Quem sabe bem dessa emoção, sabe bem de mim.
Clique aqui e saiba do que falo.
Pink Floyd - Comfortably Numb - Pulse
Quando os filhos começam a gostar mais que você daquilo que você sempre gostou, é porque a vida está ficando ainda mais gostosa. Ugo me ensinando coisas que achei que ia ensinar a ele.
quarta-feira, setembro 21, 2011
quinta-feira, setembro 15, 2011
Do que quero
Do que quero renego, se o querê-lo
Me pesa na vontade. Nada que haja
Vale que lhe concedamos
Uma atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho,
Recebo o que me é dado,
E o que falta não quero.
O que me é dado quero
Depois de dado, grato.
Nem quero mais que o dado
Ou que o tido desejo.
Fernando Pessoa
Me pesa na vontade. Nada que haja
Vale que lhe concedamos
Uma atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho,
Recebo o que me é dado,
E o que falta não quero.
O que me é dado quero
Depois de dado, grato.
Nem quero mais que o dado
Ou que o tido desejo.
Fernando Pessoa
quarta-feira, setembro 14, 2011
Atrás não torna
Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.
Fernando Pessoa
Tags: Fernando Pessoa; tempo; passado; presente; futuro
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.
Fernando Pessoa
Tags: Fernando Pessoa; tempo; passado; presente; futuro
terça-feira, setembro 13, 2011
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Tudo quanto penso
Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
Fernando Pessoa
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
Fernando Pessoa
sábado, setembro 10, 2011
sexta-feira, setembro 09, 2011
quarta-feira, setembro 07, 2011
George Harrison and Pattie Boyd
Ela tava aí com o George, mas o Eric Clapton já tava de olho. E captou.
Tags: beatles; harrison; clapton; boyd
Tags: beatles; harrison; clapton; boyd
Queen - Live At Wembley Stadium - Freddie Mercury Day
Esse vídeo é pra aproveitar. Pode ser que os caras tirem daí. Indicação do Ugo Degani.
Tags: queen; mercury; rock; england; coisafina
Tags: queen; mercury; rock; england; coisafina
sábado, setembro 03, 2011
Meus adoráveis desassossegos, por Renato Cabral
Comecei antes dos 21. Comecei na poesia, pois falar nunca foi um dom para mim. Foi coisa que aprendi a sangue e suor. Comecei a escrever pra tentar comunicar o que eu sentia. Fui indo. Me empolguei e quis estudar a coisa. Li os caras. E deu-me o desânimo. Nunca chegaria aos pés de qualquer um deles.
Mas a gente é viciado. Ainda escrevo quando deveria falar. Não falo no momento certo. Me arrependo. E aí, escrevo. E quem sabe, me entendam. Quem escreve sabe.
E aí, leio o texto do Cabral mais uma vez. E deu-me o desânimo. Sei que vou continuar a escrever. A gente é viciado. Mas o texto do cara diz. O Cabral diz. Diz o que nós, que escrevemos, queremos dizer. Eu queria ter dito, mas não fui eu quem disse.
Juntei esse vídeo com a música do Ryuichi Sakamoto, que tem fotografias que eu queria ter feito. Música que eu quis ter feito. Pra servir de fundo prum texto que eu quis ter feito.
Aos 21 comecei a escrever. Tardio e adiado como todo homem sem talento. Estava sempre apressado a arranhar a folha. Era para me ver livre de mim. Fazia de cada risco, um autoflagelo; de cada ponto, meu auto vodu. Na verdade, era o contrário. Os rasgos já habitavam a pele e escrever era costurar a folha. Eu, costureiro de letras, artesão de frases. Meu formão, o dedo; minha agulha, a ponta da língua.
Não revisava o que era expelido porque não dá para voltar atrás num espirro. Minhas letras eram isso: excreções e desatinos. Meu método: abaixar as calças da cuca e fazer força. Quando dava tempo, quando não escorria perna abaixo.
Achava que ruminava, mas era mais mastigado que mascava. Punha o fermento das vísceras para fora achando que me limpava e, dentro da cabeça, mais o mau cheiro brotava entre as orelha. Eu a cada dia mais nojento, porque toda perversão é uma impotência, um jeito de dar conta do avesso. E a pastinha de arquivos ia inchando.
Ainda assim, tinha algo de essencial em escrever. Mesmo sem a inteligência farta, mesmo sem o esforço que transpirava, escrevia como se disso dependesse a vida, mesmo que não dependesse disso para viver. Porque nunca fui bom o bastante. E todo tapa nas costas era um tapa na cara e uma vergonha.
Tentei parar. Tentei ler. Fui aos clássicos e aos subúrbios. Abria as páginas pelo meio. Ignorava índices, preâmbulos. Mas dos livros, só encontrava desassossegos, tudo aquilo que sempre me fez companhia. Não os desesperos que precedem tragédias ou as dores. Mas o pior deles: o desespero de se ver pairando frente as brechas sem poder atravessá-las. O desespero de ter a consciência e não poder lançar o dardo, ferir qualquer inimigo. O desespero que desperta e não derruba da cama. O desespero de sucumbir asfixiado pela tosse alheia. O desespero que fixa o membro adormecido ao sofá e amputa qualquer movimento. O desespero de ver a dose de urgência pingando homeopaticamente, sem nunca chegar à paralisia terminal. O desespero do quando muito, muito pouco.
Daí, um dia, mexendo na absurda simplicidade dos títulos de meus textos, de tantas coisas sem viço, de tantas bobagens que se mascaravam de viscerais, disse chega. Queria a cura. Queria não depender das muletas dos parágrafos, do soro da semântica, nem das pontes atadas entre hiatos. Mas o grito do ruminante não ecoou. Porque, por ter passado a vida como um acanhado, meu gemido trincava mais os dentes que as janelas. Era sempre um grito para dentro, dentro da jaula.
Na carne crua da mente, o cheiro de algo podre, e os carniceiros a retirar as últimas sobras da sanidade. No escuro, os bons-dias fumegantes das baias a me tomar qualquer chance de fuga, como almas penadas a me avisar que eu também era portador da mediocridade dos dias. Em cada arroto evitado, uma condenação. Na esperança teimosa, tão cristã, que me deram junto ao mingau quando criança e pela vida toda, uma corrente de mil elos. E a vida mínima, aquela tolerável, a das liquidações, a da pechincha, a um passo além, sempre a escapar.
E de lamento em lamento, de rancor em rancor, eu me derretia em cada folha. Elas cheias. Eu faltando fora. Meu abrigo com um guarda-chuva a apontar para o raio. Correram-se as páginas, os anos e os malditos reflexos das folhas quase brancas. A cabeça já curvada não pela força das opressões, mas pelo amontoado de ideias a serem enterradas, pelas ousadias apagadas, pela hipocrisia assumida em tantos “um dia irei fazer, irei fugir, irei dizer não, irei dizer sim”.
Cada chicotada a me arrancar o afeto sem me retirar a direção do pasto. Meu semblante desfeito por pancadas, mas os pulsos firmes, a segurar a pedra na mesma posição; o castigo de empurrar a roda sem fim, sem tropeço. Às vezes até via minha gaiola aberta. Mas o animal peçonhento que deveria ter me tornado se domesticou com a comida fácil. Fiquei gordo e satisfeito de preguiça de partir e urrar. Nos olhos resignados a cada gole, uma mentira e um bocejo. Minha rapina como um adorno sem graça até para os caçadores.
Percorri as escrituras de quem realmente era bom. Busquei inspiração em tudo para tornar minha mente ereta, para ver se, assim, minha espinha também se erguia e, assim, eu tirava a cara da lama, desse abismo a fitar o céu. Mas como pesa ter visto coisas demais tão cedo, ter tido na pele tantos rabiscos. Mas todos temos, eu sei. E por isso todos andam tão tortos.
Queria a pá para tampar esse buraco que não se enche e não tem fundo; de onde não se pode cair nem saltar. E a cada monte de terra, enchia a cara de pó. Eu a me enterrar vivo. Ali, na margem onde é costurado e desfeito o abismo, só o desespero de estar do mesmo jeito: na iminência da queda desastrosa e do passo salvador; à espera do empurrão ou do susto que nunca chegam. Eu, nem ponte nem travessia. Eu, como um ruminante cego em frente a uma porteira que não existe… sem pastar, sem atravessar.
Procurei então em cada página do meu passado o grito de raiva que poderia, enfim, realizar minha missão humana: enlouquecer, virar um bicho, fugir, voar, quebrar os muros, me suicidar ou qualquer coisa que trouxesse dias mais livres ou mais leves. Mas tudo já faltava. Até a vontade de morrer. Menos a vontade de escrever morria.
Mas nem eu entendia o que escrevia. Eu achando que era epifania quando na verdade era disenteria de uma alma colérica. E o que sobrou, o que ficou, não foram os feitos ou a memória malcheirosa das coisas deixadas pela metade. Restou a certeza de que mesmo diante de todos os esforços para quebrar os muros e abrir os livros, ainda sim o que podemos ver do outro lado são apenas míseros platôs, a permanência inexorável da falta de sentido grudada ao cheiro desta náusea de todos os dias. Porque a única coisa que pode salvar uma alma neste mundo não é a fé, a diversão ou o esquecimento, mas a sorte ou um amor. Mas os amores se vão e a sorte nunca vem. Porque viver é um azar, mas ter sorte é um milagre. Que o tempo que me roeu a folha não me coma os versos. E que minha lágrima que não dorme mate minha sede que não chora, tudo enquanto me pergunto de onde vem todas essas linhas que saem de meus olhos. Que minha tinta não seque antes do ponto final.
Renato Cabral
quinta-feira, setembro 01, 2011
Índios
(...)
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do inicio ao fim
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
(...)
Tags: Legião Urbana; Índios; saudade; vício; vocêdevoltapramim; sangrei
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do inicio ao fim
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
(...)
Tags: Legião Urbana; Índios; saudade; vício; vocêdevoltapramim; sangrei
Dizem...
Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.
Fazem?
Fatal.
Não Fazem?
Igual.
Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.
Fernando Pessoa
Tags: Pessoa; Poesia; Portuguesa; Sonhar.
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.
Fazem?
Fatal.
Não Fazem?
Igual.
Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.
Fernando Pessoa
Tags: Pessoa; Poesia; Portuguesa; Sonhar.
quarta-feira, agosto 31, 2011
Together
Um povão bom demais junto...
Tags: bb king; slash; simply red; mick hucknall; ron wood; derek trucks
Tags: bb king; slash; simply red; mick hucknall; ron wood; derek trucks
Soneto – XC
Pensei morrer, senti de perto o frio,
E de quanto vivi só a ti deixava:
Tua boca era meu dia e minha noite terrestres
E tua pele a república fundada por meus beijos.
Nesse instante terminaram os livros,
A amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
A casa transparente que tu e eu construímos:
Tudo deixou de ser, menos teus olhos.
Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
É simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
Mas quando a morte vem tocar a porta
Há teu olhar apenas para tanto vazio,
Só tua claridade para não seguir sendo,
Só teu amor para fechar a sombra.
Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor
E de quanto vivi só a ti deixava:
Tua boca era meu dia e minha noite terrestres
E tua pele a república fundada por meus beijos.
Nesse instante terminaram os livros,
A amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
A casa transparente que tu e eu construímos:
Tudo deixou de ser, menos teus olhos.
Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
É simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
Mas quando a morte vem tocar a porta
Há teu olhar apenas para tanto vazio,
Só tua claridade para não seguir sendo,
Só teu amor para fechar a sombra.
Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor
sábado, agosto 27, 2011
Get Back - Original Studio Version
Esse eu peguei emprestado do blog do meu primo-irmão Júnior Degani.
Tags: Beatles; Lennon; McCartney; Harrison; Star; GetBack
Tags: Beatles; Lennon; McCartney; Harrison; Star; GetBack
Jobs
O cara tem trabalho no nome. E isso, o trabalho, nunca foi dor para ele. Sempre foi diversão. Mas seu nome não poderia ser Steve Funs. Tinha de ser Steve Jobs mesmo, pois isso sempre foi seu motivador. Imaginação, criatividade, fazer coisas diferentes nas mais simples e óbvias.
Há uns anos, usei seu discurso em Stanford como base para um meu numa turma querida de Administração da ESAMC. Tempos depois, recebi retornos positivos de pessoas que estavam na platéia sobre o tema e que nem se lembravam que era eu quem tinha falado dele. Lembravam do tema de Steve Jobs, mas não de quem o citou. Ótimo. Essa era a ideia.
Agora, o cara sai da cena. Sai da Apple. só isso, na verdade. Steve Jobes sai da Apple para entrar na História, de onde ele sempre esteve desde que se fala em computadores, em integração de informações, em produtos de alto nível em todos os sentidos. Ugo Degani tem razão. Steve Jobs é o cara.
Há uns anos, usei seu discurso em Stanford como base para um meu numa turma querida de Administração da ESAMC. Tempos depois, recebi retornos positivos de pessoas que estavam na platéia sobre o tema e que nem se lembravam que era eu quem tinha falado dele. Lembravam do tema de Steve Jobs, mas não de quem o citou. Ótimo. Essa era a ideia.
Agora, o cara sai da cena. Sai da Apple. só isso, na verdade. Steve Jobes sai da Apple para entrar na História, de onde ele sempre esteve desde que se fala em computadores, em integração de informações, em produtos de alto nível em todos os sentidos. Ugo Degani tem razão. Steve Jobs é o cara.
quinta-feira, agosto 25, 2011
domingo, agosto 21, 2011
Como te amo?
Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido – quando
perdi os meus santos – amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.
Elizabeth Barrett Browning
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido – quando
perdi os meus santos – amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.
Elizabeth Barrett Browning
Bibo No Aozora
Tema do filme Babel com Cate Blanchett, Brad Pitt e Gael Garcia Bernal. Direção de Alejandro González-Iñárritu.
quinta-feira, agosto 18, 2011
A uma mulher amada
Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala… eu quase morro … eu tremo.
Safo
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala… eu quase morro … eu tremo.
Safo
quinta-feira, agosto 04, 2011
Enrubescida
Daqui, do que vejo do céu
Dali, uma nesga de Lua
Assim vermelha
Quase sangue
Exangue
Virada pra cima
Pernas abertas
Lua rubra
Enrubescida de vontade
Daqui, do que vejo do quarto
Dali, no branco lençol
Assim espelha
Quase lida
Umedecida
Vidrada na sina
Páginas abertas
Rosa rubra
Enrubescida de verdade
Dali, uma nesga de Lua
Assim vermelha
Quase sangue
Exangue
Virada pra cima
Pernas abertas
Lua rubra
Enrubescida de vontade
Daqui, do que vejo do quarto
Dali, no branco lençol
Assim espelha
Quase lida
Umedecida
Vidrada na sina
Páginas abertas
Rosa rubra
Enrubescida de verdade
Mulher Nua
Humana fonte bela,
repuxo de delícia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
sem estes assombrados olhos meus,
que completavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?
(Estios; verdes frondas,
águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo,
calor e amor, mulher nua!)
Limite exacto da vida,
perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza,
mulher nua: um dia,
quebrar-se-á a minha linha de homem,
terei que difundir-me
na natureza abstracta;
não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes,
concreta eternidade!
Juan Ramón Jiménez
repuxo de delícia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
sem estes assombrados olhos meus,
que completavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?
(Estios; verdes frondas,
águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo,
calor e amor, mulher nua!)
Limite exacto da vida,
perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza,
mulher nua: um dia,
quebrar-se-á a minha linha de homem,
terei que difundir-me
na natureza abstracta;
não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes,
concreta eternidade!
Juan Ramón Jiménez
quarta-feira, agosto 03, 2011
domingo, julho 31, 2011
Fatalismo
Amo o que em ti há de trágico. De mau.
De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.
A tua forma de olhar. O teu riso fingido
e cristalino.
Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.
A tua mão insegura
na mentira dos teus gestos.
Amo o teu corpo de maçã madura.
Amo o silêncio perpendicular do teu contato
A fúria incontrolável da maré
nas ondas vaginais do teu orgasmo.
E esta tua ausência
Este não-ser que é
Manuela Amaral
De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.
A tua forma de olhar. O teu riso fingido
e cristalino.
Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.
A tua mão insegura
na mentira dos teus gestos.
Amo o teu corpo de maçã madura.
Amo o silêncio perpendicular do teu contato
A fúria incontrolável da maré
nas ondas vaginais do teu orgasmo.
E esta tua ausência
Este não-ser que é
Manuela Amaral
sábado, julho 30, 2011
Hey Jude
Por indicação do Luciano Araújo, posto esse vídeo aqui. Nenhuma novidade postar vídeo dos Beatles. Mas queria que você reparasse nos detalhes. Aqueles, estampados nos olhos destas pessoas que participaram no palco.
Quantos deles já se foram, assim como John e George? Quantos se deram bem na vida? Quantos estão tristes? Quantos encontraram a razão de suas vidas?
Mas a certeza é que aqueles que se foram e aqueles que ainda estão por aqui tiveram/têm uma lembrança maravilhosa pra guardar. Pra essa e pra outras vidas que venham viver. Momentos efêmeros e maravilhosos que todos eles guardaram em suas mentes e em seus corações.
Quantos deles já se foram, assim como John e George? Quantos se deram bem na vida? Quantos estão tristes? Quantos encontraram a razão de suas vidas?
Mas a certeza é que aqueles que se foram e aqueles que ainda estão por aqui tiveram/têm uma lembrança maravilhosa pra guardar. Pra essa e pra outras vidas que venham viver. Momentos efêmeros e maravilhosos que todos eles guardaram em suas mentes e em seus corações.
A uma mulher amada
Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala… eu quase morro … eu tremo.
Safo
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala… eu quase morro … eu tremo.
Safo
quinta-feira, julho 28, 2011
E eu achando que era amor - por Renato Cabral
Eu queria ter escrito algo aqui, pra efeito de preâmbulo, como sempre faço nos textos do Cabral aqui publicados, mas vou ficar com umtrecho do próprio texto, que destaco: "Mas esta história não é só minha. Esta é a história de todos nós, desses anônimos que movimentam os bares, os jardins e os cemitérios, porque até os suicidas querem ser felizes."
E eu achando que era amor.
Como começar um texto, que ao final, será uma declaração de amor, brega e inconstante?
Talvez do mesmo modo como um amor começa: de uma vez, daquele jeito que não conseguimos saber mais onde um deu a mão e o outro estendeu a dele. Deve ser por isso que tantos dizem que é da espontaneidade que nascem os melhores sorrisos e os melhores tropeços. Ela me derrubou. E estou rindo aqui do chão.
Mas esta história não é só minha. Esta é a história de todos nós, desses anônimos que movimentam os bares, os jardins e os cemitérios, porque até os suicidas querem ser felizes. É a história desses tantos que se esbarram pelas esquinas ou se encontram nos balcões por aí. As coisas sempre dando seu testemunho dos nossos melhores acasos. E nós como os alvos desavisados de cupidos incansáveis.
É que ela me acertou com a beirada da coxa e uma frase de humor. Primeiro o joelho, depois a franja dançando sobre os olhos. Foi o bastante para o álcool do corpo ir para alma. Fiquei bêbado num estalo. E os bêbados são tolos, mas não são mentirosos. Meu sorriso entregava minha dissimulação. Eu tentando pajear minha falta de jeito, tentando me fazer maior e mais interessante, e os dentes contando que eu já estava de joelhos, voluntariamente preso a tudo aquilo quando ela mexia os cabelos. E nos beijamos. O beijo dela como um abraço de lábios, que durava mesmo quando ela já não estava.
O tempo passava e entre um encontro e outro tinha aquela coisa que colava o último momento no próximo. Eu achava que era saudade. E isso virou meu jeito de visitar o dia não mais com esperanças tolas e expectativas além do alcance dos braços, mas livre de tudo que não fosse só o essencial. E o essencial era já não precisar de nada a não ser ela, porque ela trazia tudo.
Seu jeito de me fazer importante, mas desnecessário, era o motivo que mantinha minhas cambalhotas no picadeiro, tudo para fazê-la continuar brilhando os olhos. Porque são os cílios, vocês sabem, os delatores dos que estão apaixonados. São esses pequenos braços que acariciam a bochecha do outro. E os meus ganharam os dela num beijo de olho.
Seu sorriso era mais obsceno que qualquer decote. Eu a namorando sem ela saber, fosse comprando um ingresso para o cinema, fosse pedindo por ela antes de dormir. Fosse aceitando em mim que ela ainda tinha outros e que ainda não era só minha. E por isso, conquistá-la tinha tanto sabor.
Em casa ela fazia outra de suas mágicas. Conseguia tornar todos os cômodos em quarto. E todo canto era uma desculpa para o sexo. Nossa fantasia era aquela que se vestia num abraço. Simples assim. Nos encostávamos e isso bastava. A ansiedade por ela tinha cheiro de coisa boa, era vontade de ficar por perto. E essa gana, era nosso jeito de nos ver de novo, mesmo longe.
Eu me distraia nas suas tatuagens. E ela achava que eu era muito baixinho. Deboche que mascarava o que ela também estampava na bochecha, vermelha, também quente de vontade. Eu não gostava das suas rasteirinhas e ela não gostava de ter os pés longe do chão, mas os braços estendidos ao céu mostravam que ela queria era voar. Era livre como poucas. E na impossibilidade de voar junto, porque já tinha por demais o peso do mundo nos ombros, me tornei lugar de pouso, de onde ela ia e vinha quando queria. Era a nossa fidelidade jurada sem palavras. Fiel ao outro sem nunca pedir nada em troca.
E para ela dei tudo, até aquilo que nunca gostei em mim. Era meu jeito de dizer que ao seu lado, estava em casa e até minhas pequenezas ficavam mais interessantes. Com ela, perdi a vergonha de ficar louco. E por não me negar mais, nunca mais falei sozinho nem joguei pedras no mundo. Aprendi que as lágrimas podem esperar quando a prioridade é ser alegre. Depois disso, não parei mais de sorrir. Como nas boas histórias, ainda não consigo prever o final deste filme. Porque de tão presente na narrativa, ela se tornou minha própria vida.
Por não termos saída um para outro, vivemos todos os dias nossa impossibilidade de fuga. E, assim, tenho aprendido que nossa relação não tem fim, porque se a paixão pode morrer ou se transformar em tanta coisa, até no desgosto, o amor só pode virar a eternidade. Mas aí, quando eu achava que era amor, ela veio e me disse: “Um afeto tão novo, tão irreconhecível. Te tenho como minha nuvem, que muda de forma a cada instante. Melhor esse afeto não ter nome para não significar nada e dar sentido a tudo”.
Para você, então, meu motivo, já posso agora te contar. Saudade não é sentir a falta de alguém ausente. Saudade é quando você encontra aquela pessoa e ao abraçá-la, descobre, repentinamente, naquele momento mesmo, como ela fazia falta. É por isso que a saudade só é possível com o amor. É por isso que te esperei a vida inteira. E é isso que sinto todos os dias quanto te vejo e te abraço. Não fique longe. Porque com você ausente, minha saudade morre. E meu amor também. Porque para nós, melhor que eu te amo é tenho saudade de você.
Renato Cabral
E eu achando que era amor.
Como começar um texto, que ao final, será uma declaração de amor, brega e inconstante?
Talvez do mesmo modo como um amor começa: de uma vez, daquele jeito que não conseguimos saber mais onde um deu a mão e o outro estendeu a dele. Deve ser por isso que tantos dizem que é da espontaneidade que nascem os melhores sorrisos e os melhores tropeços. Ela me derrubou. E estou rindo aqui do chão.
Mas esta história não é só minha. Esta é a história de todos nós, desses anônimos que movimentam os bares, os jardins e os cemitérios, porque até os suicidas querem ser felizes. É a história desses tantos que se esbarram pelas esquinas ou se encontram nos balcões por aí. As coisas sempre dando seu testemunho dos nossos melhores acasos. E nós como os alvos desavisados de cupidos incansáveis.
É que ela me acertou com a beirada da coxa e uma frase de humor. Primeiro o joelho, depois a franja dançando sobre os olhos. Foi o bastante para o álcool do corpo ir para alma. Fiquei bêbado num estalo. E os bêbados são tolos, mas não são mentirosos. Meu sorriso entregava minha dissimulação. Eu tentando pajear minha falta de jeito, tentando me fazer maior e mais interessante, e os dentes contando que eu já estava de joelhos, voluntariamente preso a tudo aquilo quando ela mexia os cabelos. E nos beijamos. O beijo dela como um abraço de lábios, que durava mesmo quando ela já não estava.
O tempo passava e entre um encontro e outro tinha aquela coisa que colava o último momento no próximo. Eu achava que era saudade. E isso virou meu jeito de visitar o dia não mais com esperanças tolas e expectativas além do alcance dos braços, mas livre de tudo que não fosse só o essencial. E o essencial era já não precisar de nada a não ser ela, porque ela trazia tudo.
Seu jeito de me fazer importante, mas desnecessário, era o motivo que mantinha minhas cambalhotas no picadeiro, tudo para fazê-la continuar brilhando os olhos. Porque são os cílios, vocês sabem, os delatores dos que estão apaixonados. São esses pequenos braços que acariciam a bochecha do outro. E os meus ganharam os dela num beijo de olho.
Seu sorriso era mais obsceno que qualquer decote. Eu a namorando sem ela saber, fosse comprando um ingresso para o cinema, fosse pedindo por ela antes de dormir. Fosse aceitando em mim que ela ainda tinha outros e que ainda não era só minha. E por isso, conquistá-la tinha tanto sabor.
Em casa ela fazia outra de suas mágicas. Conseguia tornar todos os cômodos em quarto. E todo canto era uma desculpa para o sexo. Nossa fantasia era aquela que se vestia num abraço. Simples assim. Nos encostávamos e isso bastava. A ansiedade por ela tinha cheiro de coisa boa, era vontade de ficar por perto. E essa gana, era nosso jeito de nos ver de novo, mesmo longe.
Eu me distraia nas suas tatuagens. E ela achava que eu era muito baixinho. Deboche que mascarava o que ela também estampava na bochecha, vermelha, também quente de vontade. Eu não gostava das suas rasteirinhas e ela não gostava de ter os pés longe do chão, mas os braços estendidos ao céu mostravam que ela queria era voar. Era livre como poucas. E na impossibilidade de voar junto, porque já tinha por demais o peso do mundo nos ombros, me tornei lugar de pouso, de onde ela ia e vinha quando queria. Era a nossa fidelidade jurada sem palavras. Fiel ao outro sem nunca pedir nada em troca.
E para ela dei tudo, até aquilo que nunca gostei em mim. Era meu jeito de dizer que ao seu lado, estava em casa e até minhas pequenezas ficavam mais interessantes. Com ela, perdi a vergonha de ficar louco. E por não me negar mais, nunca mais falei sozinho nem joguei pedras no mundo. Aprendi que as lágrimas podem esperar quando a prioridade é ser alegre. Depois disso, não parei mais de sorrir. Como nas boas histórias, ainda não consigo prever o final deste filme. Porque de tão presente na narrativa, ela se tornou minha própria vida.
Por não termos saída um para outro, vivemos todos os dias nossa impossibilidade de fuga. E, assim, tenho aprendido que nossa relação não tem fim, porque se a paixão pode morrer ou se transformar em tanta coisa, até no desgosto, o amor só pode virar a eternidade. Mas aí, quando eu achava que era amor, ela veio e me disse: “Um afeto tão novo, tão irreconhecível. Te tenho como minha nuvem, que muda de forma a cada instante. Melhor esse afeto não ter nome para não significar nada e dar sentido a tudo”.
Para você, então, meu motivo, já posso agora te contar. Saudade não é sentir a falta de alguém ausente. Saudade é quando você encontra aquela pessoa e ao abraçá-la, descobre, repentinamente, naquele momento mesmo, como ela fazia falta. É por isso que a saudade só é possível com o amor. É por isso que te esperei a vida inteira. E é isso que sinto todos os dias quanto te vejo e te abraço. Não fique longe. Porque com você ausente, minha saudade morre. E meu amor também. Porque para nós, melhor que eu te amo é tenho saudade de você.
Renato Cabral
quarta-feira, julho 27, 2011
Da preguiça
Suave Preguiça, que do mau-querer
E de tolices mil ao abrigo nos pões…
Por causa tua, quantas más ações
Deixei de cometer!
Mario Quintana
E de tolices mil ao abrigo nos pões…
Por causa tua, quantas más ações
Deixei de cometer!
Mario Quintana
terça-feira, julho 26, 2011
Amy and Dionne
Lauryn Hill 3
Essa aqui é histórica e na voz de outra diva fez marcas em minha alma. Aí, segue a letra também...
Can't Take My Eyes Off You
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
You'd be like heaven to touch
I wanna hold you so much
At long last love has arrived
I thank God I'm alive
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
Pardon the way that I stare
There's nothing else to compare
The sight of you leaves me weak
There are no words left to speak
But if you feel like I feel
Please let me know that it's real
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
I love you, baby
And if it's quite alright
I need you, baby
To warm a lonely night
I love you, baby
Trust in me when I say
Oh, pretty baby
Don't bring me down, I pray
Oh, pretty baby, now that I found you, stay
And let me love you, baby
Let me love you
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
You'd be like heaven to touch
I wanna hold you so much
At long last love has arrived
And I thank God I'm alive
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
I love you, baby
And if it's quite alright
I need you, baby
To warm a lonely night
I love you, baby
Trust in me when I say
Oh, pretty baby
Don't bring me down, I pray
Oh, pretty baby, now that I found you, stay
And let me love you, baby
Let me love you
Can't Take My Eyes Off You
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
You'd be like heaven to touch
I wanna hold you so much
At long last love has arrived
I thank God I'm alive
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
Pardon the way that I stare
There's nothing else to compare
The sight of you leaves me weak
There are no words left to speak
But if you feel like I feel
Please let me know that it's real
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
I love you, baby
And if it's quite alright
I need you, baby
To warm a lonely night
I love you, baby
Trust in me when I say
Oh, pretty baby
Don't bring me down, I pray
Oh, pretty baby, now that I found you, stay
And let me love you, baby
Let me love you
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
You'd be like heaven to touch
I wanna hold you so much
At long last love has arrived
And I thank God I'm alive
You're just too good to be true
Can't take my eyes off you
I love you, baby
And if it's quite alright
I need you, baby
To warm a lonely night
I love you, baby
Trust in me when I say
Oh, pretty baby
Don't bring me down, I pray
Oh, pretty baby, now that I found you, stay
And let me love you, baby
Let me love you
Lauryn Hill
Ela tá sumida. Afinal, acabou de ter seu sexto filho!... Poderia voltar um pouquinho pra nos dar mais coisas assim, com essa voz maravilhosa.
Lembra-te
Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
Mário Cesariny
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
Mário Cesariny
segunda-feira, julho 25, 2011
Em horas inda louras, lindas
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas,
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna !
E o tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos….
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas,
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna !
E o tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos….
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
Fernando Pessoa
sexta-feira, julho 22, 2011
Só a natureza é divina
Só a natureza é divina, e ela não é divina…
Se falo dela como de um ente
É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens
Que dá personalidade às cousas,
E impõe nome às cousas.
Mas as cousas não têm nome nem personalidade:
Existem, e o céu é grande a terra larga,
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado…
Bendito seja eu por tudo quanto sei.
Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.
Se falo dela como de um ente
É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens
Que dá personalidade às cousas,
E impõe nome às cousas.
Mas as cousas não têm nome nem personalidade:
Existem, e o céu é grande a terra larga,
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado…
Bendito seja eu por tudo quanto sei.
Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.
Fernando Pessoa
Mulher andando nua pela casa
Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d’água.
O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.
Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d’água.
O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.
Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, julho 20, 2011
70
Era um sete de setembro e ela estava lá como sempre foi. Linda, elegante e única. Eu ainda não chegava ao ombro dela, mas já a admirava. Ainda mantinha minhas mãos nos bolsos, era quieto, calado e observador. E observava. Seu porte altivo, de rosto mirando à frente, como todos devemos ser. Eu e Marelena sempre tentamos copiar isso nas fotos, mas nenhum de nós a superava. Nenhum de nós a superará.
Hoje não é sete como sete foi o dia que escrevi aqui para ela, quando ela se foi. Hoje é setenta. Setenta vezes Maria do Carmo.
sábado, julho 16, 2011
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