domingo, outubro 24, 2010

Mudança

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda!
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!

Clarice Lispector

sábado, outubro 23, 2010

quarta-feira, outubro 20, 2010

Leonard Cohen - Hallelujah

Essa música já esteve aqui em mais de uma oportunidade. Ela esteve aqui (mais aqui mesmo, aqui dentro...) mais de uma oportunidade. A mais surpreendente foi ouvi-la num lugar que não imaginava ouvi-la. E essa oportunidade me fez gostar dela ainda mais.



sábado, outubro 16, 2010

Blog do Júnior



Fica difícil pra mim falar do Júnior Degani aqui. Sou suspeito. O conheci quando eu tinha quinze meses e ele nada de meses. O meu e o pai dele foram irmãos inseparáveis e então, não falarei nada.

Mas agora o Júnior começou a publicar um blog. Venho falando pra ele fazer isso há tempos e agora ele resolveu. Poço de cultura que ele é, minha curiosidade aguçou-se pra ver os posts seguintes. Deem uma olhada aqui.

Abrigo

Que alma é essa que você traz consigo?
Que calma é essa que você faz comigo?
Em que era você tomou meu peito?
O que espera que eu faça do meu jeito?

Deu-me o tempo esse castigo?
Ou foi-me apenas um abrigo?
Pra que me guardasse
Pra que eu esperasse
Assim quieto o dia perfeito?

Tive de olhar os anos com olhos salgados
Perdi os profanos, perdi os sagrados
Pra que eu duvidasse
Pra que eu suplicasse
A volta do que não foi feito

Mas agora, esqueça o perigo
Destes tempos complicados
Olhe nos meus olhos alagados
Faça do meu peito o seu abrigo

sexta-feira, outubro 15, 2010

Saber viver

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura…
Enquanto durar

Cora Coralina

quarta-feira, outubro 13, 2010

terça-feira, outubro 12, 2010

23

O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.

Deitar-me faz em verdes pastos,
guia-me mansamente às águas tranquilas;

Refrigera a minha alma,
guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome,

Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte
não temeria mal algum, porque tu estás comigo,
a tua vara e o teu cajado me consolam;

Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos,
unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda;

Certamente que a bondade e a misericórdia
me seguirão todos os dias de minha vida,
e habitarei na casa do Senhor por longos dias.

Amém.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Luís, Paulo, Renato

Renato Russo já usou parte deste texto numa música linda chamada Monte Castelo, que já falei por aqui. Ele misturou Camões com São Paulo (Paulo de Tarso, o homenzinho que era soldado de Roma e se transformou num dos maiores propagadores do cristianismo). Renato Russo misturou tudo com seu talento e surgiu uma música linda (veja o link ali em cima).

Mas agora, segue a peça fundamental do portuguezinho que enxergava pouco, mas que sabia de muito. Quem ler os versos aí embaixo vai entender o que é ser poeta. Saber traduzir o que a Humanidade sente.


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Luís de Camões

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos

Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo

Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo

Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...

É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta

E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

Vinícius de Moraes

domingo, outubro 10, 2010

Festa na D. Luzia!

Nessa próxima semana tem o Dia das Crianças. A gente cresce, para de crescer (pelo menos na vertical...), cria cabelos brancos, deixa-os irem embora, mas é sempre a mesma coisa. Já ouvi uma mulher dizer que as mangas amadurecem, mas os homens não. Vai ver somos mesmo eternas crianças.

Então, deixo aqui uma foto de quando eu era de fato uma. O orelhudo com banca de James Bond sou eu, já grande demais para idade. O branquinho do outro lado é o Keller Garcia, irmão que é pela criação que tivemos e apenas vinte oito dias mais novo que eu (que isso fiquem bem claro, Keller...). No meio, o Carlinhos que não vejo há anos e é primo do Keller. Com o dedo na boca, meu primo e irmão Júnior Degani: Monstro Sagrado dos Assuntos Mais Interessantes, além de ser a alma mais companheira que já experimentei.

Éramos crianças. Não tínhamos alguns problemas que hoje atormentam alguns ali desta fotografia e outros que atormentam a todos. Mas espero chegar a um estágio de fazer com que aqueles problemas fiquem ultrapassados e quem sabe, fazer uma foto assim, parecida com essa e com os espíritos livres, como eles eram naquela época.

Vida longa às eternas crianças!



sábado, outubro 09, 2010

Em pedra

Pouco depois

Pouco antes

Against USA

In Madison Square Garden

In the bed

In USA

Ozzy sings John

Mother



Mother

Mother, you had me, but I never had you
I wanted you, you didn't want me
So I, I just got to tell you
Goodbye, goodbye
Father, you left me, but I never left you
I needed you, you didn't need me
So I, I just got to tell you
Goodbye, goodbye

Children, don't do what I have done
I couldn't walk and I tried to run
So I, I just got to tell you
Goodbye, goodbye

Mama don't go
Daddy come home

Mãe

Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você.
Eu quis você, mas você não me quis
Então eu, eu comecei apenas a te dizer
Adeus, Adeus
Pai, você me deixou, mas eu nunca te deixei
Eu precisei de você, mas você não precisou de mim
Então eu, eu comecei apenas a te dizer
Adeus, adeus

Crianças não fazem o que eu tinha feito
Eu não pude andar e tentei correr
Então eu, eu tenho apenas que te dizer
Adeus, adeus

Mamãe, não vá
Papai, volte para casa

Love is real

Jealous Guy

Trilha sonora de filmes que vivemos.

Jonh Lennon by Aerosmith

Lennon em todo lugar de novo

Lennon em todo lugar

sexta-feira, outubro 08, 2010

Lennon com 70


Há trinta anos e dois meses eu entrava na casa do Júnior Degani, como sempre entrei, sem bater. E fui dizendo a ele: John Lennon foi assassinado! Na hora, ele achou que era mais uma das brincadeiras sem graça que a idade acabava por cometer. Mas não era.

Na noite anterior eu havia chegado ao meu quartinho que ficava de fora do corpo da minha casa, regresso de alguma noite de estudos. Tinha ligado o rádio e naquela época o que rolava era a Rádio Mundial. E não parava de tocar Starting Over, o single do vinil que Lennon havia lançado após anos de reclusão, criando o filho Sean. John tinha feito quarenta anos e havia retomado a alegria de viver. As músicas do álbum diziam isso.

Mas a música tocava insistentemente. Na hora, achei estranho. Por que tantas vezes? Algo me dizia que havia algo estranho. Em pouco tempo veio a notícia, que já se era velha e repetida. John Lennon tinha sido assassinado.

Se isso não tivesse acontecido, John faria setenta anos hoje. Quais músicas estaria compondo? Estaria ligado na internet? Beijaria Paul McCartney? O que ele diria do Oasis? Liam Gallagher daria qual nome ao filho dele?

Se John pudesse estar agora comemorando seus setenta anos com Yoko e Sean nós também estaríamos vivendo de maneira diferente. Pelo menos, eu e Júnior Degani.





70


Todo mundo junto.

quinta-feira, outubro 07, 2010

E se eu disser

E se eu disser que te amo – assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?

E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?

E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?

Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência – essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.

Ivan Junqueira

quarta-feira, outubro 06, 2010

Japan is soft

Há anos, numa mesa cheia de papos sobre culturas, alguém disse que o Japão tinha apenas “hardware” e nada de “software”. As duas palavras, com aspas, para significar que aquele país produzia bem filmadoras, aparelhos de som, instrumentos musicais, mas não tinha expoentes em atores, diretores, músicos e por aí afora.

Usei meus tempos de cinema de arte no Cine Windsor (hoje, Vitorio’s) pra citar Akira Kurozawa, Toshiro Mifune, Ken Watanabe (mais conhecido atualmente, por ter feito O Último Samurai, com Tom Cruise). Disse também algo sobre autores (chutei muito, claro, não entendo nada de literatura japonesa... Mas nessas horas, com muita cerveja, vale qualquer coisa...).

Mas falei com propriedade de um músico/ator que sempre mereceu destaque e quase ninguém conhece. Já postei coisas dele aqui e posto de novo. Ryuichi Sakamoto é um cara fora do padrão e neste vídeo (junto com o brasileiro Jacques Morelembaum) interpreta essa maravilha de trilha sonora do filme O Último Imperador, do Bernardo Bertolucci. Aqui, além da trilha ele ainda atua. Quem nunca viu, tem que baixar pra ver.

Japão é muito mais que hardware.




terça-feira, outubro 05, 2010

domingo, outubro 03, 2010

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..."

Florbela Espanca

sábado, outubro 02, 2010

Amor

Quero um amor alucinado, depravado, tarado.
Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados.
Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante.

Quero você assim, abrasada, pedindo gozo,
Eriçada, ronronando feito gata, tesuda.
Seus seios túmidos, me furando o peito.

Quero você, pentelho contra pentelho, roçantes.
Carne encravada na carne. Bocas coladas,
Babadas, meladas, sangrando sufocadas.

Quero amar você tão bichalmente que urremos.
Eu, penetrando rasgando. Você me comendo furiosa.
Nós dois fundidos, unidos, soldados.

Você e eu, nós dois, sós, neste mundo dos outros.

Darcy Ribeiro

Francis Bacon - 3

Sem título

Vish!
Será que consigo
Devorar Nietzsche?
É bom que eu capriche
Se não há xixe
And i don’t wish.

sexta-feira, outubro 01, 2010

Leonardo da Vinci

Mim

O tempo transcorre em mim
Celeremente.
Tão afoito que finda.

Acho que sei, afinal, a que vim.
E já me vou.
Uma pena.

Não há tempo mais pra mim.
Volto à silente matéria cósmica
Que em mim, um dia, se organizou
Para me ser.
Uma vez, uma vez somente.

Darcy Ribeiro

Francis Bacon - 2

Belo Belo

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Manuel Bandeira

quinta-feira, setembro 30, 2010

Era manhã de setembro

Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro.
Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro.
O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto
Ela me beijava o membro
Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte
Morte e primavera em ramo
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede
Ela me beijando o membro
Tudo o que eu tivera sido
quando me fora defeso
já não formava sentido
Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama
Ela a me beijar o membro
Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas
Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha
tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio
como beijava uma santa
no mais divino transporte
e num solene arrepio
beijava beijava o membro
Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo
Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta
Ela me beijava o membro
O capítulo do ser
o mistério do existir
o desencontro de amar
eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia
radiante de pedrarias
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa
para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa
e me tornava disperso
todo em círculos concêntricos
na fumaça do universo
Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em dezembro

Carlos Drummond de Andrade

Passei toda a noite

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.

Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.

Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Fernando Pessoa

quarta-feira, setembro 29, 2010

Francis Bacon - 1

Viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiillllma!

Muita gente faz cinquenta anos...

Sem título

Subo neste palco
O escuro me sufoca
Filhos de Malcon McLaren
É o som que toca
Num velho cassete

Quando não mais falarem
Esqueço o texto
E tudo se repete
Meu desempenho bissexto
É o preço que se paga
E o cheiro de álcool
Traduz a sina
De setenta até sete

Num velho cassete
Não mais som toca

domingo, setembro 26, 2010

A Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira

sexta-feira, setembro 24, 2010

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

quinta-feira, setembro 23, 2010

São

Neste dezesseis de Setembro um conhecido nosso resolveu desistir. Eu não era um amigo, mas apenas um conhecido. Chegamos a tomar algumas cervejas juntos, mas o mais importante é que compartilhamos amigos. Alguns meus eram alguns dele. Ou muitos. Ele teve perdas das mais difíceis e profundas. Quem olha de fora, talvez as entenda como simples e rasas. Mas só quem está ali é que sabe como tudo acontece.

Ele deixou um texto que foi compartilhado por um dos amigos compartilhados. Nem sei se eu deveria colocar aqui esse texto. Não sei se ele gostaria ou não. Ele não me diria antes, muito menos agora. Quando o li, não pude deixar de pensar em nós, os amigos que compartilharam de sua existência. Mesmo eu, que tão pouco com ele convivi. E então, resolvi compartilhar também.

Quando li, não pude deixar de pensar em mim. Quando li, não pude deixar de pensar em perdas que sofri. Quando li, não pude deixar de pensar em pessoas que perdi. Quando li, não pude deixar de pensar em sonhos que ficaram nos caminhos. Quando li, não pude deixar de pensar nos amigos compartilhados. Mas, quando li, não pude deixar de voltar a ter os olhos em direção a sonhos que nós todos, que já tanto caminhamos, ainda podemos ter.

Paz para a alma do Sãozinho.



"Não haverá amanhã.

Quando todas as portas se fecham, abre-se o injustificável.
Uma covardia para qual se necessita uma coragem imensurável.
É o fim... meu fim.
Eu tentei...
Tentei muito...
E foi tentando que muitas vezes acertei,
e que provavelmente que eu também errei.
Vivi, sobrevivi, insisti...
Fiz de tudo um pouco, e do pouco muito.
Ainda assim este muito foi pouco.
Cansei...
Perdi a esperança... e sem ela não existe vida.
Desisti de mim, o que mais posso fazer.

Na equação da vida onde tudo é a somatória do “ser e do estar” eu me esqueci da plenitude do que é o viver.
Convivi com pessoas fantásticas.
Dentre todas, minha companheira de jornada, meu tesouro, meu baluarte, meu amor.
Tive amigos que me surpreenderam nas horas incertas e amargas, amigos de ombros largos.
Como também tive amigos que não me surpreendeu, talvez por não tiver dados a eles uma chance.
No emaranhado da vida eu me perdi,
Perdendo todos os sonhos...
E sem sonhos não se vive.

Acabei desistindo de mim.
Desistindo de tudo.
Meus motivos aos olhos de outrem podem ser fúteis,
Porem pra mim, era o meu tudo. E eu perdi este tudo.
Em algum lugar de minha existência, perdi a essência do que é viver.
Por isto não haverá amanhã pra mim.
Sem rancores, sem magoas
Apenas cansei de continuar vivendo este milagre que é a vida.
Porem para mim estava sendo muito difícil levá-la ou deixar ela me levar.
Viver nos últimos tempos era um tormento, uma tortura ver as horas passarem e eu passar com elas.
Quero estar leve
Morrer, de um jeito ou de outro, todos nós vamos um dia.
Apenas furei a fila.
Antecipei o tempo."


domingo, setembro 19, 2010

Ao coração que sofre

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Olavo Bilac

sábado, setembro 18, 2010

Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.

No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.

Ele está cá dentro
e não quer sair.

Mas a poesia desse momento
inunda minha vida inteira.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, setembro 17, 2010

Love

Foto: Annie Liebovitz

quarta-feira, setembro 15, 2010

Antônio Poteiro - 2

John and George


Quem entendeu bem os Beatles acabou sempre tendo uma certa preferência por esses dois. Não sei a razão disso e do fato dos dois terem ido primeiro. Deve ser pra sacanear mesmo...

Mas apareceu essa foto aí, dos idos de 1974 e é uma preciosidade. Deixo aqui o link do Plastic Ono Blog, que foi o primeiro blog em português que publicou a foto. Seria o meu o segundo?


segunda-feira, setembro 13, 2010

domingo, setembro 12, 2010

sábado, setembro 11, 2010

Inscrição

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?
Não encontro caminhos
fáceis de andar
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar
E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.

Cecília Meireles

Goodbye Blue Sky 091101

Celeste

Dias passam em sequência
Sem que o Sol se canse
Na sua clara essência
De buscar a sua chance

E a Lua no céu clareia
Seu próprio caminho no chão
Pr’aquilo que ela anseia

E se olham e se buscam
E se ligam e se tocam
Giram em elipses
Clamam por eclipses
Um quantum de luz
Mais que seduz
Explode em paixão
À palma da mão

E no amanhecer e no poente
Se vêem distantes
E a Lua sabe o que o Sol sente
Em todos os instantes

E o Sol no céu sozinho
Conduz seu próprio corpo
Pr’aquele que é seu caminho

Noite e dia, dia pós noite
Lua e Sol em comunhão
Separados por um açoite
Mas juntos, num só coração

sexta-feira, setembro 10, 2010

Espelho de Água

Escrevi esse poema quando eu tinha vinte anos. Algumas coisas são perenes, mesmo em meio a tantas efêmeras. E assim, mesmo agora, tantos anos depois, leio esses versos e acabo me vendo ali, na beira do rio.



Espelho de Água

Chego na beira do rio
E olho para aquele espelho de água.
Estou bem na minha frente
Me delatando
Me denunciando
Me cobrando.
Às vezes eu me olho turvamente,
Ondulantemente
Tranquilamente
Bem na mente.
Sinto-me olhando-me no fundo,
No meu fundo, do fundo do rio.
Não sei porque, mas rio,
E acho graça
Sentindo-me olhado por mim.
Aí então,
Com a minha mão,
Toco a água,
Quebro o espelho
E lavo meu rosto.



quinta-feira, setembro 09, 2010

Screen Technology

De vez em quando achamos que o futuro parece ser algo lá no horizonte. Mas às vezes, parece que ele está ali na esquina. Ou aqui na tela do computador.



terça-feira, setembro 07, 2010

Maria do Carmo

Maria do Carmo trouxe o amor em seu nome e também em seu olhar, em seu jeito de cuidar das pessoas, em sua generosidade.

Sua alma sempre mostrou a transparência de sua franqueza. E assim, por toda uma vida, a verdade foi sua palavra.

Com um coração que não lhe cabia, deixava à tona a emoção por bocas e olhos. Com a garra de quem veio antes, abraçava toda luta que lhe aparecesse.

Filha de fibra, irmã de luz. Mulher de paixão, mãe de amor, de exemplo e dedicação. Maria do Carmo trouxe o amor em seu nome. E o deixou entre nós.

Friendly words

O Júnior Degani é um contribuinte de sempre desse blog e essa é mais uma indicação dele. Esse vídeo veio junto com palavras amigas que sempre recebo dele, as quais agradeço aqui, em público.

Fistful of Mercy from Fistful of Mercy on Vimeo.



terça-feira, agosto 31, 2010

Timão

Pra começar bem Setembro. Pra começar mais cem anos de paixão.



Luar

O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque as mulheres amam os homens

Porque as mulheres amam os homens, segundo Paulo Coelho:

Amamos os homens porque eles não conseguem fingir um orgasmo, mesmo que queiram.
Porque jamais vão nos entender, e mesmo assim continuam tentando.
Porque conseguem ainda ver nossa beleza, mesmo quando nós mesmos já somos incapazes de acreditar nisso.
Porque entendem equações, política, matemática, economia, e desconhecem o coração feminino.
Porque são amantes que só descansam quando nós temos (ou fingimos) prazer.
Porque conseguiram elevar o esporte a algo próximo a uma religião.
Porque jamais tem medo do escuro.
Porque insistem em consertar coisas que estão além de suas habilidades, e se dedicam a isso com o mesmo entusiasmo de um adolescente, e se desesperam quando não conseguem.
Porque jamais ficam comentando o que o vizinho pode pensar.
Porque sabemos sempre o que estão pensando, e quando abrem a boca dizem exatamente o que imaginávamos.
Porque jamais sonharam em se torturar com saltos altos.
Porque adoram explorar nosso corpo.
Porque uma garota de quatorze anos pode deixá-los em silêncio, e uma mulher de vinte e cinco consegue domá-los sem muito esforço.
Porque são sempre atraídos por extremos: opulentos ou ascéticos, guerreiros ou monges, artistas ou generais.
Porque fazem o possível e o impossível para tentar esconder suas fragilidades.
Porque o maior medo de um homem é não ser um homem – o que jamais passa pela cabeça de uma mulher (não ser uma mulher).
Porque sempre terminam a comida que está no prato, e não sentem culpa por causa disso.
Porque acham uma graça imensa em temas completamente desinteressantes, como o que aconteceu no trabalho, ou marcas de carros.
Porque são dotados de ombros onde conseguimos dormir sem muito esforço.
Porque estão em paz com seus corpos, exceto pequenas e insignificantes preocupações a respeito de calvície e obesidade.
Porque tem uma coragem impressionante diante de insetos.
Porque jamais mentem sobre a idade que têm.
Porque apesar de tudo que tentam demonstrar, não conseguem viver sem uma mulher.
Porque quando dizemos a um deles “eu te amo”, sempre pedem para que a gente explique exatamente como.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Tin Pan Alley

Tem músicas que são sublimes, fora de qualquer padrão de comparação. No blues, isso fica sempre evidente. Não há como comparar uma interpretação com outra. Assim como não há como comparar momentos uns com outros.




sábado, agosto 28, 2010

O tempo é muito lento para os que esperam

O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.

William Shakespeare

Recuso os sonhos que te ignoram


Recuso os sonhos que te ignoram e os desejos que não possas despertar.
Não quero fazer um gesto que não te louve, nem cuidar uma flor que não te enfeite;
não quero saudar as aves que ignorem o caminho da tua janela,
nem beber em ribeiros que não tenham acolhido o teu reflexo.
Não quero visitar países que os teus sonhos não tenham percorrido como taumaturgos vindos de fora,
nem habitar cabanas que não tenham abrigado o teu repouso.
Nada quero saber de quem te precedeu em meus dias,
nem dos seres que aí permanecem.


Rainer Maria Rilke

Perguntei a um sábio

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade…

O Amor é mais sensível,

a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.

No Amor há mais carinho,

na Amizade compreensão.

O Amor é plantado

e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida companheira.

Mas quando o Amor é sincero

ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.

Quando se tem um amigo

ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.

William Shakespeare

quarta-feira, agosto 25, 2010

200 privilegiados

Em Julho, num evento beneficente para o Hoping Foundation, 200 sortudos tiveram o prazer de assistir essas duas feras tocando juntos novamente. Enjoy!

Hoping Foundation benefit performance from Hoping Foundation on Vimeo.



domingo, agosto 22, 2010

sexta-feira, agosto 20, 2010

Indivisíveis

O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra.
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Isto é,que a gente achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.
Crianças…

Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal – ou celestial – inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que diséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida…

Mário Quintana

Volpi - 5

quarta-feira, agosto 18, 2010

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:
todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.

Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.
E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos de riso e pedras.
Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,
minhas verdades, sem troca, sem equivalência nem desengano
permanece constante, obrigatório, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.

Cecília Meireles

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Mario Quintana

sábado, agosto 14, 2010

Enrubescida

Daqui, do que vejo do céu
Dali, uma nesga de Lua
Assim vermelha
Quase sangue
Exangue
Virada pra cima
Pernas abertas
Lua rubra
Enrubescida de vontade

Daqui, do que vejo do quarto
Dali, no branco lençol
Assim espelha
Quase lida
Umedecida
Vidrada na sina
Páginas abertas
Rosa rubra
Enrubescida de verdade

O amor é uma companhia

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Fernando Pessoa